O produtor individual tem pouca influência sobre a formação do preço de commodities. O preço de referência costuma ser formado por uma combinação de oferta, demanda, estoques e câmbio.
Foto: Freepik
Commodities são mercadorias básicas, negociadas em grande escala e com baixa diferenciação comercial. Produtos como carne bovina, soja, milho, café, algodão, açúcar, carnes, petróleo e minério de ferro são exemplos.
Define-se mercadoria básica como: um bem que pode ser comparado e comercializado por padrões de qualidade, quantidade, prazo e entrega, e não por marca. Por isso, quando se fala em commodity, o comprador tende a olhar primeiro para preço, padrão do produto, disponibilidade, logística e referência de mercado (PEREIRA; SANTOS, 2017; BAFFES; NAGLE, 2022).
Isso não significa que todas as commodities sejam idênticas. Café, boi gordo, carne bovina, soja, milho, algodão, minério e petróleo têm diferenças de qualidade, origem, certificação e uso. A diferença é que essas características são traduzidas em padrões, prêmios ou descontos, permitindo que o produto seja negociado em mercados físicos, contratos de longo prazo, bolsas e contratos futuros (GOMES, 2002; OLIVEIRA, 2020).
Essa característica explica por que o produtor individual, tem pouca influência sobre a cotação. Em mercados amplos e integrados, o preço de referência costuma ser formado por uma combinação de oferta, demanda, estoques, câmbio, expectativas e preços internacionais. O Brasil é relevante na oferta global de várias commodities, e é tomador de preços, especialmente quando a referência está em bolsas ou centros internacionais (GOMES, 2002).
A base da formação de preços é o equilíbrio entre oferta e demanda. Quando há muito produto disponível e pouca procura, os preços tendem a cair; quando há quebra de safra, redução de estoques, restrição de oferta ou aumento das compras internacionais, os preços tendem a subir. Esse movimento é mais intenso porque a produção e o consumo de commodities costumam reagir devagar no curto prazo (BOGMANS et al., 2024).
Em artigo conduzido por Christian Bogmans, Andrea Pescatori, Ivan Petrella, Ervin Prifti e Martin Stuermer, publicado pelo Fundo Monetário Internacional como IMF Working Paper n. 2024/077, em abril de 2024, os autores analisaram um painel internacional de produção e consumo de commodities no período de 1960 a 2021. A conclusão foi que oferta e demanda são pouco sensíveis ao preço no curto prazo. Em termos práticos, mesmo que soja, café, petróleo ou minério fiquem mais caros, não é possível aumentar a produção imediatamente, do lado da demanda, muitas indústrias, consumidores e países importadores também não conseguem reduzir rapidamente suas compras (BOGMANS et al., 2024).
A rigidez varia conforme o produto. Minerais tendem a responder menos ao preço, pois dependem de reservas, projetos de investimento, licenças, infraestrutura e capacidade de extração; commodities agrícolas podem reagir um pouco mais, mas ainda dependem de safra, clima, área plantada, tecnologia, calendário produtivo e custos de insumos. Essa heterogeneidade é uma das razões pelas quais não se deve tratar todas as commodities como se tivessem o mesmo comportamento de preço (BOGMANS et al., 2024; BAFFES; NAGLE, 2022).
Na agropecuária, o clima é um dos fatores centrais. Secas, excesso de chuva, geadas, pragas e problemas sanitários afetam grãos, café, algodão, pastagens e rebanhos. No café, por exemplo, estudos recentes destacam que a precificação depende da interação entre oferta e demanda global, custos de produção, câmbio, clima, especulação em bolsa, logística, fertilizantes e fatores geopolíticos (FERREIRA NETO et al., 2025).
O câmbio também é decisivo para o Brasil, porque muitas commodities são cotadas em dólar. Quando o dólar sobe, a receita em reais do exportador tende a aumentar e o produto brasileiro pode ficar mais competitivo no exterior; quando o real se valoriza, a margem em reais pode diminuir. (SILVA; DIVINO, 2025; CURATOLA-MELO; GUIMARÃES, 2025).
Os juros entram na formação de preços porque influenciam crédito, custo de carregamento de estoques, capital de giro e decisão de investimento. Manter produto parado tem custo financeiro; quando os juros sobem, estocar pode ficar caro, o que afeta a decisão de vender, comprar ou proteger preço (PALHÃO; IKEDA; FORTE, 2026).
O mercado financeiro complementa esse processo. Contratos futuros, opções, fundos e estratégias de hedge ajudam empresas e produtores a administrar risco, mas também podem alterar expectativas e ampliar movimentos de curto prazo. A financeirização não substitui os fundamentos de oferta e demanda, porém pode aumentar a volatilidade, principalmente em momentos de euforia, pânico, incerteza econômica ou choque externo (OLIVEIRA, 2020; PALHÃO; IKEDA; FORTE, 2026).
No estudo de Victor Henrique Lana Pinto e Leonardo Bornacki de Mattos, publicado em 2026 no Journal of Agribusiness in Developing and Emerging Economies, os autores analisaram dados de 2014 a 2023 sobre futuros brasileiros de boi gordo e soja e o Ibovespa. O trabalho mostra que a incerteza de política econômica aumenta a correlação entre futuros de commodities brasileiras e o mercado acionário, embora o efeito seja pequeno em termos econômicos e mais fraco para soja, em parte pela menor liquidez do contrato na B3. Isso reforça que o preço de uma commodity depende dos fundamentos do produto, mas também sofre influência do ambiente financeiro e da profundidade do mercado (LANA PINTO; BORNACKI DE MATTOS, 2026).
A cotação internacional é apenas o ponto de partida. O preço efetivamente recebido pelo produtor ou pela empresa no Brasil depende de câmbio, prêmio ou desconto local, frete, armazenagem, custos portuários, impostos, qualidade, prazo de entrega e condições de contrato. Por isso, dois produtores podem vender o mesmo produto no mesmo dia e receber valores diferentes, especialmente se estiverem em regiões com custos logísticos distintos (GOMES, 2002; OLIVEIRA, 2020).
Preço local = preço de referência internacional x câmbio +/- prêmio ou desconto local - frete - armazenagem - custos logísticos +/- ajustes de qualidade.
No caso da soja, por exemplo, a Bolsa de Chicago é uma referência internacional importante, mas o preço no interior do Brasil depende também do dólar, dos prêmios nos portos, da distância até o terminal de exportação, da disponibilidade de armazéns, do frete rodoviário ou ferroviário e da demanda das tradings. A dissertação de Gomes mostra que, para a soja, Chicago atua como mercado formador de preços, enquanto o mercado brasileiro acompanha a referência internacional com ajustes e influencia parcialmente as cotações (GOMES, 2002).
Na pecuária, a lógica é semelhante, embora a referência inclua particularidades do mercado de boi gordo e da carne. O frigorífico considera a demanda interna, a demanda externa, o câmbio, custos industriais, logística, habilitações sanitárias, preço de venda da carne, valor de subprodutos e oferta de bovinos. Assim, uma mudança na China, no dólar, no milho usado em ração ou nas condições de pastagem pode alterar a margem da cadeia (LANA PINTO; BORNACKI DE MATTOS, 2026; PEREIRA; SANTOS, 2017).
Os estoques também importam. Estoques baixos deixam o mercado mais sensível a choques de clima, demanda ou logística; estoques elevados tendem a amortecer altas. No caso dos alimentos, a discussão ganha dimensão pública, porque estoques reguladores podem ser usados para tentar suavizar oscilações de preços de itens básicos, como arroz, feijão e trigo, e reduzir impactos sobre inflação e segurança alimentar (SANTOS; CARRARA, 2025).
Em 2026, nos cinco primeiros meses do ano, considerando apenas as exportações, o mercado de commodities movimentou US$147,8 bilhões, valor 8,7% maior que no mesmo período de 2025.
As commodities geram divisas, sustentam parte da balança comercial e conectam o Brasil a cadeias globais de alimentos, energia, metais e fibras. Quando o país exporta soja, milho, café, algodão, carne, açúcar, petróleo ou minério, entram dólares na economia, há geração de renda em regiões produtoras e aumenta a atividade em transportes, armazenagem, portos, comércio de insumos, máquinas, crédito rural e serviços especializados (BRASIL, 2026; PEREIRA; SANTOS, 2017).
O impacto também chega ao consumidor. Alta da soja e milho pode elevar o custo da ração e pressionar carnes, leite e ovos; alta do petróleo pode encarecer diesel e frete; alta de fertilizantes pode aumentar o custo de produção agrícola; e choques de alimentos básicos podem afetar inflação e segurança alimentar. Por isso, o preço das commodities não é assunto restrito ao campo, à mineração ou ao mercado financeiro (SANTOS; CARRARA, 2025; SILVA; DIVINO, 2025).
A força das commodities é uma vantagem competitiva para o Brasil, mas também cria riscos. O país possui escala, tecnologia tropical, recursos naturais, produtores eficientes e capacidade exportadora; ao mesmo tempo, fica exposto a fatores que não controla, como clima em outros países, demanda chinesa, câmbio, juros internacionais, guerra, sanções, mudanças regulatórias, gargalos logísticos e ciclos de preços globais (BAFFES; NAGLE, 2022; HIRATUKA, 2026).
Essa combinação exige gestão de risco. Para produtores, cooperativas, tradings, frigoríficos e indústrias, acompanhar preços internacionais, câmbio, basis, fretes, estoques, clima, juros e demanda externa é parte da decisão comercial. Instrumentos como contratos futuros, opções, barter, seguro rural, contratos a termo e diversificação de mercados podem reduzir incerteza, mas não eliminam o risco de preço (OLIVEIRA, 2020; PALHÃO; IKEDA; FORTE, 2026).
A conclusão é que commodities são mercadorias básicas, mas seus efeitos são amplos. Elas ajudam a explicar a força das exportações brasileiras, a renda no campo, a arrecadação, a ocupação logística, o custo dos alimentos e combustíveis, a inflação e a exposição do país ao mercado internacional. No caso brasileiro, entender commodities é entender parte importante do funcionamento da economia (GOMES, 2002; BRASIL, 2026; SILVA; DIVINO, 2025).
Referências
BAFFES, John; NAGLE, Peter (ed.). Commodity markets: evolution, challenges, and policies. Washington, DC: World Bank, 2022. DOI: 10.1596/978-1-4648-1911-7.
BOGMANS, Christian; PESCATORI, Andrea; PETRELLA, Ivan; PRIFTI, Ervin; STUERMER, Martin. The power of prices: how fast do commodity markets adjust to shocks? IMF Working Papers, Washington, DC: International Monetary Fund, n. 2024/077, abr. 2024. DOI: 10.5089/9798400271953.001.
CURATOLA-MELO, Alisson; GUIMARÃES, Bernardo. The causal effects of commodity shocks. Working Paper Series, Brasília, DF: Banco Central do Brasil, n. 639, dez. 2025. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/content/publicacoes/WorkingPaperSeries/WP639.pdf
FERREIRA NETO, Álvaro Aparecido et al. Determinantes da precificação do café no Brasil. Revista GeTeC, Monte Carmelo, v. 26, p. 33-56, 2025. Disponível em: https://revistas.fucamp.edu.br/index.php/getec/article/view/4072
GOMES, Marcos Faria. Formação de preços de commodities no Brasil. 2002. Dissertação (Mestrado em Economia) - Escola de Administração de Empresas de São Paulo, Fundação Getulio Vargas, São Paulo, 2002.
LANA PINTO, Victor Henrique; BORNACKI DE MATTOS, Leonardo. Between fields and finance: tracking Brazil’s commodity-stock moves under uncertainty. Journal of Agribusiness in Developing and Emerging Economies, ahead-of-print, p. 1-18, 2026. DOI: 10.1108/JADEE-05-2025-0229.
OLIVEIRA, Gabriel Carvalho de. A formação de preços de commodities e o processo de financeirização do setor. 2020. Monografia (Bacharelado em Ciências Econômicas) - Instituto de Economia e Relações Internacionais, Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2020.
PALHÃO, Jéssica Paganotti; IKEDA, Wilson Eduardo; FORTE, Denis. Fiagros, commodities agrícolas e investimentos: mapeamento científico por revisão bibliométrica e sistemática. REMUNOM, v. 13, n. 04, p. 1-37, 2026. DOI: 10.66104/ttesy014.
PEREIRA, Luiz Andrei Gonçalves; SANTOS, Igor José Ferreira dos. Mercados de commodities agrícolas e exportações de soja no cenário mundial. In: COLÓQUIO CIDADE E REGIÃO, 5., 2017, Montes Claros. Anais [...]. Montes Claros: UNIMONTES, 2017. p. 1-13.
SANTOS, Acácia dos; CARRARA, Aniela Fagundes. Estoques regulatórios e controle da inflação dos alimentos: impactos na política pública e segurança alimentar no Brasil. Revista de Economia e Sociologia Rural, v. 63, e283518, 2025. DOI: 10.1590/1806-9479.2025.283518.
SILVA, Felipe Marcos; DIVINO, José Angelo. Chinese commodity demand and the Brazilian economy. In: ENCONTRO NACIONAL DE ECONOMIA, 53., 2025, São Paulo. Anais [...]. Niterói: ANPEC, 2025. Disponível em: https://www.anpec.org.br/encontro/2025/submissao/files_I/i8-0357ccbceb5a5670ea086382cf6cb3b7.pdf
Engenheiro agrônomo, formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ – USP), em Piracicaba/SP, com período de graduação no programa de intercâmbio BEPE - FAPESP na University of Minnesota (UMN), Estados Unidos, e formação complementar no VII Special Program on Tropical Biobased Production Systems, promovido pela ESALQ/USP. Atua como analista de mercado na equipe de inteligência de mercado da Scot Consultoria, no monitoramento e elaboração de análises setoriais sobre os mercados interno e externo de proteínas de origem animal (boi gordo, frango, ovos, suínos) e seus coprodutos, além dos mercados internos e externos de diferentes culturas agrícolas (amendoim, milho, soja, algodão, trigo, café, etc.), coprodutos e insumos agrícolas. Atua também na elaboração e produção de informativos e artigos técnicos para a Scot Consultoria.
Receba nossos relatórios diários e gratuitos