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Scot Consultoria

Uma realidade inconveniente - o processo de degradação das pastagens brasileiras - parte 2


Quinta-feira, 23 de novembro de 2017 - 13h30

Zootecnista, professor de Forragicultura e Nutrição Animal no curso de Agronomia e de Forragicultura e de Pastagens e Plantas Forrageiras no curso de Zootecnia das Faculdades Associadas de Uberaba (FAZU); Consultor Associado da CONSUPEC - Consultoria e Planejamento Pecuário Ltda; investidor nas atividades de pecuária de corte e de leite.


Foto: www.pastar.com.br


Aceita-se com naturalidade no meio pecuário que é normal a pastagem se degradar, e que a cada cinco a dez anos é preciso recuperá-la ou renová-la. Entretanto, todas as 70 gramíneas e as 18 leguminosas introduzidas no Brasil são de ciclo de vida perene. Segundo o dicionário Aurélio (2004) perene é aquilo “que não acaba; perpétuo, imperecível, ..., eterno”. Deduz-se que no código genético daquelas plantas não exista codificação que determine sua morte.


Um observador mais atento poderá constatar através de fatos a perenidade das pastagens brasileiras. Por exemplo, no bioma caatinga, mesmo sob condições de déficit hídrico e chuvas irregulares, é possível encontrar pastagens de capim-buffel (Cenchrus ciliaris) formadas há mais de 30 anos; ou no bioma amazônico sob condições de excesso de chuvas e solos mal drenados e de baixa fertilidade natural, pastagens de Quiquio-da-amazônia (Brachiaria humidicola), implantadas há mais de 40 anos; ou no bioma cerrado, sob solos de fertilidade natural muito baixa pastagens de Braquiária decumbens (Brachiaria decumbens) implantadas há 50 anos, mesmo atacadas anualmente pelas cigarrinhas-da-pastagem e até mesmo pastagens de capim-colonião formadas há um século no bioma Mata Atlântica. Em tempo – na Europa existem pastagens sendo exploradas a mais de seis séculos, um tempo maior que a própria descoberta do Brasil.


Por outro lado, a maioria das pastagens brasileiras avança para uma condição de solo degradado, caracterizando-se pelo desaparecimento da planta forrageira, pelo domínio do terreno pelas plantas indesejáveis, pelo adensamento e compactação do solo, com consequente erosão e pela ocupação da área por pragas de solo (cupinzeiros, formigueiros, percevejos, ...).


Sabendo que as pastagens são formadas por plantas perenes conclui-se que quando a planta forrageira morre é porque alguma causa provocada por erro de manejo ocorreu.


As causas da degradação das pastagens são diversas, mas todas bem conhecidas e investigadas pela pesquisa. Inicia-se com o plantio de espécies forrageiras não adaptadas às condições edafoclimáticas (solo e clima) da região, continua com o plantio e manejo incorreto da pastagem durante o seu estabelecimento e durante a sua condução; com a queima frequente; a falta de diversificação que provoca o desenvolvimento rápido de pragas das pastagens; a infestação por plantas invasoras; a incompatibilidade de espécies consorciadas, o que tem ocorrido na consorciação entre gramíneas e leguminosas e o cultivo da pastagem em solos com baixa fertilidade natural ou em solos antes férteis, e já esgotados.


É importante ressaltar que para cada uma daquelas causas a pesquisa nacional já investigou e validou, nos últimos 35 anos métodos preventivos e culturais, muitos dos quais já foram validados em fazendas comerciais.


As pastagens brasileiras perdem seu potencial de produção de forragem entre o ano do plantio (primeiro ano de uso da pastagem) e o segundo ano de exploração uma média de 30% (20% a 40%), deste para o terceiro cai mais 10% e por volta do quinto ano a produção de forragem, e, consequentemente, a capacidade de suporte da pastagem é apenas metade daquela do primeiro ano de exploração. Em alguns ambientes mais restritivos a produção de forragem cai até 75% entre o primeiro e o quinto ano de exploração da pastagem.


É, em parte, por esta realidade que a pecuária nacional tem sido caracterizada como uma modalidade de exploração econômica da terra cujos indicadores de produtividade e lucratividade são baixos e insatisfatórios, principalmente quando comparados a outras modalidades de exploração econômica da terra (grãos, cana-de-açúcar, café, citrus, hortaliças, reflorestamento, produção de látex...).


Tradicionalmente a pecuária de corte tem sido uma atividade pioneira, ocupando regiões de fronteira, priorizando a utilização intensa do fator terra em detrimento da intensificação no uso de capital. Essa estratégia evolutiva da pecuária consolidou-se em resposta a estímulos macroeconômicos e às políticas públicas vigentes no país entre as décadas de 70 e 80.


O cenário da época permitiu que o boi e a terra fossem encarados como reserva de capital ao invés de uma atividade cuja remuneração econômica pela produção estimulasse investimentos para o aumento da produtividade e eficiência do sistema. Entretanto, atualmente a conjuntura se mostra bastante alterada, por causa das pressões para o uso mais intensivo da terra.  


A pecuária brasileira enfrenta o desafio de aumentar a produção de carne e leite para atender à crescente demanda nacional e internacional, frente aos prognósticos de redução da área de pastagens, decorrente da combinação entre a evolução da demanda por grãos e matéria prima para a produção de energia e a adoção de restrições mais severas à expansão da área agrícola pela abertura de novas áreas.


Por fim é de se questionar – como prevenir o processo de degradação das pastagens? Como interromper este processo uma vez iniciado? Como recuperar a pastagem degradada? Estas iniciativas são economicamente viáveis?  Por que a maioria dos pecuaristas é insensível a esta realidade inconveniente?  Quais são as dificuldades e os desafios enfrentados pelo pecuarista para solucionar este desafio? Estas e outras questões importantes passarão a serem objetos de artigos nas próximas edições.



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