• Quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Assine nossa newsletter
Scot Consultoria

Suplementação animal em pasto no período de seca – Parte 1

Experimento mostra que uso de concentrado no período pode resultar em altos ganhos individuais e produção de carcaças com características desejadas.


Foto: Shutterstock

Foto: Shutterstock

Entre abril e julho de 2026 escrevi uma série de quatro textos sobre a suplementação animal em pasto nos períodos de chuvas e de transição chuva/seca com o objetivo de apresentar resultados de pesquisas sobre suplementação de bovinos em pastagens manejadas intensivamente.

Neste dia 16 de agosto de 2026 estou iniciando a série de textos sobre a suplementação animal em pasto no período de seca associando o manejo de pastagens com a suplementação animal em pasto, estratégia que possibilita maximizar o desempenho individual e a produtividade por área. Para tal, vou usar o banco de dados que tenho de resultados de pesquisas que orientei em fazendas de pesquisa, de resultados de campo em fazendas comerciais que atendo e de resultados de pesquisas de outras fontes.

Os primeiros resultados que apresentarei são de um experimento conduzido no bioma Cerrados, entre os meses de junho e setembro, na estação de inverno, que na região tropical do Brasil coincide com o período da seca, totalizando 95 dias.

Objetivou-se neste experimento avaliar os efeitos de diferentes níveis de suplementação proteica-energética sobre o desempenho animal e as características de carcaça de bovinos machos inteiros da raça Nelore.

O trabalho foi conduzido em uma área total de 8 hectares (ha) dividida em dois módulos de pastoreio, de 4 ha cada, divididos em 12 piquetes. Em um dos módulos estava estabelecido o Panicum maximum cv. Mombaça e em outro o Panicum maximum cv. Tanzânia. O método de pastoreio utilizado foi o de lotação rotativa.

Durante o experimento foram avaliados 22 bovinos da raça Nelore, machos inteiros, com taxa de lotação de 2,75 cabeças/ha (22 animais/8 ha). Não houve período de adaptação porque antes do início deste experimento os bovinos já estavam nestas pastagens suplementados com múltiplo proteico/energético no nível de 0,3% do peso corporal.

Durante o experimento os bovinos foram suplementados com concentrado nos níveis de oferta de 2,0% (T1) e 1,5% (T2) do peso corporal. Cada tratamento foi encerrado quando alcançou um consumo total de 500,0 kg do suplemento. No 75° dia experimental o grupo de bovinos do T2 atingiu tal consumo e os bovinos do T1 permaneceram mais 20 dias, totalizando 95 dias experimentais.

Durante o experimento foram feitas três pesagens, a primeira no início do estudo, a segunda aos 75 dias e uma terceira, só para os bovinos do T1, aos 95 dias. Antes de cada pesagem e avaliação por ultrassonografia os bovinos foram submetidos a períodos de jejum de sólidos por 16 horas.

Para avaliação das características de carcaça foi utilizado o aparelho de ultrassonografia Aloka SSD 500V (EletroMedicina Berger, Ltda), equipado com um transdutor linear de 3,5 MHz de frequência e 17,2 cm de comprimento. Foi utilizado óleo vegetal como acoplante acústico. As imagens foram salvas em computador e posteriormente analisadas em um software específico por um técnico certificado. A partir dessas mensurações foram obtidas 88 imagens.

Os dados de área de olho do lombo (AOL) foram mensurados entre a região da 12ª e 13ª costelas, transversalmente ao músculo Longissimus dorsi, já a espessura de gordura subcutânea (EGS) foi medida a ¾ da borda medial sobre o mesmo músculo Longissimus dorsi, e as imagens de espessura de gordura da picanha (EGP), coletadas na garupa, entre o íleo e o ísquio, sendo avaliada a espessura de gordura na picanha. Por meio das imagens de ultrassom foram calculados, por equações de predição, o peso e a percentagem da porção comestível das carcaças, (PERPC e PESPC), a fim de estimar o rendimento dos cortes de alto valor comercial.

Após a última pesagem e avaliação por ultrassonografia dos bovinos de cada tratamento, foi realizado o embarque e transporte até o frigorífico, com uma duração de viagem de aproximadamente quatro horas. O abate foi realizado no dia seguinte, sendo os bovinos submetidos às etapas no frigorífico:

Recepção,

banho de aspersão,

atordoamento,

sangria,

esfola,

evisceração,

corte de carcaça

e refrigeração.

Os bovinos foram pesados ao final da linha de abate onde se obteve o peso de carcaça quente (PCQ). Com base nesses dados foi calculado o rendimento de carcaça dos bovinos (RC).

O delineamento utilizado foi o de blocos casualizados, sendo os dados submetidos à análise estatística pelo software SISVAR, versão 5.1, e as médias comparadas pelo teste de Tukey ao nível de 5,0% de significância.

Na tabela a seguir estão descritos os resultados do desempenho dos bovinos em pasto e das características de suas carcaças. Os dados apresentados foram coletados nos dias 95 e 75, para os tratamentos 1 e 2, respectivamente.

Tabela 1. 
Resultados de desempenho animal suplementados em pasto e das características de suas carcaças avaliadas por ultrassonografia.

Parâmetro Unidade T1 (1,5% PC) T2 (2,0% PC)
PCi kg 397,09 a 395,27 a
PCf kg 508,63 a 498,81 a
PCm kg 452,86 447,04
GMD kg/cabeça/dia 1,174 b 1,380 a
EA kg de ganho/kg consumido 0,17 0,15
GC kg/cabeça/dia 0,96 1,24
TLi UA/ha 2,42 2,41
TLf UA/ha 3,10 3,04
Produtividade kg/ha em 75 dias 242 284
Produtividade @/ha em 75 dias 9,19 11,06
RC % 56,96 b 58,30 a
PCQ1 kg 289,68 a 290,72 a
PCQ2 @ 19,31 19,38
AOL cm² 78,29 a 73,93 b
EGS mm 4,57 a 3,86 b
EGP mm 6,79 a 5,80 a
PESPC kg 207,82 a 200,96 a
PERPC % 70,85 a 70,84 a

PCi: peso corporal inicial; PCf: peso corporal final; PCm: peso corporal médio; GMD: ganho médio diário; EA: eficiência alimentar; GC: ganho de carcaça; TLi: taxa de lotação inicial; TLf: taxa de lotação final; RC: rendimento de carcaça; PCQ: peso de carcaça quente; AOL: área de olho de lombo; EGS: espessura de gordura subcutânea; EGP: espessura de gordura da picanha; PESPC: peso da porção comestível; PERPC: percentagem da porção comestível.
Letras iguais, na linha, não diferem estatisticamente pelo teste de Tukey ao nível de 5,0% de significância.
Fonte: LIMPIAS, 2019.

Observa-se que a suplementação de bovinos a pasto em níveis altos, entre 1,5% a 2,0% do peso corporal, possibilitou maximizar o desempenho animal individual, com ganhos diários de 1,17kg a 1,38kg de peso corporal, ganhos diários de carcaça entre 0,96kg a 1,24kg, e produtividade por área entre 9,19 a 11,06 @/ha em apenas 75 dias, em plena estação da seca, e ainda produzir carcaças de padrão desejável em rendimento e peso de carcaça, cobertura de gordura e rendimento da porção comestível.

A suplementação nestes níveis (1,5% a 2,0% do peso corporal) além de resultar em altos ganhos individuais e produção de carcaças com características desejadas, contribui para manter altas taxas de lotação (2,73 UA/ha, neste experimento) em plena estação da seca em função do efeito substitutivo provocado pelo concentrado.

Adilson de Paula Almeida Aguiar

Zootecnista, professor em cursos de pós-graduação nas Faculdades REHAGRO, na Faculdade de Gestão e Inovação (FGI) e nas Faculdades Associadas de Uberaba (FAZU); Consultor Associado da CONSUPEC - Consultoria e Planejamento Pecuário Ltda; Investidor nas atividades de pecuária de corte e de leite.

<< Notícia Anterior
Buscar

Newsletter diária

Receba nossos relatórios diários e gratuitos

Assine nossa newsletter

Loja