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Scot Consultoria

Implantando a infraestrutura da pastagem


Terça-feira, 17 de julho de 2018 - 10h00

por Adilson de Paula Almeida Aguiar

Zootecnista, professor de Forragicultura e Nutrição Animal no curso de Agronomia e de Forragicultura e de Pastagens e Plantas Forrageiras no curso de Zootecnia das Faculdades Associadas de Uberaba (FAZU); Consultor Associado da CONSUPEC - Consultoria e Planejamento Pecuário Ltda; investidor nas atividades de pecuária de corte e de leite.


Foto: Scot Consultoria


Estando a pastagem estabelecida, antes da preocupação com “o manejo do pastejo” deve-se planejar a implantação da infraestrutura da pastagem, dimensionando as medidas dos recursos piquete, áreas de descanso, cochos para suplementação, fontes de água, sombreamento e corredores de acesso.


1.Dimensionando e implantando piquetes: segundo o “The Forage and Grazing Terminology Committee” (FGTC), formado por pesquisadores dos EUA, da Nova Zelândia e da Austrália, piquete (do inglês “paddock”) é “uma área de pastejo correspondente a uma sub-divisão de uma unidade de manejo de pastejo (exemplo, uma pastagem), fechada e separada de outras áreas por cerca ou uma outra barreira” (RODRIGUES; REIS, 1997; PEDREIRA, 2002). Observa-se que na definição do termo não se faz referência à área da subdivisão, indicando que um piquete pode medir 0,1 ha, por exemplo, ou mais de 100 ha. Os termos pasto, manga, mangueiro, potreiro, são denominações regionais. O importante é, dentro do possível, adequar o piquete com base nos parâmetros seguintes:


a) o formato do piquete: o formato quadrado é o ideal, pois permite um pastejo mais uniforme por toda a extensão do piquete, entretanto, se for retangular, o comprimento não deveria ser maior que três vezes a largura; o formato em pizza é o menos conveniente, entretanto ainda parece ser o de mais fácil adoção em pastagens irrigadas por pivô central. Neste caso o piquete em pizza poderia ser re-dividido em faixas, com uma cerca móvel, para se ter um formato próximo ao do quadrado;


b) a área do piquete: o ideal é que as extremidades do piquete não ficassem a mais de 200 metros da fonte de água, pois os bovinos preferem concentrar o pastejo em áreas até 200 metros de distância da água e evitam áreas a mais de 600 metros, pastejando a maiores distâncias apenas quando mais de 40% a 50% de toda a forragem disponível próxima à água for consumida (COSTA; CROMBERG, 1997).


Isso significa que em piquetes muito grandes o pastejo, e consequentemente, o aproveitamento da forragem disponível, será desuniforme, com áreas superpastejadas próximas às fontes de água, e áreas subpastejadas, distantes da fonte de água.


Esta condição de pastejo desuniforme é agravada em piquetes com relevo também desuniforme (baixadas e partes altas dentro de um mesmo piquete) e formados com espécies forrageiras de porte alto, de crescimento ereto, com maior relação caule:folha e caules grossos, tais como os capins andropogon e os cultivares de Panicum maximum (colonião, tobiatã, mombaça etc).


Um piquete com um formato quadrado, com uma fonte de água no centro do piquete, a sua área seria de 16 ha. A adequação deste dimensionamento traz dois ganhos significativos: o primeiro é na taxa de aproveitamento da forragem disponível que chega a mais de 50% quando a fonte de água se encontra a menos de 500 metros, enquanto que estando a mais de 2,5 mil metros a taxa de aproveitamento cai a menos de 20%.


O segundo ganho é no desempenho animal. Pelo menos para animais europeus parece que um percurso diário menor que 500 metros não leva à uma diminuição de seu desempenho, entretanto em percursos mais longos em um terreno plano (5% de declividade) levaria a diminuição no potencial de ganho de peso de animais de recria e engorda de 40 g/dia, e da produção de leite de 1,13 litro/dia para cada 1mil metros percorridos, enquanto que em um terreno com 10% de declividade a diminuição potencial no desempenho animal seria de 53 g/dia em ganho de peso e 1,53 litro/dia em produção de leite para cada 1.000 metros percorridos.


Este tipo de resultado é escasso em animais zebuínos, mas alguns dados nos levam a inferir que percursos de até 900 metros não leva a uma redução significativa do desempenho destes animais.


c)Tipo de cerca para redivisão dos piquetes: a cerca elétrica com dois fios de arame pode ser implantada num valor 2,1, 2,53, 2,6 e 3,7 vezes mais baixo comparado com os valores para a implantação de cerca convencional, com cinco fios de arame liso, com madeira branca, eucalipto tratado, mourão de aço e madeira de lei, respectivamente.


2.Dimensionando as áreas de descanso: nestas áreas são implantados comumente os recursos fonte de água, cochos para a suplementação dos animais e áreas com sombra. As medidas de cada um destes recursos devem ser criteriosamente definidas para que todos os animais do lote tenham acesso a eles sem que haja disputas entre os animais que dominam e aqueles que são dominados, evitando-se condições de estresse que provocam queda no desempenho animal.


É preciso dimensionar uma área sem sombreamento e uma com sombreamento para cada animal do lote, convertido em unidade animal (UA). Em regiões onde o clima é classificado como quente e úmido, dimensiona-se 6 m2/UA sem sombreamento e mais 6 m2/UA com sombreamento, totalizando 12 m2/UA, enquanto que em clima quente e seco, dimensiona-se 3 m2/UA sem sombreamento e mais 3 m2/UA com sombreamento, totalizando 6 m2/UA.


2,1.Sombreamento: uma vez dimensionada a área para cada UA do lote, leva-se em consideração as seguintes características: a melhor sombra é a oferecida pelas árvores plantadas em renque, fileiras, ruas, linhas ou carreiras; fazer o plantio de árvores no sentido NORTE-SUL, para que a sombra “caminhe” ao longo do dia de oeste para leste, reduzindo a formação de lama; a sombra artificial deve ter uma largura mínima de 4 metros e uma altura mínima de 3,5 metros em seu ponto mais baixo (pé direito); no caso de ranchos com telhado construir com apenas “uma água” com no mínimo 10% de inclinação, sendo o ponto mais baixo voltado para OESTE; quanto mais plano for o terreno maior deverá ser a área destinada por animal; quanto maior for a área de sombra por animal menores serão os riscos de acidentes e infecções no úbere e patas (CAMARGO; RIBEIRO, 2004).


Entretanto tem sido ensinado e aceito com naturalidade nas escolas de zootecnia que apenas animais europeus e cruzamentos europeu:zebu, e principalmente vacas em lactação (aumentos de 10% a 20% no volume de leite produzido e no teor de sólidos do leite; maiores taxas de absorção e assimilação de nutrientes minerais; maior taxa de concepção), é que respondem ao sombreamento, com uma argumentação fundamentada nas premissas seguintes: os zebuínos são originados da Índia, onde predomina o clima tropical; aqueles animais adquiriram características anatômico-fisiológicas evolutivas que os permite maior adaptabilidade às condições de clima tropical, quais sejam – maior número de glândulas sudoríparas e sebáceas por cm2 de pele, glândulas sudoríparas mais ativas/funcionais, pelagem clara refletora de raios solares, pele rica em melanina, filtrando raios ultravioleta minimizando riscos de eritema solar (câncer de pele), etc..


Estas aquisições evolutivas são incontestáveis, pois são provadas cientificamente e pelos fatos, principalmente pelo processo de “indianização” do rebanho nacional, o que levou à condição atual de mais de 80% do grau de sangue do rebanho ser de animais de raças zebuínas.


Entretanto, nos últimos anos, experimentos conduzidos no Brasil têm revelado respostas significativas de animais zebuínos que tiveram acesso à sombra em parâmetros reprodutivos (melhoria em qualidade de sêmen, redução na inibição de cios e na mortalidade embrionária), de desempenho (ganho de peso e melhoria em parâmetros qualitativos da carcaça) e comportamentais (animais menos estressados). 


Em um experimento conduzido na fazenda escola da FAZU, em Uberaba-MG, Bizinoto (2006) concluiu que animais da raça Nelore que tiveram acesso à sombra ganharam em 15 meses 11% a mais que os animais do grupo controle, que não tiveram acesso à área de lazer com sombreamento. Além do maior ganho em peso, os animais que tiveram acesso à sombra apresentaram carcaças com espessura de gordura subcutânea 83% maior.


O desempenho animal é reduzido sob estresse calórico devido ao aumento nas exigências de manutenção, ao mesmo tempo em que o consumo de alimentos cai.


Se o objetivo do pecuarista/produtor de leite for o de maximizar o desempenho de seus animais, ele deverá considerar em seu planejamento a implantação de áreas com sombreamento para seus rebanhos.


b) Dimensões de bebedouros e fonte de água:


Em temperatura ambiente na faixa de 17 a 27ºC os animais ingerem entre 3,5 a 5,5 litros de água por kg de matéria seca (MS) ingerido para a sua manutenção, enquanto que vacas em lactação ainda ingerem mais 2,7 a 3,0 litros de água por kg de leite produzido.


Quando o acesso à fonte de água é facilitado o gado vai ao bebedouro entre 3 a 5 vezes/dia (NOLLER; NASCIMENTO JUNIOR, 1996).


Quando os animais têm acesso irrestrito à fonte de água apenas 10% dos animais do lote chegam ao mesmo tempo à água, em ordem de preferência os dominantes, depois os líderes, enquanto os outros ficam esperando. Diante desta constatação, e considerando 100 cm lineares para cada UA que chega à fonte de água deve-se dimensionar 10 cm lineares/UA do lote (CARDOSO, 1996). É claro que aquelas dimensões só são factíveis quando a fonte de água é artificial, ou seja, em bebedouros.


A fonte de água e sua qualidade quase sempre são negligenciadas pela maioria dos pecuaristas, entretanto, resultados de pesquisas têm demonstrado que este comportamento do produtor se deve, principalmente à falta de informação e a incapacidade de medir a relação beneficio:custo do investimento em fontes de água artificiais. Em um experimento (BICA et al.,2006) animais que ingeriram água em bebedouro apresentaram um ganho médio diário 29% maior que animais que se proveram de água em um açude (0,467 x 0,362 kg/dia, respectivamente).


Em outro experimento o ganho de peso de vacas de corte foi influenciado pelo suprimento de água em tanques, chegando a ser 0,27 kg/dia acima do ganho de peso dos animais supridos de água apenas em córregos (PORATH et al., 2002). Ainda deve-se considerar que aguadas naturais podem ser fontes de intoxicação dos animais, como por exemplo, cursos de água que passam pelas cidades (esgotos doméstico e industrial), por áreas de agricultura (pesticidas, herbicidas e fertilizantes arrastados para os cursos de água pela erosão do solo), ou fontes de transmissão de doenças (brucelose, coccidiose, tuberculose etc.) e parasitoses.


O investimento em um sistema de água artificial é significativamente alto (bombeamento, reservatório, encanamento, bebedouros, etc.), entretanto seu custo fixo é relativamente baixo porque a vida útil deste bem é longa (20 a 50 anos, dependendo da qualidade dos materiais usados na construção). Eu tenho calculado o custo fixo do investimento em sistemas de água artificiais em algumas propriedades ha mais de 15 anos, e este tem sido equivalente em cabeça/ano ao custo das duas doses anuais da vacina contra a febre aftosa.


c) Cochos para a suplementação dos animais:


Quando os animais têm acesso irrestrito ao cocho com suplemento mineral apenas 5% a 6% dos animais do lote chegam ao mesmo tempo, em ordem de preferência os dominantes, depois os líderes, enquanto os outros ficam esperando. Diante desta constatação, e considerando 100 cm lineares para cada UA que chega ao cocho deve-se dimensionar 5 a 6 cm lineares/UA do lote se o acesso for por apenas por um lado do cocho (cochos na cerca de divisa entre dois piquetes, ou cocho no meio do piquete ou em uma área de lazer, mas com largura superior menor que 50 cm). Na tabela 1 estão as dimensões por UA para diferentes tipos de suplementos.


TABELA 1 - Medidas em cm lineares por unidade animal (UA) em cochos para    suplementação com acesso por um dos lados ou pelos dois lados para diferentes tipos de suplementos.


Observa-se que as medidas vão sendo aumentadas para suplementos que contém alimentos palatáveis e, por isso, mais aceitos pelos animais, condição que os estimula ao acesso mais freqüente ao cocho (suplementos de consumo limitado pela presença de inibidores de consumo, tais como mineral energético e protéico:mineral:energético), com medidas máximas para suplementos concentrados e volumosos, que são fornecidos em refeições, quando todos ou a maioria dos animais do lote chegam ao cocho.


d) Corredores de acesso:


Em muitos sistemas de produção é necessária a implantação/construção de corredores de acesso dos piquetes para os currais de manejo, para a sala de ordenha etc..


Primeiro, a largura daqueles corredores deve ser suficiente para conduzir os animais sem pressão contra as cercas, evitando assim disputas entre eles e danos às cercas.


Segundo, corredor é para os animais e não para máquinas e veículos – estes devem circular pelas estradas, evitando assim danos aos corredores (buracos, acúmulo de água nestes buracos, lama) e maior freqüência de manutenção destes com aumento dos custos de produção.


Terceiro, e particularmente, para sistemas de produção de leite, não deve haver pedras nem pedriscos nos corredores, evitando assim problemas de cascos em vacas leiteiras, os quais provocam queda significativa no desempenho produtivo e reprodutivo, e quarto, os corredores devem ser abaulados, com saída lateral de água para dentro dos piquetes, evitando assim o acumulo de água e a formação de lama.


Por fim, todas estas medidas citadas para a infraestrutura de áreas de descanso, sombreamento, bebedouros, cochos devem ser motivo de preocupação quando as condições seguintes estão presentes: piquetes muito grandes; os animais têm que percorrer longas distâncias; o relevo do terreno é acidentado, têm presença de capões de mato, condições nas quais os animais não podem ver os companheiros do lote. Assim, andam em bando e quando os dominantes e os líderes vão para as áreas de descanso (malhadouros) todos vão. Quando os líderes bebem água, ingerem suplementos, etc., e voltam para pastejar os dominados voltam juntos sem beber, etc..



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