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Scot Consultoria

Depoimento de um jovem “herdeiro” a seu pai


Segunda-feira, 16 de outubro de 2017 - 09h20

A Tratto surgiu da demanda de Grupos familiares do agronegócio em expressar de maneira mais formal os seus processos de gestão, além da preocupação com a proteção do patrimônio. A partir disso, criamos um programa que introduz processos de governança dentro do ambiente familiar e de negócios, através da criação de regras e controles, visando transparência nas diretrizes e clareza na apuração da informação que vai reger as tomadas de decisão.


Foto: http://www.countryliving.com


Pai, nesse depoimento, gostaria de falar algumas coisas que você acertou e errou comigo, para que eu pudesse ser o seu sucessor da nossa empresa rural. Começo minha reflexão lembrando o início do meu processo de sucessão (que não foi fácil), até meus pensamentos chegarem no dia de hoje (em que trabalhamos juntos em uma parceria de sucesso) e, inevitavelmente, já avançarem para o futuro (quando, possivelmente, você não estará por aqui e eu esteja no seu lugar e meus filhos no meu).


Assim, escrevo para você refletindo sobre três momentos: o ontem, o hoje e o amanhã. E espero que esse texto consiga expressar o respeito, o amor e a gratidão que tenho por você.


A ideia de te escrever veio a partir da leitura de um trecho do discurso do Steve Jobs aos graduandos da Universidade de Stanford, que diz o seguinte:


Você não pode conectar os pontos olhando para frente, você só pode conectá-los olhando para trás. Então você tem que confiar que os pontos vão se ligar algum dia, no seu futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa: sua garra, destino, vida, carma, qualquer coisa. Porque acreditar que os pontos vão se conectar no caminho vai lhe dar a confiança para seguir seu coração, mesmo quando ele te leva pelo caminho mais desgastante e isso vai fazer toda a diferença. Seu tempo é limitado, então, não o perca vivendo a vida de outra pessoa. Não fique preso pelos dogmas: isso é viver com os resultados do pensamento de outras pessoas. Não deixe que o barulho da opinião dos outros cale a sua própria voz interior. Você tem que encontrar o que você ama e isso é tão verdade para o seu trabalho quanto para os seus companheiros. Seu trabalho vai preencher uma grande parte da sua vida e a única maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que você acredita ser um excelente trabalho. E a única maneira de fazer um excelente trabalho... é fazer o que você ama. E se você não tiver encontrado isso ainda, continue procurando e não se contente. Tenha coragem de seguir seu coração e sua intuição, elas de alguma forma sabem o que você realmente quer se tornar.


E foram estas palavras que motivaram o depoimento que faço abaixo.


Sobre o passado


Bom, olhando para o passado e conectando os pontos que nos fizeram chegar onde estamos hoje, consegui perceber que o processo de sucessão não é algo simples, nem para o patriarca, nem para o sucessor. Trata-se de algo que tem que começar a ser tratado desde cedo.


Na época, talvez você nem soubesse, mas através de suas atitudes, já estava me preparando para um dia me tornar seu sucessor e não um herdeiro. Falo isso porque você não só me levou para te acompanhar e me mostrar o seu trabalho, mas porque você também me fez passar por situações que poucas pessoas proporcionariam a seus filhos.


Para você, minha presença na fazenda envolvia não apenas a presença física, mas eu receber ensinamentos e vivenciar como se fazia pecuária naquela época: era ir para a lida à cavalo com os peões, era suportar o calor e não ter água fresca para beber quando a sede batia, era segurar a fome porque mais lotes de animais ainda deveriam ser manejados, era tomar chuva no lombo, era atolar o carro no barro e ter que dormir na estrada até alguém chegar para o socorro... Você me ensinou na prática que após um tombo de cavalo, o melhor a se fazer é abrir um sorriso, sacudir a poeira e seguir em frente. E tudo isso, talvez não tenha tido tanta valia naqueles momentos, entretanto, faz muito sentido agora. Não poderia ter tido melhor forma de aprendizado: entender que conseguir as coisas e mantê-las não é fácil, que o trabalho não é fácil e que por isso, devemos dar valor a cada conquista.


Lembro-me também que por diversas vezes você não respondia aos meus questionamentos e dúvidas, me fazendo esclarecê-las com outras pessoas. Com certeza, essa busca por resposta desenvolveu em mim a capacidade de dialogar com pessoas mais sabidas e experientes, vencendo a vergonha e a timidez. E noto, atualmente, como suas ingênuas atitudes do passado (ou nem tão ingênuas assim), fazem a diferença no meu dia a dia.


E então eu cresci, entrei na faculdade, passei a dar palpites no nosso sistema de produção, e começaram a surgir também os primeiros conflitos. Com isso, compreendi que era necessário desenvolver habilidades que me ajudariam a ganhar mais espaço no negócio da família. Através da obtenção de conhecimento, melhorei meu poder de persuasão e você já começou a dar sinais de confiar em mim para tocar o negócio (era apenas questão de tempo).


Assim, percebi que outras habilidades eram necessárias para continuar meu caminho: conhecer mais pessoas, aumentar minha rede de relacionamentos e conexões e estudar assuntos que, por serem de áreas diferentes da minha formação, me tiravam da zona de conforto (como gestão de pessoas, negociação e planejamento).


Foi o que fiz... na gestão da equipe: capacitei-me a entender e me colocar no lugar das outras pessoas; nas negociações: aperfeiçoei minha capacidade de diálogo e comunicação, para conseguir expor meu ponto de vista;  no planejamento: desenvolvi uma rotina, para planejar a abordagem de certos assuntos da fazenda com você.


Essas lições, que tive que aprender sobre o nosso negócio, me ajudaram a assimilar que na vida nenhum resultado vem sem esforço. Hoje, consigo perceber que se não tivesse passado por todos esses processos, conhecendo (na prática) cada setor do nosso negócio e as dificuldades que eles nos causam, talvez eu não tivesse desenvolvido um gosto por esse trabalho e nem visualizado trabalhar ao seu lado, ajudando-o a cuidar e expandir nosso patrimônio.


Sobre o presente


Eu tive sorte na vida! Encontrei muito cedo o que me motiva, o que me faz seguir em frente, o que eu amo. E não tenho dúvidas, que foi graças a sua ajuda.


O período na faculdade passou muito rápido, e quando percebi, já estava, feliz, te auxiliando no negócio da nossa família; e foi quando tudo mudou. Você passou a ser, não apenas meu pai, mas também meu chefe e sócio. Eu deixei de ser só seu filho, e passei a ser um funcionário e sócio.


Um dia desses li em algum lugar a seguinte frase: “Não tenha medo da mudança. Coisas boas se vão para que melhores possam vir”, e acho que essa frase faz muito sentido para nós dois.


Pai, não sei se você se recorda como é a cabeça de um jovem. Caso tenha esquecido, vou te ajudar a lembrar: ser jovem é ter grandes sonhos, é acreditar num futuro melhor, é carregar o peso do futuro do seu país nas costas, é arriscar, é não ter medo de errar, ser inquieto, impaciente e querer colocar em prática imediatamente o conhecimento adquirido.


Hoje estou com meus vinte e cinco anos e você está com cinquenta e quatro, talvez ainda no auge de sua forma física e mental para tocar o negócio. De todo modo, nem sempre será assim: chegará o momento em que você precisará de ajuda, a transição da geração vai ocorrer, e você dará espaço ao novo.


Claro que não estou aqui para te substituir, e me desculpe se deixo qualquer impressão neste sentido, mas gostaria que confiasse em mim e me abrisse esse espaço. Não apenas para que eu me desenvolva, mas também para que eu erre e aprenda com meus erros. Para a perpetuação do seu negócio, você vai precisar de um sucessor e não de um herdeiro... E o sucessor vai se formando, ao longo do tempo, através do conhecimento gradual acerca do negócio (com erros e acertos), e então, faz sentido que tentemos nos entender da melhor forma.


Este processo não será simples, e talvez seja um dos mais desgastantes da minha vida. Entretanto, estou certo de que foi a minha melhor escolha, pois ao mesmo tempo em que é desgastante, é prazeroso e recompensador!


Acredito que, no fundo da sua alma, você trabalha todos os dias pensando no meu futuro, em deixar seu legado para mim, seu único filho. Chegará o dia em que vai me entregar a administração dos negócios... Talvez demore 5, 10 ou 20 anos, não sei...  Mas o que desejo para esse momento de transição é me sentir seguro, estar realmente preparado para assumir a responsabilidade.


Entretanto, às vezes me pergunto, será que estamos no caminho certo para que essa transição ocorra de forma tranquila? Estamos realmente tomando as atitudes necessárias para que eu assuma esse posto com responsabilidade?


Certeza não tenho, mas estamos nos esforçando (e muito!) para tanto.


Sobre o futuro


Voltando um pouco ao discurso do Steve Jobs, ele mencionou que “a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Ninguém escapou dela e é como deveria ser. Ela é o agente de mudança da vida, ela tira o velho do caminho para dar espaço ao novo”. Isso pode até parecer um pouco duro ou rude à primeira impressão, porque ninguém quer morrer, mas essa é a maior verdade e certeza da vida.


Talvez hoje (aqui me refiro ao futuro) você não esteja mais comigo, talvez eu tenha filhos, e talvez eu já tenha até netos. Porém, o mais importante é que já não tenho mais dúvidas, sei como conduzir o processo de sucessão com meus filhos, pois aprendi com você, através de acertos e erros.


Então, quando vislumbro meus filhos querendo iniciar um processo novo, sempre me lembro dos nossos conflitos, brigas e de todas as vezes que você foi relutante às mudanças naquele processo que você vinha preparando há anos.  Assim como eu, eles também precisam tentar algo novo, arriscar, falhar, acertar ou então nunca estarão prontos para me substituir quando eu não estiver mais por aqui.


Presumo também que esse jovem impaciente, futuramente, terá se tornado o patriarca e que, com o passar dos anos, a energia do dia a dia terá diminuído, que já não exista a mesma vontade. Visualizo então, que o momento de passar o bastão está chegando, mas que para isso é necessário que eles estejam preparados, que já tenham errado bastante para terem aprendido a acertar com os próprios erros. E, apesar do caminho árduo, eles estão preparados!


E finalmente, compreendo que quando vejo alguns amigos pedindo a Deus um sucessor, eu penso que Ele Deus não lhes dará um sucessor, mas sim a oportunidade de formar um. Um sucessor não nasce pronto, ele tem que ser moldado, colocado à prova, testado de todas as maneiras. Não é fácil prepará-lo, é preciso ter paciência, mas esteja certo que a recompensa de família unida e feliz e conservação do legado, faz cada momento valer a pena!


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