A dessecação com herbicidas é uma ferramenta cuja finalidade é uniformizar a lavoura, antecipar a colheita, otimizar o tempo e reduzir perdas.
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Estamos caminhando para mais um recorde na produção de soja. Na safra anterior, o Brasil produziu cerca de 171,5 milhões de toneladas do grão. Para esta safra, a expectativa é de superar os 179,0 milhões. Porém, pouco adianta o esforço e investimento do produtor, nos quase quatro meses da semeadura à colheita, se nos passos finais for entregue um grão úmido, ardido, e com impurezas. Para evitar este cenário, o produtor conta com a dessecação.
A dessecação consiste na interrupção artificial dos processos fisiológicos da planta, com a aplicação de herbicidas, antecipando a perda de água dos tecidos vegetais. Na soja, essa prática é adotada quando a lavoura atinge o ápice da maturação fisiológica, quando o enchimento de grãos está finalizado e não há mais incremento de produtividade.
A operação é realizada por meio da aplicação foliar do herbicida. O acerto no momento da aplicação é crítico para o sucesso da prática e deve ocorrer a partir do estádio reprodutivo R7.2 a R7.3 da soja, quando as folhas das vagens estão cerca de 75,0% amareladas.
Em regiões de clima quente e seco, o ambiente favorece uma dessecação natural da lavoura. Nesses casos, a aplicação de herbicidas na pré-colheita é indicada principalmente quando há necessidade de controle de plantas daninhas.
Um dos principais ingredientes ativos é o diquat, herbicida de contato que atua na fotossíntese das folhas, ocasionando a ruptura das membranas celulares, promovendo dessecação rápida da parte aérea.
Além dele, o glufosinato de amônio, outro herbicida de contato que age ao inibir a enzima glutamina sintetase, causando acúmulo de amônia nos tecidos da planta, colapso celular e interrupção da fotossíntese, também é usado. Esse processo leva à rápida dessecação das partes verdes, sem afetar o potencial produtivo já formado.
O produtor deve executar a pulverização quando a soja estiver próxima da maturidade fisiológica, ou seja, com as folhas e vagens começando a amarelar, geralmente em torno de 10 a 15 dias antes da colheita.
É feita a mistura com um surfactante na calda para garantir boa cobertura foliar, seguindo a dosagem recomendada no rótulo. Deve-se usar equipamento de pulverização calibrado, com volume de calda adequado (por exemplo, cerca de 150–200 l/ha em pulverização terrestre com bicos tipo leque, cobrindo homogeneamente a superfície verde), aplicando em condições climáticas favoráveis (vento fraco, baixa chance de deriva e ausência de chuva iminente).
A dessecação na pré-colheita representa uma vantagem competitiva. O objetivo é antecipar a colheita, reduzindo de 7 a 10 dias o tempo da soja no campo. Isso significa menos exposição a riscos climáticos, como chuvas excessivas, altas temperaturas e pragas, além de maior previsibilidade operacional.
A antecipação da colheita também abre espaço para a semeadura mais cedo de uma segunda cultura, como o milho safrinha, otimizando o uso do tempo e da área produtiva.
Por se tratar de herbicidas, a dessecação também elimina as plantas daninhas remanescentes da safra. Embora não reverta os prejuízos já causados pela competição, contribui para evitar novos danos e facilita o manejo no final do ciclo.
Outro ponto relevante é a uniformização da maturação da lavoura, que aumenta a eficiência da colheita mecanizada e reduz perdas associadas à presença de plantas ainda verdes, especialmente por dificuldade de debulha. Por fim, a prática contribui para a redução de até quatro p.p. da umidade dos grãos.
Figura 1: Experimento conduzido pela ESALQ/USP, trazendo o comparativo dos níveis de umidade, em percentual, na soja dessecada com diquat e glufosinato de amônio, após intervalos de cinco dias, em comparação à amostra testemunha, sem utilização de herbicidas.
Nota: adaptado de A.L.S. Lacerda et al.
Fonte: ESALQ/USP | Elaboração: Scot Consultoria
Aplicações precoces, antes da maturação fisiológica, podem resultar em grãos chochos, redução de peso e prejuízos à qualidade dos grãos. Por outro lado, aplicações tardias reduzem a eficiência da dessecação e gera o risco de resíduos no grão.
Outro ponto de atenção é o risco de seleção de plantas daninhas resistentes, especialmente quando o herbicida é utilizado de forma recorrente e sem rotação de mecanismos de ação.
De modo geral, a prática envolve a aplicação de 1 a 2 litros de herbicida por hectare de diquat ou glufosinato de amônio, conforme o manejo adotado e as condições da lavoura.
Em uma propriedade com 100 hectares com soja, considerando o glufosinato de amônio a um preço médio de R$70,00 por litro, a despesa direta com o defensivo alcança aproximadamente R$10.500,00, sem incluir despesas com adjuvantes, pulverização, equipamentos e mão de obra.
No entanto, ao analisarmos o efeito da dessecação sobre a umidade dos grãos, a discussão ganha outra dimensão. Estudos indicam reduções de até 4,0 pontos percentuais na umidade, o que tem impacto direto sobre os custos logísticos.
Nesta safra, estimada em quase 180 milhões de toneladas, essa diferença de 4,0% representa aproximadamente 7,2 milhões de toneladas de água sendo transportadas com a soja, volume que será descontado já na primeira classificação nas unidades armazenadoras.
Considerando que um caminhão bitrem transporta, em média, 35,0 toneladas de soja, esse volume equivale a mais de 200 mil viagens carregando somente água ao invés do grão. Sob essa ótica, a dessecação deixa de ser apenas um custo operacional e passa a ser um componente relevante na eficiência logística e econômica do sistema produtivo, fora os demais benefícios já citados.
A dessecação pré-colheita da soja com herbicidas é uma prática estratégica quando conduzida com conhecimento técnico e responsabilidade. Seu sucesso depende da escolha correta do herbicida associado ao cultivar produzido, do respeito ao estádio fenológico da lavoura, ao intervalo de segurança até a colheita e às condições ambientais no momento da aplicação.
Quando bem manejada, promove maior uniformidade de maturação às lavouras, redução da umidade dos grãos, aumento da eficiência operacional da colheita, antecipação da colheita e do e da semeadura de segundas culturas, menor exposição a perdas e contribuição para o manejo de plantas daninhas no final do ciclo.
Assim, justifica-se pelos ganhos operacionais, pela preservação da qualidade do produto colhido e pela maior previsibilidade e sustentabilidade do sistema produtivo, validando o esforço do produtor durante todo o percurso da safra.
Referências
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