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Scot Consultoria

Manejo de dejetos e a geração de créditos de carbono

Tecnologias como compostagem e biodigestores permitem reduzir custos, gerar energia e criar fontes de receita em fazendas, com a venda de produtos e, até a comercialização de créditos de carbono.


Foto: Juliano Corruli Correa | Embrapa

Foto: Juliano Corruli Correa | Embrapa

Dejeto que vira renda

Resíduos da produção deixaram de ser um passivo ambiental e passaram a ser uma oportunidade. Esterco e efluentes podem gerar fertilizantes, energia e economia dentro da fazenda.

Duas tecnologias se destacam nesse processo: a compostagem e a biodigestão.

A compostagem é um processo biológico em que microrganismos degradam a matéria orgânica em condições controladas, gerando um composto estabilizado e rico em nutrientes, utilizado como fertilizante.

Além de reduzir riscos sanitários e odores, o processo transforma o resíduo em insumo agrícola. Em um confinamento com 100 bovinos, por exemplo, onde cada animal produz cerca de 25,0 kg de esterco por dia, tem-se a produção de, aproximadamente, 2,5 toneladas diárias de dejeto fresco.

Durante a compostagem, com a adição de fontes de carbono, como palhada ou restos de silagem, ocorre redução da umidade e decomposição da matéria orgânica. O resultado é cerca de uma tonelada diária de composto orgânico estabilizado, que pode ser utilizado como fertilizante na própria propriedade, ao final do processo.

Outro processo é a biodigestão. Nesse sistema, o efluente é encaminhado aos biodigestores, onde microrganismos degradam a matéria orgânica na ausência de oxigênio.

O processo gera dois produtos principais: o digestato e o biogás. O biogás é composto principalmente por metano e dióxido de carbono. O metano possui alto poder energético e pode ser utilizado para geração de eletricidade, produção de calor ou abastecimento de motores a gás. Caso não seja aproveitado, o metano em excesso deve ser queimado, com pelo menos 98,0% de eficiência na queima.

Ao final do processo resta o digestato, um fertilizante líquido rico em nutrientes, que pode ser aplicado nas lavouras como fertirrigação.

Tabela 1.
Quantificação nutricional química do digestato gerado a partir da biodigestão com palha de milho.

Variável Quantificação (mg/l)
Nitrogênio Total 3107,9
Nitrogênio na forma de nitrito 3173,4
Nitrogênio na forma de nitrato 1,6
Amônia 583,2
Fósforo na forma de fosfato 87,0
Enxofre na forma de sulfato 50,0
Cloreto 2139,2
Cálcio 124,5
Magnésio 26,2
Sódio 1348,8
Potássio 1041,3
pH 7,6

Fonte: UFPE | Elaboração: Scot Consultoria

O digestato também pode ser aproveitado na limpeza de instalações, reduzindo o consumo de água. Estudos da Embrapa indicam que sistemas de reaproveitamento podem diminuir em até 95,0% o uso de água nas propriedades.

O produtor também conta com linhas de incentivo para adoção dessas tecnologias. O Programa ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono) permite financiar sistemas de compostagem e biodigestores.

Para acessar o crédito, é necessário apresentar projeto técnico assinado por profissional habilitado, dimensionamento do sistema, análise de viabilidade econômica e Cadastro Ambiental Rural (CAR) regularizado. Após aprovação pelo banco, o financiamento pode ser concedido com taxas subsidiadas e prazos longos, facilitando a implementação.

Para uma fazenda com 80 a 120 cabeças, o investimento em um biodigestor é de aproximadamente R$400 mil. O projeto conta com financiamento em até três anos e prazo de retorno do investimento (payback) estimado também em três anos.

Além da economia e do potencial de geração de energia, a compostagem e os biodigestores podem gerar créditos de carbono, ao reduzirem as emissões de gases de efeito estufa provenientes da decomposição dos resíduos orgânicos.

A geração desses créditos é calculada a partir da diferença entre as emissões estimadas em um cenário sem tratamento e aquelas observadas com a implantação do sistema. Nos biodigestores, o metano é capturado e utilizado como biogás. Já na compostagem, o processo aeróbio reduz sua formação.

Essa redução de emissões pode ser convertida em toneladas de CO₂ equivalente evitadas. Após monitoramento e certificação, cada tonelada reduzida pode gerar um crédito de carbono negociável no mercado.

Referências:

ANÁLISE DO POTENCIAL DO DIGESTATO DE RESÍDUOS DE ALIMENTO COMO BIOFERTILIZANTE. Disponível em: https://meioambientepocos.com.br/anais/Anais2024/An%C3%A1lise%20Do%20Potencial%20Do%20Digestato%20D… Acesso em 16/3

Análise do potencial de ganho financeiro por meio de créditos de carbono com a implantação de biodigestores no sistema de disposição de Resíduo Sólido Urbano em Campo Grande – MS. Scientific Journal ANAP ISSN 2965-0364, v. 01, n. 07, 2023Edição Especial - Anais do Simpósio de Resíduos, Inovação e Sustentabilidade. Disponível em: https://publicacoes.amigosdanatureza.org.br/index.php/anap/pt_BR/article/view/4335/4154 Acesso em 15/3

BRASIL. Lei nº 14.300, de 6 de janeiro de 2022. Institui o marco legal da microgeração e minigeração distribuída de energia elétrica e o Sistema de Compensação de Energia Elétrica. Brasília: Presidência da República, 2022. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/lei/l14300.htm. Acesso em: 15/3

AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS. Resolução ANP nº 886, de 29 de setembro de 2022. Estabelece as especificações do biometano oriundo de aterros sanitários e de resíduos orgânicos. Rio de Janeiro: ANP, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br/assuntos/producao-e-fornecimento-de-biocombustiveis/biometano. Acesso em: 15/3

BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Plano ABC+ 2020–2030: Plano Setorial para Adaptação à Mudança do Clima e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária. Brasília: MAPA, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sustentabilidade/plano-abc . Acesso em: 15/3

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Biodigestores na produção animal: fundamentos e aplicações. Brasília: Embrapa, 2018. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1095050 . Acesso em: 15/3

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Aproveitamento de dejetos da bovinocultura para geração de biogás e fertilizantes. Brasília: Embrapa, 2016. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/1059392. Acesso em: 15/3

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Metodologia para estimar o potencial de biogás e biometano a partir de plantéis suínos e bovinos no Brasil. Disponível em: https://www.embrapa.br/documents/1355242/0/Biog%C3%A1sFert+-+Metodologia+para+estimar+o+potencial+d… Acesso em 15/3

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