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Da evidência ao valor: o que precisa funcionar para uma solução chegar ao campo

Se uma experiência consegue integrar produção e conservação, será necessário entender quais instituições, mercados, tecnologias, fontes de financiamento e formas de organização tornam isso possível.


Foto: Shutterstock

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Uma experiência pode produzir bons resultados ambientais e ainda assim não ser economicamente viável, financiável ou replicável. O desafio está em entender o que existe entre uma boa ideia e sua implementação no campo.

Nos dois textos anteriores, partimos de duas questões diferentes, mas relacionadas. A primeira foi a evidência. Um sistema produtivo não se torna sustentável simplesmente porque recebe determinada denominação.

A segunda foi o valor. Mesmo quando determinado resultado pode ser demonstrado, isso não significa que ele produzirá automaticamente receita ou vantagem econômica para quem conserva. É necessário existir algum mecanismo capaz de transformar aquela evidência em uma decisão de mercado, crédito, financiamento ou pagamento.

Há uma terceira etapa que pode ser ainda mais difícil. Uma solução pode funcionar ambientalmente e possuir uma lógica econômica aparentemente consistente, mas fracassar quando chega à realidade de uma propriedade rural.

Entre conceito e implementação existe uma série de condições que nem sempre recebe a mesma atenção dada aos indicadores ambientais ou aos modelos de negócio.

Investimento inicial, custo operacional, infraestrutura, logística, escala, risco, assistência técnica, prazo de retorno, capacidade de financiamento e organização da cadeia podem definir se determinada alternativa permanece como boa experiência isolada ou consegue realmente ganhar escala.

São situações que valem uma pesquisa comparativa internacional sobre compreender por que determinadas experiências funcionam onde estão e quais condições seriam necessárias para que algo semelhante pudesse funcionar aqui.

Sustentabilidade e viabilidade não são a mesma pergunta

Essa separação parece óbvia, mas muitas discussões sobre conservação em propriedades privadas acabam misturando as duas coisas.

Uma prática pode contribuir para manter funções ecológicas e ainda apresentar retorno insuficiente para justificar o investimento. Outra pode gerar receita, mas produzir efeitos ambientais incompatíveis com o objetivo de conservação.

Há também alternativas tecnicamente interessantes que dependem de infraestrutura inexistente, mão de obra especializada ou mercados que simplesmente não estão disponíveis em determinada região.

Por isso, demonstrar que uma solução é sustentável não encerra a análise.

Em diferentes estudos, resultados econômicos variaram conforme contexto produtivo e institucional e isso não são conclusões em regras gerais, apenas mostram que a pergunta sobre sustentabilidade precisa ser acompanhada de outro questionamento no sentido de olhar para o modelo que funcione nas condições reais em que deverá ser implementado.

O primeiro obstáculo pode ser o investimento

Mudanças produtivas normalmente têm custo. Recuperar uma área, implantar infraestrutura, reorganizar pastejo, cercar setores, melhorar sistemas de água, introduzir uma nova atividade produtiva, instalar equipamentos ou iniciar um processo de monitoramento exige capital antes que qualquer benefício apareça.

Esse investimento inicial, a despesa de capital (recursos financeiros que uma empresa investe para adquirir, melhorar ou prolongar a vida útil de ativos fixos de longo prazo), pode inviabilizar uma solução que pareça economicamente atraente no longo prazo.

Uma propriedade com boa capacidade financeira pode absorver determinado investimento com recursos próprios. Outra dependerá de crédito. Uma terceira pode precisar de prazo de carência compatível com o período de implantação.

Se o financiamento disponível tiver prazo, juros ou garantias incompatíveis com o fluxo esperado, uma alternativa teoricamente rentável pode não chegar a ser adotada. Financiabilidade, portanto, não é detalhe posterior ao modelo de negócio. Em muitos casos, é parte do próprio modelo.

Depois do investimento vêm os custos para manter o sistema

Monitoramento, manutenção, auditoria, certificação, assistência técnica, registros, mão de obra e tecnologia podem gerar custos recorrentes ao longo dos anos e isso é particularmente relevante quando o valor econômico depende de comprovação.

Se determinado mercado exige evidência periódica, essa evidência passa a integrar a estrutura de custos da produção. Se houver auditoria, alguém precisará pagá-la. Se o resultado depender de monitoramento contínuo, o sistema precisa permanecer operacional depois da implantação inicial.

Um modelo pode gerar valor bruto e ainda produzir pouco valor líquido ao produtor quando os custos de transação são elevados. Essa é uma das razões pelas quais o custo da evidência precisa ser investigado junto com o próprio benefício ambiental.

Escala pode mudar completamente a conta

Há modelos que funcionam para uma grande empresa e não funcionam para um produtor individual. O custo de uma plataforma, auditoria ou processo de verificação pode ser relativamente pequeno quando distribuído entre milhares de animais ou centenas de propriedades. O mesmo custo pode ser proibitivo se recair integralmente sobre uma operação pequena.

A escala também influencia logística, processamento e comercialização. Um produto associado à conservação pode possuir valor diferenciado, mas isso pouco significa se não houver volume suficiente para atender compradores de forma regular. Uma atividade complementar pode ser rentável por unidade e inviável quando transporte, armazenamento e acesso ao mercado são considerados.

Em alguns casos, a solução para esse problema estará na organização coletiva. Cooperativas, associações, frigoríficos, plataformas ou outras estruturas podem concentrar volume e diluir custos que seriam excessivos para propriedades isoladas.

Isso significa que, ao estudar uma experiência internacional, não basta olhar para a fazenda. É necessário entender toda a estrutura que permite que aquela fazenda participe do modelo.

A logística também faz parte da conservação quando existe mercado

Um produto pode ser ambientalmente interessante e comercialmente valorizado no destino, mas entre a propriedade e o comprador existe uma cadeia. Distância, transporte, armazenamento, processamento, regularidade de oferta e acesso a infraestrutura podem alterar completamente a viabilidade.

Esse problema é especialmente relevante quando se pretende diversificar a geração de renda em propriedades privadas. Produtos florestais não madeireiros, por exemplo, apresentavam potencial econômico e de conservação, mas dependem de cadeias produtivas estruturadas. Outros estudos indicam barreiras técnicas e de mercado mesmo em alternativas que apresentavam benefícios ambientais.

Portanto, existência de produto não significa existência de mercado. Da mesma forma, existência de mercado em determinado país ou região não significa que ele possa ser reproduzido em outra localidade.

O risco define quem aceita financiar

Do ponto de vista do produtor, risco envolve muito mais que a possibilidade de uma tecnologia não funcionar. Há risco de preço, clima, produtividade, demanda, regulamentação e execução.

Um novo modelo pode demandar investimento por vários anos antes de atingir escala comercial. Pode depender de um comprador ou de uma política pública que mude no futuro.

Do ponto de vista do financiador, esses mesmos riscos afetam prazo, garantia, custo de capital e disposição para conceder crédito. É possível, portanto, que uma atividade produza benefícios ambientais claros e ainda encontre dificuldade para obter financiamento porque seu fluxo de caixa é incerto ou porque os ativos oferecidos como garantia não correspondem à estrutura exigida pelo agente financeiro.

Pesquisar conservação em propriedades privadas precisa incorporar esse problema. Não basta identificar quem estaria disposto a pagar pelo resultado. Também é necessário entender quem financia o caminho até ele.

Confiança é o elo entre evidência e capital

Quando o problema passa para financiamento e investimento, surge uma camada adicional: confiança.

O comprador precisa confiar na informação que sustenta determinado atributo. O banco precisa confiar nos dados utilizados na análise. Um investidor precisa entender o risco. Quem paga por um serviço ambiental precisa acreditar que o resultado contratado está sendo entregue.

A confiança pode depender de auditoria independente, protocolo reconhecido, dados rastreáveis, monitoramento remoto, fiscalização pública ou diferentes combinações desses instrumentos.

Quanto mais complexo o sistema de verificação, maior pode ser a confiança, mas também maior o custo. Existe, portanto, um equilíbrio que precisa ser observado em cada modelo.

A melhor evidência não é necessariamente a mais sofisticada. Para funcionar economicamente, ela precisa ser suficientemente confiável para a decisão que está sendo tomada e ter custo compatível com o valor gerado.

Quando uma experiência internacional parecer bem-sucedida, o primeiro impulso não deverá ser perguntar como reproduzi-la no Brasil. Será necessário desmontá-la.

Que atividade produtiva sustenta a propriedade? Qual função de conservação está sendo mantida ou recuperada? Como esse resultado é demonstrado? Quem reconhece essa evidência? Quem paga? Existe prêmio, crédito, pagamento ambiental ou apenas acesso a mercado?

Depois dessa primeira camada, entra a viabilidade. Quanto foi necessário investir? Quem financiou? Quais custos permanecem depois da implantação? Qual infraestrutura já existia? O modelo depende de escala? Há subsídio público? Existe comprador garantido? O risco fica com o produtor ou é compartilhado?

Somente então faz sentido discutir transferência. Um modelo apoiado por elevados subsídios públicos podem ter pouco potencial de reprodução em um contexto sem mecanismo equivalente.

Uma solução que depende de cadeia logística madura pode não funcionar em regiões sem essa infraestrutura. Uma atividade baseada em contratos de longo prazo pode ter dificuldades em mercados mais fragmentados.

Por outro lado, o mecanismo central de uma experiência pode ser útil mesmo quando o modelo completo não for transferível. Talvez o aprendizado esteja na forma de monitorar, na distribuição do custo da verificação, na estrutura de financiamento, na organização coletiva dos produtores ou no desenho contratual.

O teste brasileiro

A Reserva Legal será uma aplicação prioritária dessa reflexão, mas não deve limitar o benchmark.

O Código Florestal admite diferentes possibilidades de manejo sustentável e uso econômico sob as condições legais aplicáveis. A legislação reconhece, por exemplo, a possibilidade de exploração econômica em determinadas formas de recomposição e define manejo sustentável como administração da vegetação natural voltada à obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais com respeito aos mecanismos de sustentação do ecossistema.

A existência jurídica dessa possibilidade não resolve a viabilidade econômica. É preciso identificar o que pode ser produzido, com qual manejo, sob quais condições ambientais, quem compraria, que investimento seria necessário e como o modelo seria financiado.

Um benchmark internacional não pressupõe que modelos internacionais sejam aplicáveis às nossas condições. O interesse está em observar mecanismos.

Se uma experiência consegue integrar produção e conservação, será necessário entender quais instituições, mercados, tecnologias, fontes de financiamento e formas de organização tornam isso possível.

Ao final, talvez algumas soluções apresentem alto potencial de adaptação. Outras poderão oferecer apenas componentes úteis. Algumas provavelmente dependerão de condições tão específicas que sua transferência não fará sentido.

O aprendizado relevante para a pecuária brasileira será uma compreensão mais disciplinada das condições necessárias para transformar conservação demonstrável em atividade economicamente viável e implementável.

A próxima etapa acrescenta uma pergunta decisiva: o modelo consegue funcionar fora do papel, no fluxo de caixa, na infraestrutura e na realidade operacional de quem produz?

Conheça mais da pesquisa internacional que acontecerá em 2027

Pedro Puttini, autor do artigo, foi aprovado para participar do Nuffield Global Agribusiness Program 2027, aberto para apoio financeiro de empresas e interessados no projeto.

A pesquisa “Conservação e Produção em Terras Privadas: modelos de negócio e experiências internacionais para gerar valor integrando conservação e produção”, pretende ampliar a investigação iniciada no Brasil por meio de um benchmark internacional sobre experiências que integrem conservação, produção e modelos de negócio, dando uso econômico para as áreas de reserva legal no Brasil.

Empresas e instituições interessados em conhecer a pesquisa, compartilhar experiências ou conversar sobre formas de apoio ao projeto podem entrar em contato pelo e-mail pedroputtini.br@gmail.com.

Informações sobre o programa estão disponíveis no site oficial da Nuffield International Farming Scholars, e nas redes sociais da Nuffield Brasil: LinkedIn e Instagram.

Pedro Puttini Mendes

Advogado (OAB/MS 16.518, OAB/SC 57.644), Consultor e Professor em Direito Agrário e Ambiental. Doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Socioambiental pela Universidade do Estado de Santa Catarina (2025), Mestre em Desenvolvimento Local (2019) e Graduado em Direito (2008), ambos pela Universidade Católica Dom Bosco. É comentarista de Direito Agrário para o Canal Rural. Organizador e coautor de livros em direito agrário, ambiental e aplicado ao agronegócio. É membro fundador da União Brasileira da Advocacia Ambiental (UBAA) e membro das comissões ativo de comissões de Direito Ambiental e Direito Agrário da OAB desde 2013, tendo exercido a função de Presidente da Comissão de Assuntos Agrários e Agronegócio da OAB/MS (2013/2015).

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