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Carne Baixo Carbono: um protocolo de pecuária virtuosa

O que é? Quem regulamenta? E como a ciência pode contribuir para tornar a produção mais rentável dentro da fazenda?


Foto: Shutterstock

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Recentemente, participei de um evento na Embrapa Gado de Corte no qual foi apresentado um novo protocolo, Carne Baixo Carbono (CBC), criado por colegas desta unidade em colaboração com outras unidades da Embrapa. Este artigo é uma compilação das apresentações, destacando seus pontos principais para dar uma boa ideia do protocolo. Referências de publicações com informações mais detalhadas são fornecidas após as considerações finais.

O que é o protocolo Carne Baixo Carbono (CBC)?

O protocolo Carne Baixo Carbono (CBC) é um sistema de certificação voluntária que oferece um caminho para valorizar a carne produzida dentro dos princípios da sustentabilidade. O objetivo básico é mitigar o carbono emitido e aumentar seu estoque no solo de forma quantificável. O resultado final, contudo, deve ser uma produção mais sustentável e lucrativa. Ele envolve toda a cadeia, da fazenda ao frigorífico, visando, também, ganhar mercados mais exigentes

Diferente do Carne Carbono Neutro (CCN) que exige árvores, o protocolo anterior do qual ele deriva, a CBC abrange sistemas pastoris e agropastoris, portanto, sem o componente arbóreo.

A estrutura do programa CBC baseia-se em uma tríade:

Embrapa: é a detentora das diretrizes técnicas baseadas em ciência do protocolo e o coordena.

NA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil): gere a plataforma Agritrace Animal, onde ocorre o cadastro das fazendas, a gestão dos dados de rastreabilidade que permite o abate certificado.

MBRF (Marfrig): Parceira comercial licenciada que detém a exclusividade da marca por 10 anos, sendo responsável pelo abate dos bovinos certificados e pela comercialização da carne.

A governança e operação do Protocolo se baseia nesse sistema composto por atores independentes e na descentralização, incluindo a exigência de auditorias independentes (acreditadas pela ISO 17065), tudo para evitar fraudes e garantir a segurança de todos os envolvidos.

As certificadoras independentes realizam auditorias documentais e in loco, nas quais  67 critérios na fazenda e 14 critérios na indústria são verificados. Para a entrada da fazenda no protocolo, há 20 critérios obrigatórios. O processo é rigoroso e a avaliação utiliza escores de -1 (risco crítico), 0 (cumprimento da lei/linha base) e +1 (excelência) que cada um dos itens pode receber. A auditoria é refeita a cada dois anos, forçando o produtor a subir uma "escada de conformidade" que exige evolução técnica e, portanto, melhora a qualidade da propriedade e aumenta sua produtividade.

A participação do CNA:

O Agritrace Animal é onde tudo se encontra: o cadastro da fazenda, as auditorias das certificadoras e o registro de abate. É o repositório seguro que faz o "encontro de contas" entre os bovinos certificados e o abate. É o coração da segurança do sistema, bloqueando automaticamente qualquer não conformidade e garantindo total rastreabilidade. Trata-se de um sistema seguro, desenhado para evitar fraudes. O Agritrace já monitora 1,6 milhão de bovinos, com uma valorização média de 6,5% nos protocolos de adesão voluntária.

Alguns exemplos dos critérios exigidos pelo protocolo:

Do ponto de vista da conformidade “Ambiental e Social”, a fazenda deve estar 100,0% regular com o Código Florestal (CAR ativo), não ter desmatamento nas áreas CBC após 2008 e estar livre de pendências trabalhistasAbaixo, alguns requisitos de solo, pastagem e do rebanho.     

Solo

O solo como um elemento fundamental para qualquer produção sustentável, evidentemente, tem destacada importância no CBC. É proibido o uso de fogo e o revolvimento do solo fora da fase de estabelecimento. O foco é manter o solo coberto, favorecendo a adoção do plantio direto. Pode haver exceções no caso do revolvimento, mas não para ocorrência de erosão.

É obrigatório fazer o monitoramento do estoque de carbono. As amostragens devem ser georreferenciadas e feitas nas profundidades de 0-20 cm e 20-40 cm no final do período chuvoso. A ideia é usar o solo como um "estoque" de carbono que precisa ser monitorado. O carbono orgânico é a análise mais comum, mas o carbono total (que é mais caro) é o que abre as portas para o mercado de créditos de carbono no futuro.

Pastagens

Já para pastagens, o único critério obrigatório é o ajuste de lotação: não pode ser pasto rapado, nem com sobra excessiva de forragem. O foco é o controle de altura, respeitando os valores de entrada e saída dos animais recomendados para a forrageira em questão. Apesar de, independente do método usado,  o importante ser evidências documentais e visuais desse manejo, são sugeridas ferramentas modernas, como monitoramento por satélite e aplicativos (como AgroTag e Pasto Certo), para ajudar no ajuste, bem como a “Régua de Manejo”. Quanto melhor o manejo, mais pontos o produtor ganha na "escada da conformidade”.

A cobertura do solo pela forragem deve ser mantida acima de 70,0% a 80,0%. Medidas de qualidade do estado da pastagem são o foco das exigências não-obrigatórias. Por exemplo, a excelência (+1) é atingida se são realizadas mais de oito medições de altura georreferenciadas e quando se tem uma cobertura de solo superior a 80,0% para gramíneas cespitosas ou 90,0% para as decumbentes. O controle de invasoras é rigoroso: infestações entre 20,0% a 30,0% são penalizadas com -1, enquanto níveis abaixo de 9,0% garantem a nota máxima.

Rebanho

Os requisitos para os bovinos visam a eficiência produtiva para reduzir a idade de abate e, consequentemente, a emissão de metano. O animal deve entrar no protocolo com até 10 meses e ser abatido, preferencialmente, até os 30 meses (limite de 36 meses para 100,0% do lote). Pelo menos 2/3 do peso vivo do bovino deve ser obtido em regime de pasto. Se houver suplementação acima de 0,8% do peso corporal, ela deve durar menos de 120 dias. O protocolo tem uma parte específica sobre a questão de terminação.  O confinamento ou semiconfinamento (TIP) pode durar no máximo 120 dias. Essas restrições de tempo fora do confinamento, do nível de suplementação no pasto e do peso mínimo obtido em pastagens, visam prestigiar a produção baseada em forragens e garantir também os ganhos de sequestro de C graças aos vigorosos sistemas radiculares das nossas forrageiras.

No caso de confinamento, o cuidado com o sombreamento e o bem-estar contam pontos extras. Além disso, o uso de mais de 85,0% de concentrado ou mais de 25,0% de coprodutos na dieta garante a pontuação +1, devido à menor pegada de carbono desses insumos.

O cálculo da intensidade de emissão

A base científica para o cálculo da pegada de carbono é a Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) "do berço à porteira". A Calculadora CBC, desenvolvida pela Embrapa, é uma ferramenta tropicalizada que considera as emissões pela fermentação entérica, pelos dejetos, pela produção dos alimentos, pela energia elétrica e aquela usada no transporte, descontando eventual sequestro pelo solo.  Ela se baseia no IPCC 2019 (Tier 2) e em bancos de dados, como o BRLUC para contabilizar emissões de mudança de uso da terra e o Ecoinvent para insumos. Ela fornece uma visão estática ("foto") do sistema, permitindo ao produtor identificar gargalos de emissão e melhorar a gestão da propriedade em termos de perfil das emissões. Uma oportunidade de mudar o perfil, por exemplo, seria ter parte da energia elétrica da fazenda produzida por meio de painéis solares, que não tem emissão associada ou uma maior parte dos alimentos produzidos na própria fazenda em áreas consolidadas, ou seja, com mais de 20 anos de aberta.

O papel do frigorífico

O MRBF foi a empresa que apostou no desenvolvimento do protocolo. Ela já usa o Marfrig Club para bonificar quem segue as boas práticas. No frigorífico, o processo com os bovinos na categoria CBC é rigoroso: há horários específicos para abater os bovinos certificados e as carcaças recebem etiquetas especiais para garantir que o consumidor saiba exatamente de onde veio aquela carne.

A palavra de um auditor, conselheiro na elaboração do protocolo

O agrônomo Sérgio Pimenta, da Consultoria 360,  trouxe sua experiência em auditoria e certificação para o protocolo CBC. Um ponto importante ressaltado por ele foi que, no caso do CBC, o auditor precisa ver a realidade do campo, não se limitando a checar documentações. Portanto, esse auditor deve entender de pecuária para efetivamente ver se, o que está no relatório, de fato bate com a realidade do campo. Comentou, também, que o balanço de massas é essencial para a integridade do produto, ou seja, nunca deve haver uma produção de Carne Baixo Carbono que não esteja suportada pela quantidade de bovinos abatidos.

Estudos de caso demonstram a viabilidade econômica do protocolo:

Testes em fazendas reais mostraram que o manejo CBC não só ajuda o planeta, mas dá mais lucro. O  Boletim de Pesquisa 54, por exemplo, traz os resultados da validação dessas diretrizes em uma Unidade de Referência Tecnológica (URT) no Cerrado baiano, a Fazenda Trijunção. Os dados demonstram que a adoção do protocolo CBC traz benefícios econômicos e ambientais:

Produtividade: enquanto o manejo tradicional da fazenda manteve uma taxa de lotação de 0,89 UA/ha, o sistema CBC alcançou 2,33 UA/ha, no primeiro ano.

Desempenho animal: o ganho por área foi cerca de 3,2 vezes maior no sistema CBC. 

Mitigação de emissões: o estudo na Trijunção mostrou que a intensidade de emissão caiu de 7,29 kg para 5,64 kg de CO2-eq por kg de carcaça no sistema CBC.

Solo: o estoque de carbono na camada de 0-20 cm foi superior no sistema CBC em comparação ao manejo tradicional e à vegetação nativa. Em áreas CBC, foi de 20,6 Mg/ha, contra 15,4 Mg/ha observado na vegetação nativa de Cerrado (no primeiro ano de avaliação), evidenciando o potencial das pastagens bem manejadas como dreno de carbono. Observou-se, através de atividade enzimática, melhoria no vigor biológico do solo do sistema CBC.

Rentabilidade: o manejo CBC gerou um lucro adicional de R$589,72 por hectare no período analisado de dois anos, ou seja, quase R$300,00/hectare/ano. Isso é uma prova que o “básico bem feito”, orientado pela ciência, aumenta a margem bruta do produtor. Esse resultado decorre da maior produtividade por área e, considerando antecipação da entrada no confinamento em cerca de 180 dias em comparação ao lote convencional, o que libera área de pasto e permitiria até aluguel destas pastagens liberadas, poderia ser ainda maior.

Considerações finais

A possibilidade de adesão ao protocolo deve se iniciar a partir de outubro de 2026, quando o protocolo deverá estar disponível na plataforma Agritrace Animal da CNA.

Por ajudar na intensificação sustentável, ele deve ser, em breve, incluído em políticas públicas como o Plano ABC+ e o Plano Safra. Isso deve garantir valores menores de financiamento para fazendas adotantes do CBC. Pagar juros menores, no caso de fazenda com CBC, é uma questão de justiça, uma vez que trata-se de uma operação economicamente mais segura, desde a primeira auditoria com o mínimo de requisitos atendidos e se torna ainda mais ao atingir o final da “escala de conformidade”.

Ter vantagens econômicas é importante, pois, além dos investimentos para atender os requisitos, há o custo da certificadora. A exceção seriam as primeiras fazendas que já são fornecedoras, em que o próprio MBRF arcaria com o custo. Todavia, a tendência é que o custo recaia ao produtor, mas, nesse caso, em contrapartida, espera-se que ele receba uma bonificação pela Carne Baixo Carbono produzida.

Para que haja boa adesão dos produtores, a facilidade em crédito pode ajudar, mas deve ser ainda mais determinante a relação entre o custo de certificação e a contrapartida da valorização da carne produzida dentro do protocolo. O produtor, todavia, não deve ignorar os próprios benefícios que a melhoria do nível em participar do programa oferece, com melhoria na eficiência produtiva e rentabilidade e a consequente valorização de sua propriedade. Por fim, o acesso a mercados mais exigentes vem em benefício de toda a cadeia e embute em si o fato de demonstrar o comprometimento do setor em ser parte da solução da questão ambiental, um ganho para toda a sociedade.

Mais informações:

Protocolo Carne Baixo Carbono

Link: https://www.embrapa.br/busca-de-solucoes-tecnologicas/-/produto-servico/13342/protocolo-carne-baixo-carbono

Observação: Página com informações sobre o protocolo e acesso a três publicações, incluindo o Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento 54, com as informações da validação da Fazenda Trijunção.

Guia para a produção de Carne Baixo Carbono

Link: https://amigosdaterra.org.br/biblioteca/guia-para-a-producao-de-carne-baixo-carbono-aplicacao-do-protocolo-carne-baixo-carbono-cbc-da-embrapa/

Sergio Raposo de Medeiros

Engenheiro agrônomo, formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado pela mesma universidade. É pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste e especialista em nutrição animal com enfoque nos seguintes temas: exigência e eficiência na produção animal, qualidade de produtos animais e soluções tecnológicas para produção sustentável. É membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS).

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