• Domingo, 7 de março de 2021
  • Receba nossos relatórios diários e gratuitos
Scot Consultoria

Uso de adjuvantes em aplicação foliar de herbicidas em pastagens


Terça-feira, 8 de dezembro de 2020 - 11h00

Engenheiro agrônomo e mestre em solos e nutrição de plantas pela ESALQ-USP. Com atuação profissional desde 1985 em pesquisa e desenvolvimento em sistemas de produção agrícola em empresas nacionais e multinacionais, trabalhou por 24 anos na geração dos principais herbicidas para pastagens hoje no mercado. Atualmente, é consultor independente, fundador da NTC ConsultAgro, focado no manejo da vegetação em pastagens, reflorestamentos e áreas não agrícolas.


Foto: Scot Consultoria


Estamos no pico da época das aplicações foliares de herbicidas nas nossas pastagens. Após a consolidação do período chuvoso, iniciado entre os meses de outubro e novembro, dependendo da região, agora presenciamos o auge do fotoperíodo anual, solo com umidade e as plantas, por consequência, expressando seu máximo potencial de desenvolvimento, tanto as forrageiras como as plantas daninhas.


Essas condições ambientais representam a melhor condição para ação dos herbicidas em aplicações foliares. A grande atividade metabólica da planta faz com que esses produtos sejam absorvidos pelas folhas e translocados para todas as partes dos vegetais, tratando-se de herbicidas com ação sistêmica. Mas essa boa ação dos herbicidas só será efetiva se realmente o produto penetrar pela folha e se deslocar até seu sítio de ação. Diversos fatores interferem na absorção dos herbicidas pelas folhas, entre eles, o uso de adjuvantes, que retrataremos neste nosso artigo.


Penetração do herbicida na folha

A barreira primária à penetração do herbicida na folha é representada pela cutícula foliar (figura 1), uma camada de células constituídas predominantemente por compostos lipídicos e ceras, ou gorduras, portanto lipofílicas (afinidade com lipídeos), consequentemente hidrofóbicas (aversão à água). Essa camada cerosa representa papel essencial para a vida dos vegetais, pois impede que a água presente no tecido vegetal se perca para o ambiente e a planta morra por desidratação.


Podemos assim fazer a seguinte correlação: se a cutícula é barreira para a saída da água da folha, também representa impedimento para a penetração de outras substâncias externas para o seu interior. A aplicação foliar de qualquer produto deve contornar esse obstáculo natural para assim agir com o objetivo proposto, seja esse produto um inseticida, fungicida, herbicida, fertilizante ou qualquer bioestimulante. 


Figura 1. Secção transversal da lâmina foliar. Gavilanes, M. L. at al - Micromorfometria foliar de Palicourea rigida kunth (rubiaceae) em ambiente de cerrado e campo rupestre. CERNE vol.22 no.2 Lavras Apr/June 2016.



Outro ponto interessante se refere aos estômatos, que são estruturas presentes tanto na parte de cima (adaxial) como da parte de baixo (abaxial) da folha. Essas estruturas não são relevantes para penetração de produtos, como muitos imaginam. Os estômatos são basicamente responsáveis pelas trocas gasosas: gás carbônico, oxigênio e vapor d´água. Há um número maior dessas estruturas na página de baixo da folha, comparativamente com a página de cima da folha, que justamente é a mais importante por receber a aplicação.


Fatores ambientais que afetam a qualidade da aplicação foliar

A efetividade das aplicações foliares também está diretamente relacionada a fatores ambientais, seja influenciando a tecnologia de aplicação, desde a saída da gota da ponta de pulverização até atingir o alvo, a folha no caso, ou relativo aos aspectos fisiológicos da planta.


Basicamente, os fatores ambientais a serem observados são a temperatura, a umidade relativa do ar e precipitação pluviométrica e, essa última, não só considerando chuvas após a aplicação, que poderiam estar relacionadas à lavagem da calda de pulverização, mas por um período de até duas semanas antes e após a aplicação, principalmente pensando nas plantas daninhas de pastagens, que não podem passar por limitações hídricas nesse período, antes e após aplicação de herbicidas.


Quanto à tecnologia de aplicação, temperaturas acima de 30-32oC e umidades abaixo de 55-60% causam a rápida evaporação e limitam a vida da gota de pulverização, tanto em seu caminho entre a ponta de pulverização e a folha, mas também para que, uma vez atingindo a folha, promova o molhamento por um tempo mínimo necessário para permitir a penetração do produto contido na calda para o interior da planta.


Do ponto de vista da fisiologia da planta, temperatura e umidade relativa do ar influenciam em sua atividade metabólica, como a translocação de metabólitos e taxa fotossintética. Os vegetais mostram atividade máxima com temperaturas entre 15 e 35oC; fora desses limites a planta praticamente cessa seu metabolismo. Umidade relativa do ar abaixo dos 50% faz com que os vegetais entrem em modo de defesa para perda de umidade interna para o ambiente, alterando sua arquitetura: as folhas se enrolam e ficam em posição verticalizada, minimizando a superfície de exposição; e a cutícula de cera se espessa. Se essas condições persistem por mais tempo, pode haver também diminuição da área foliar, e folhas pilosas podem alterar tamanho e número dos tricomas.


Classificação dos adjuvantes

A palavra adjuvante vem de ajuda, e “surfactante” deriva de um acrônimo da frase em inglês: SURFace ACTive agENT, que numa tradução livre poderia ser: agente ativo em superfície. Qual superfície? A superfície foliar.


Os adjuvantes se dividem em dois grupos: os que atuam nas propriedades das superfícies dos líquidos (surfactantes: espalhantes, umectantes, dispersantes, aderentes, entre outros) e os aditivos (óleo mineral ou vegetal e compostos nitrogenados, como sulfato de amônio e uréia, entre outros) que afetam a absorção devido sua ação direta sobre a cutícula.


Propriedades dos surfactantes

Diversas características são atribuídas aos adjuvantes:


- Hipotensor: diminuição da tensão superficial entre as moléculas de água. Essa menor tensão superficial impede, por exemplo, que se forme uma gota d’água arredondada sobre uma superfície não absorvente, passando a um total esparramamento dessa gota sobre esta superfície;


- Umectante: permitem a maior molhabilidade da superfície pela calda aplicada;


- Viscosante: aumentam a viscosidade da calda, uniformizando a distribuição dos tamanhos de gotas, diminuindo a deriva de gotas menores e reduzindo evaporação;


- Adesionante: pelo maior molhamento, com menor ângulo de contato da gota com a folha, faz com que a calda fique mais aderida à folha. Por vezes os adjuvantes são chamados vulgarmente no campo como “cola”;


- Anti-evaporante: pelo prolongamento da vida da gota desde a saída da ponta de pulverização até a maior permanência sobre a superfície foliar;


- Emulsificantes: promovem a solubilização de substâncias apolares (óleos) na água (substância polar) criando uma emulsão estável que não separa fases.


Todos esses atributos têm um único objetivo: melhorar o contato da calda aplicada com a folha, e que, uma vez em contato, permaneça o máximo de tempo possível para permitir a penetração dos compostos para dentro da planta, evitando a evaporação da água da calda e a formação de cristais na superfície da folha.


Ainda há surfactantes com propriedades anticongelantes, antiespumantes, tamponantes (que mantém o pH dentro da faixa desejada), bactericidas, corantes e até odorizantes.


Os surfactantes podem ser iônicos (catiônicos ou aniônicos) ou não-iônicos. Os não-iônicos são os de uso mais frequentes, não possuem carga elétrica, não se dissociam ou ionizam na água, não reagindo com sais ou os herbicidas presentes na calda, o que é desejável.


Ação aditiva

Os adjuvantes com ação aditiva: óleos, minerais e vegetais, e compostos nitrogenados, além de trazerem os benefícios mencionados dos surfactantes, soma-se também o atributo “penetrante”, pela afinidade que essas substâncias apresentam com a membrana cerosa que reveste a folha.


Óleos minerais e vegetais são igualmente apolares, como as ceras e compostos lipídicos que compõem a cutícula foliar, e por essa afinidade promovem melhor penetração dos compostos presentes na calda aplicada. Os óleos vegetais são predominantemente obtidos de sementes de oleaginosas, principalmente a soja, e mais recentemente também provenientes de óleo de casca de laranja. Os óleos minerais são derivados do petróleo e apresentam cadeias mais longas de hidrocarbonetos, compostas por 18 a 30 carbonos, já os óleos vegetais possuem hidrocarbonetos com cadeias entre 16 a 18 carbonos, e têm um potencial de menor toxicidade nas culturas e na pastagem.


Fertilizantes nitrogenados, como ureia, nitrato de amônio e sulfato de amônio também têm potencial de melhoria na penetração dos herbicidas. Uma vez dissociados na água, os íons sulfato (SO42-), nitrato (NO3-) e carbonato (CO2-) ligam-se aos íons Ca2+, Mg2+, Zn+, Na+, K+, Al3+ e Fe2+, presentes nas “águas duras”, evitando-se que esses se associem às moléculas do herbicida, reduzindo sua atividade, além do íon amônio (NH4+) auxiliar na passagem de alguns herbicidas pela membrana celular, melhorando na absorção e translocação do herbicida entre as células. Sulfato e nitrato de amônio reduzem levemente o pH da calda enquanto a ureia não.


Influência do pH da calda

Ainda sobre o pH da calda, a absorção dos herbicidas é facilitada quando essa se encontra entre ácida a levemente ácida: abaixo de 6,0. A maior parte dos herbicidas usados em pastagens não alteram pH da calda, praticamente mantendo a condição de pH da água usada no seu preparo, assim, quando se trabalham com águas com pH acima de 6,0 recomenda-se o uso de um acidificante; normalmente usam-se redutores de pH a base de ácido fosfórico, com diversos produtos disponíveis no mercado para esse fim, normalmente usados em quantidades muito pequenas e que pouco impactam no custo da aplicação, mas com possíveis benefícios significativos na performance dos produtos, principalmente com herbicidas que possuem Fluroxipir em sua composição.


Quando mencionamos produtos que promovem redução de pH, precipitação de sais no tratamento de águas duras e antiespumantes, o termo mais adequado para esses produtos é “condicionador de calda”.


Usar adjuvantes na calda é sempre benéfico?

Podemos dizer que, na maioria das vezes, o uso de adjuvantes é benéfico, pelos atributos mencionados acima referentes à melhoria na qualidade da aplicação, e o valor agregado pouco impactante no custo total da aplicação. Apenas deve-se tomar cuidado quando em aplicações sobre capim Massai, um Panicum famoso no meio pecuário por sua sensibilidade aos herbicidas. Nesse caso é prudente aplicar nas horas do dia com temperaturas mais amenas, e tratando-se de plantas jovens, pode-se reduzir ainda a dose do adjuvante, se um óleo, ou até mesmo suprimi-lo. Fora esse caso específico, podemos dizer que nunca um adjuvante será prejudicial à performance dos herbicidas ou danoso à pastagem.


Em alguns herbicidas, principalmente os graminicidas inibidores da ACCase, o uso de adjuvantes é mandatório. Lembrando que esses herbicidas não são usados em pastagens não leguminosas. Mas nos herbicidas usados para o controle de folhas largas em pastagens pode haver situações em que o benefício do adjuvante seja inócuo, onde se adicionado ou não, não faria diferença na performance dos herbicidas. Isso é possível, porém nunca se sabe quando isso vai ocorrer, e dada a diversidade de condições ambientais e fisiológicas das plantas enfrentadas na prática, é sempre uma política de segurança o emprego desses produtos em nossas aplicações foliares em pastagens.



<< Notícia Anterior Próxima Notícia >>

Buscar

Newsletter diária

Receba nossos relatórios diários e gratuitos



TV Scot

Podcasts



Loja

Facebook