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Scot Consultoria

À prova de crise


Sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009 - 10h14

Administrador de empresas pela FAAP, mestre em Agribusiness Management pena SAK-UK e atualmente trabalha com trading de commodities agrícolas na Holanda


Um novo ano, um novo paradigma. Um fantástico ciclo de alta dos preços agrícolas, liquidez nunca vista e oportunidades intermináveis. Era praticamente impensável esperar, com tamanha intensidade e rapidez, uma reversão do ciclo econômico, capaz de testar a capacidade de produtores brasileiros de administrar riscos muito além daqueles intrínsecos à atividade agrícola. A surpreendente velocidade da retração econômica foi um nocaute no que o setor agrícola brasileiro mais se beneficiou na última década: demanda internacional aquecida e crescimento de exportações a preços recordes. Com reflexos tanto para os países ricos como para os pobres, a atual crise financeira aumenta exponencialmente os riscos de calote a linhas de credito. Bancos internacionais têm atualmente mais de USD1 trilhão disponível em caixa, mas falta confiança às empresas tomadoras. A agricultura na América do Sul é financiada em grande parte por linhas de crédito estatais que atendem modestamente às necessidades do setor. Ao mesmo tempo, em países desenvolvidos, o setor é sustentado por políticas protecionistas e subsídios que tendem a fortalecer-se ainda mais neste período de recessão. Os fluxos de comércio entre Brasil e Ásia, e Oriente Médio e Rússia foram bruscamente afetados por restrições de credores a exportadores e importadores. Mais de 70% do atual comércio internacional de commodities agrícolas acontece através do sistema de carta de crédito, onde bancos cobram um prêmio sobre a taxa Libor em troca da garantia de prazo ao comprador e pagamento ao vendedor. Um reflexo da recente recessão foi a valorização da taxa Libor desde outubro de 2008, junto à significativa volatilidade de cambio e cotações das commodities, enaltecendo os riscos de pagamento de crédito para o comércio internacional. Esses reflexos atingiram em cheio empresas exportadoras líderes como Tyson, Purdue Farms, Sadia, entre outras. Algo em torno de 70% da produção mundial de milho, trigo e soja (e farelo) é destinada à produção de ração animal. Uma rápida análise das atividades de avicultura, suinocultura e confinamento bovino revela rentabilidades no limite. Mesmo considerando a diminuição de rebanhos nos EUA, Europa, Austrália e Argentina, os preços pagos ao produtor recuaram sensivelmente junto à redução de consumo doméstico e de exportações. As cotações de carne para o produtor não reagiram à queda de oferta, pois a demanda diminuiu mais rápido ainda e, conseqüentemente, a ração animal. Na ponta da demanda, em todo o mundo, o uso de farelo de soja durante 08/09 tende a diminuir em 4% em relação ao ano anterior, e assim manter-se estável nos próximos períodos. Diferentemente do que ocorreu em 2007/2008, não há escassez de soja no mercado mundial. Espera-se um aumento de estoques em relação ao uso de soja e derivados, assim como a safra que garanta a oferta confortável para o próximo período. Um dos grandes concorrentes do Brasil na exportação de carnes, a Argentina, vê na produção de grãos uma grande vantagem ante a pecuária de corte. Frente ao stress político e aumento de impostos ao setor agrícola, a rentabilidade da lavoura impõe-se à tradicional pecuária de corte. Os esforços do governo para conter os preços da oferta de carne no mercado doméstico induziram o rebanho a um ciclo de liquidação, com alto número de abate de fêmeas e redução de investimentos em tecnologia. Além dos efeitos da seca que castigou recentemente a região, existem evidencias de desajuste no ciclo reprodutivo local, o que pode comprometer seriamente a produção de carne bovina no futuro. As cotações de grãos e carnes (em dólares) estarão sobre pressão no curto prazo no mundo todo. O setor de frigoríficos tende a concentrar-se ainda mais no Brasil, com o efeito de seleção e crescimento dos grandes e mais consolidados grupos. Caso seja capaz de controlar a desvalorização do real, disponibilizar crédito agrícola, cumprir padrões sanitários e de rastreamento animal, o país pode beneficiar-se muito do déficit mundial de carnes e grãos. Sustentado pelo enorme mercado doméstico, o Brasil tem grande capacidade de exportação de carne bovina a preços muito competitivos e a habilidade de reagir rapidamente à demanda internacional. Por essas razões, o país é um grande candidato a substituir as decrescentes exportações dos EUA, Austrália e Argentina, além de estabelecer-se como principal fornecedor de mercados emergentes. Assim, eu continuo confiante na aptidão dos agropecuaristas brasileiros de serem “à prova de crise”. Leonardo Prandini - Administrador de empresas pela FAAP, mestre em Agribusiness Management pena SAK-UK e atualmente trabalha com trading de commodities agrícolas na Holanda.
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