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Scot Consultoria

Apenas um ponto pode fazer muita diferença


Terça-feira, 24 de julho de 2018 - 09h00

por Sergio Raposo de Medeiros

Engenheiro agrônomo, formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz Queiroz, da Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado pela mesma universidade. É pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste e especialista em nutrição animal com enfoque nos seguintes temas: exigência e eficiência na produção animal, qualidade de produtos animais e soluções tecnológicas para produção sustentável.


Foto: Scot Consultoria


A melhor forma de se fazer a análise do desempenho de uma fazenda, bem como tomar decisões gerenciais, é ter o tal “olhar holístico”, o pomposo termo que significa a avaliação dos vários componentes, ou partes, que a compõe como um todo. Contrariando esse axioma, neste texto elencamos dez fatores de produção selecionando apenas um ponto como o principal, na crença que ele faça mais diferença que os demais. É uma escolha baseada na experiência como técnico da área de produção de bovinos de corte, mas totalmente aberta ao debate e questionamentos. Vamos a eles:


1 - Solo: Deveria ser dispensável dizer que é a base de tudo, mas acaba não sendo pois, nem sempre prestamos a devida atenção a ele. Especialmente por ser um recurso finito, afinal cada centímetro de solo representa centenas de ano de agressões ambientais à rocha-mãe até completar sua formação. A fertilidade é sempre o que logo se pensa para qualificá-lo, mas um aspecto tão importante quanto, é como ele está organizado estruturalmente, ou seja, sua estrutura. Ela confere suas características físicas, com importantes consequências práticas como resistência à erosão e compactação, taxa de infiltração e capacidade de retenção de água, etc.. Em culturas perenes, como as pastagens, o maior inimigo da estrutura do solo é a gota de chuva, pois é seu impacto que a destrói e dá início à perda de solo por erosão.


O ponto para manter a estrutura do solo nas pastagens: A solução para isso é simples e muito desejável: manter sempre o solo coberto! Além de evitar o estrago da gota de chuva, a cobertura evita que a água escorra pela superfície, ajudando-a a infiltrar no solo, ou seja, troca-se “solo levado pela água” por “solo abastecido com água”. Essa água é fator de crescimento para a pastagem e, aquela que, ao continuar seu caminho seguindo a lei da gravidade, ajudará a reabastecer os corpos de água subterrâneos que, por sua vez, reabastecerão os demais corpos d’água.  


2 - Carbono no solo: O carbono (C) é um indicativo de vida, pois ele está relacionado à matéria orgânica (MO) presente no solo. Hoje, um novo interesse em estocar C no solo é tentar reduzir o C da atmosfera, cujo aumento influi na retenção de calor, sendo considerado o principal responsável pelo aumento da temperatura do planeta. Contudo, o maior interesse é de ordem econômica (mais direta mesmo), pois solos com maiores teores de MO (e, portanto, C) são mais produtivos. A MO ajuda na retenção de água, aumenta a capacidade de retenção dos componentes dos adubos minerais, melhora a estrutura do solo e permite uma maior atividade de microrganismos presentes no solo, os quais têm importância na ciclagem dos nutrientes e na transformação em formas mais assimiláveis pelas raízes.


O ponto para aumentar o C do solo sob pastagens: Em solos sob pastagem, o grande responsável pela riqueza em C é o sistema radicular das forrageiras. Como há uma correlação entre a quantidade de raízes com a quantidade de forragem acima do solo, todo o melhoramento feito para forrageiras mais produtivas, automaticamente, resultaram em forragens com vigorosos sistemas radiculares. Assim, basta dar boas condições de crescimento para a forrageira que, tendo boa massa aérea, a massa de raízes a acompanhará em abundância. Enfim, para se ter um solo sob pastagem rico em C, basta manejar corretamente a pastagem e favorecer a boa produção de massa de forragem.


3 - Manejo da pastagem: Intervenções no manejo da pastagem costumam ser interessante do ponto de vista econômico, quando o único insumo necessário é informação que pode até vir de graça em um texto lido na Internet, por exemplo. Na realidade brasileira é impressionante como alguns conceitos relativamente simples, se bem aplicados, podem mudar radicalmente o aproveitamento da forragem e o desempenho dos animais. Dentre as informações para o correto manejo de pastagens, a mais fundamental é aquela que dá o limite máximo e mínimo de altura que a forrageira deve ser consumida pelo gado. O limite superior, evita com que percamos muita forragem e eficiência fotossintética. O inferior, muito mais crítico, garante que a forragem tenha de onde tirar a energia para rebrotar. A rebrota rápida acelera a cobertura do solo, evitando o estabelecimento de plantas daninhas e reduzindo o risco de erosão, ou seja, ambos ligados ao início do processo de degradação de pastagem.


O ponto para melhorar o manejo das pastagens: Há muito o que se fazer em termos de manejo de pastagem, mas o responsável por termos uma enormidade de pastagens degradadas e baixa produção, é o superpastejo decorrente de animais demais na área. Se os limites inferiores forem respeitados (tabela 1), as pastagens têm chance, de fato, de serem culturas perenes. Ficando dentro da faixa, melhora-se a eficiência de uso da pastagem.


Tabela 1.
Altura de pastejo (cm) das principais gramíneas forrageiras.
Fonte: Costa e Queiroz (2017)


4 - Manejo da pastagem/adubação: Não havendo reposição dos nutrientes pela adubação, é impossível manter os níveis produtivos que, ano a ano, devem cair. As forrageiras são muito responsivas à adubação, particularmente à nitrogenada. É, aí, que mora o perigo, pois uma adubação exagerada pode aumentar demais a disponibilidade da forragem e, se não houver animais para colocar na área, não só o investimento é perdido, como pastejo muito desigual, pode deixar a área tão ruim de manejar que apenas uma roçada resolva. Gasta-se, produz-se muito, desperdiça-se e ainda pode ser preciso gastar mais para consertar o erro: um cenário de desolação e tristeza.


O ponto para garantir o bom aproveitamento das pastagens adubadas: Antes de qualquer coisa, já estar manejando bem a pastagem em termos de carga animal, isto é, saber variar a quantidade de unidades animais por hectare para manter a forragem dentro dos limites inferiores e superiores de uso. Simultaneamente, por experiência ou orientação técnica, ser capaz de prever a resposta à adubação e, assim, colocar carga animal suficiente para aproveitar a forragem produzida a mais. Parece complicado, e é mesmo desafiador, mas não é necessário acertar em cheio e, sim, errar o mínimo possível.


5 – Suplementação mineral para animais em pastejo: Uma certeza quase que absoluta que podemos ter no Brasil é que, ao estarem apenas consumindo pasto nas águas, nossos bovinos estarão produzindo menos do que a forragem tem a oferecer. Isso se baseia no fato bem documentado das forragens tropicais serem deficientes em alguns minerais (notadamente em Sódio, Zinco, Cobre, Fósforo, Cálcio, Iodo, Cobalto e Selênio) e tem o respaldo de frequentemente haver resposta à suplementação no mundo real. Apesar de ser uma prática comum nas fazendas (e, talvez, até por isso mesmo), alguns detalhes que podem influenciar no seu manejo acabam sendo negligenciados e, por isso, seu efeito na produção acaba sendo limitado.


O ponto para garantir boa mineralização: Além de escolher o produto correto para a categoria, é importante garantir que o consumo-alvo, aquele recomendado pelo fabricante, esteja sendo atendido. A maneira que fazemos isso hoje é controlando o consumo médio do lote. Se ele estiver abaixo do consumo-alvo, temos certeza de precisar fazer algo para estimular o consumo. Caso o valor médio estimado seja maior que o consumo-alvo, podemos ter a esperança que o consumo esteja adequado. Infelizmente, sabemos que nem sempre isso é verdade, pois é possível ter um consumo médio igual ao consumo-alvo com 50% dos animais do lote consumindo o dobro do esperado e a outra metade não consumindo nada. Para remediar essa situação é importante darmos a melhor condição possível de todos os animais chegarem ao cocho. Assim, dar o mínimo espaço de cocho (mínimo de 6 cm de cocho para cada animal adulto), posicionar os cochos perto dos malhadouros e não distante da água, em local de acúmulo de água e que não forme lama ajudam o animal ter acesso ao produto. Lotes homogêneos e não muito grandes (menos de 100 animais) também ajudam. Enfim, caprichar na oferta do produto é fundamental. Mais detalhes podem ser obtidos na leitura da conexão a seguir https://www.scotconsultoria.com.br/noticias/artigos/44363/espaco-linear-de-cocho:-pequenos-numeros-grandes-duvidas!.htm.


6 – Suplementação da seca: No caso da suplementação na seca, dar conforto oferecendo o mínimo de espaço de cocho para cada tipo de suplementação também é importante (Mais informações também na conexão anterior), mas a questão crítica nesse caso é a oferta de forragem. É comum pessoas com baixa disponibilidade de forragem na seca pedirem ajuda perguntando qual suplemento usar nesta situação. Apesar de ser possível usar concentrados para remediar a situação, quase sempre é antieconômico.


O ponto para garantir boa massa de forragem para a suplementação da seca funcionar: O diferimento de pastagem na época das águas é a forma prática de ter boa massa de forragem para ser usada na seca. Basta vedar áreas no final do verão para serem utilizadas no período crítico, sendo recomendado a vedação de um terço da área planejada em fevereiro, a ser usada em junho-julho, e dois terços em março, para serem usados em agosto-setembro. A área é maior em março, pois a taxa de crescimento da forragem é menor nesse segundo período, por estarem escasseando os fatores de crescimento (menos água, menos calor e dias mais curtos). Contudo, o acúmulo final acaba ficando mais ou menos o mesmo. Quando pastejadas, as forragens terão cerca de 150 dias de crescimento, ou seja, a qualidade é baixa, mas o importante é que temos quantidade que, junto com a suplementação estratégica, mantém a curva de ganho de peso dos animais na ascendente.


7– Índices reprodutivos: Todo o processo reprodutivo é cheio de detalhes e há inúmeros pontos em que qualquer descuido pode resultar em significativa redução no nascimento dos bezerros. Na monta natural há que se preocupar com ter touros com boa libido, na quantidade correta (relação touro:vaca adequada), preocupar-se com os alimentos fornecidos junto com os suplementos, com seu estado de saúde, etc.. No uso de inseminação artificial, se o protocolo está correto, se os inseminadores estão bem capacitados, qualidade do sêmen e seu correto manejo, etc.. Todavia, de pouco adianta ter todos esses pontos otimizados, se as vacas não tiverem um mínimo de gordura corporal que garanta estarem com o funcionamento de sua fisiologia da reprodução fluindo, ou seja, se não estiverem ciclando bem. A falta de gordura corporal por época da estação de reprodução revela um passado recente de privação alimentar. Bons índices reprodutivos, estão associados às fêmeas com boa condição corporal no parto. Na Tabela 2, é apresentada uma classificação com escores de CC (ECC) entre 1 a 9, sendo o animal com ECC 1 aquele “pele e osso” e, o nove, um animal muito gordo, ambos raramente vistos na prática. A recomendação dos meus colegas da reprodução é que as vacas devem ter, no parto, ECC entre 5 e 6. 


O ponto para garantir boa ECC das matrizes: Por incrível que pareça, não há necessidade de grandes tecnologias para se obter os ECC preconizados, bastando haver boa disponibilidade de forragem e de suplemento mineral durante todo o tempo. Na seca, em pastos vedados, é possível o uso de sal com ureia, se as fêmeas já estiverem com bom ECC, pois essa suplementação mais barata seria suficiente para manter o peso dos animais e, desde que bem feita (produto corretamente balanceado, realizando adaptação, etc.), sem risco de atrapalhar a reprodução, o que deve ser uma preocupação apenas se houver excesso de nitrogênio no sangue.


Tabela 2. 
Condição corporal de vacas, teor de gordura corporal e respectiva descrição.
Fonte: NRC, 2000


8 – Desmama pesada: Um dos melhores índices associados à eficiência do par vaca-bezerro em experimentos conduzidos na Embrapa Gado de Corte foi a relação peso do bezerro/peso da matriz. Assim, tendo as desejadas vacas de tamanho médio, quanto mais pesado o bezerro à desmama, melhor.


O ponto para garantir bezerros pesados: Reduzindo o tempo de serviço, ou seja, emprenhando a vaca no cedo é a forma mais econômica de conseguir um bezerro mais pesado, pois os animais terão melhores condições de pastagem durante a fase de lactente. Isso garante uma melhor produção de leite de sua mãe e uma melhor forragem para ele se transformar em um ruminante funcional.


9 – Desmama ainda mais pesada (Creep-Feeding): O creep-feeding, quando ofertamos suplementos que apenas o bezerro tem acesso, é uma forma de termos animais mais pesados e, teoricamente, aliviar a vaca que, poderia ganhar condição corporal, influenciando positivamente na reprodução. Essa segunda parte tem, do meu conhecimento, pouca comprovação prática ou experimental, bem como um bom motivo para não ocorrer: Quanto mais pesado for o animal, mais ele mama e, consequentemente, mais estimula a mãe a produzir leite o que aumenta as exigências. Portanto, o principal objetivo do “creep” deve ser mesmo aumentar o peso dos bezerros.

O ponto para garantir bom uso do creep: Há vários pontos a serem observados (instalações, “treinamento” dos animais, formulação do suplemento, etc.), mas o que tem maior efeito para o crescimento futuro do animal é a intensidade da suplementação e, aqui, deve-se evitar pecar pelo excesso. A oferta exagerada de suplemento, especialmente se muito densos energeticamente, faz com que ocorram taxas muito elevadas de ganho e predispõe o animal a depositar gordura precocemente, ou seja, estamos fazendo o animal ser ineficiente já cedo, o que é bastante desinteressante. Apenas como referência, uma formulação bem convencional de “creep”, consumida em torno de 1 kg/cabeça/dia na média entre o quarto mês e o desmame em torno de sete meses, permite um peso de desmame cerca de 20% maior do que lote não suplementado, o que pode já ser bastante interessante.


10 – Controles: Por fim, como último ponto a destacar, é a capacidade de, ao intervir nesses pontos, tentar avaliar seus impactos. Para isso, quanto mais informações houver sobre as pastagens, os animais, os suplementos usados, etc. mais será fácil diagnosticar possíveis falhas cuja correção pode ajudar a melhorar o impacto das intervenções. Ter uma ideia dos impactos também ajuda a concentrar nossos esforços em pontos em que estamos tendo maiores respostas, criando uma priorização bem pragmática das atividades principais. Enfim, informação é um fator de produção!


O ponto para garantir bom controle: O importante aqui é criar a cultura na fazenda de serem feitos registros e eles serem guardados de forma que possam não ser apenas dados coletados, mas valores informações para decisão.


Mais do que compartilhar essas informações, esperando que elas possam ser úteis, desejaria encontrar contestação a esta minha seleção de pontos, pois será ainda melhor do que já foi o exercício de selecioná-los e tentar explicá-los. Finalizo reafirmando que, apesar de ser bom olhar por um ângulo diferente como feito aqui, a avaliação do todo é mesmo sempre aquela em que temos menos chances de errar ou, pelo menos, de errarmos menos!


Referências


NUTRIENT REQUIREMENT OF BEEF CATTLE, 8th revised edition. National Research Council. National Academy Press, Washington, 282 p. 2000.


COSTA, J.A.A.; QUEIROZ, H.P. Régua de manejo de pastagens: edição revisada. Campo Grande, MS: Embrapa Gado de Corte, 2017. 7 p. (Embrapa Gado de Corte. Comunicado Técnico, 135).




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