Mais do que nunca, é hora de olhar para a curva com olhos de gestor e não apenas de produtor.
Foto: Shutterstock
Amigos, olhem com calma a tabela com os preços do dia 10/12/2025.
O indicador B3 fechou em R$320,72/@. Na mesma fotografia, os contratos futuros marcavam R$319,85/@ para dezembro, R$325,90/@ para janeiro/26, R$326,90/@ para fevereiro/26 e R$328,80/@ para março/26.
Traduzindo: a curva está pagando um ágio de R$5,18/@ (1,6%) para janeiro, R$6,18/@ (1,9%) para fevereiro e R$8,08/@ (2,5%) para março, todos acima do físico de hoje.
Tabela 1.
Preços da arroba do boi gordo no mercado físico e no mercado futuro.
Fonte: B3 / Elaboração:
Dezembro já negocia abaixo do indicador, o que mostra que a fotografia de curtíssimo prazo é de equilíbrio ajustado. Mas, quando avançamos alguns meses, a conversa muda: o mercado futuro continua oferecendo prêmio (mesmo que não tão interessante quanto num passado recente) para quem tem boi gordo para abate no início de 2026, especialmente em jan/26.
Em outras palavras, hoje o produtor consegue, na tela, vender um boi de janeiro por algo em torno de R$325,00/@–R$326,00/@, enquanto o balcão físico trabalha abaixo de R$321,00/@.
Até aqui, poderíamos dizer que é apenas o comportamento normal de uma curva que enxerga alguma melhora de preço à frente. O ponto é que não estamos falando de um início de ano qualquer. Em jan/26, há um fator extra na jogada: o prazo da investigação de medidas de salvaguarda chinesa, que foi postergado de 2025, para 26/1/2026. Na prática, isso significa que o nosso principal comprador de carne bovina tem, no calendário, uma data marcada para revisar – e potencialmente restringir – o acesso do produto brasileiro.
Ninguém sabe exatamente qual será o desenho final dessa salvaguarda: se virá na forma de cotas, tarifas, critérios sanitários mais duros, alguma combinação disso tudo ou, até mesmo, se continuaremos no ritmo atual. O que sabemos é que o risco está lá, bem na virada entre janeiro e fevereiro. E, por enquanto, a curva parece relativamente tranquila, pagando ágio para os vencimentos logo antes e logo depois desse marco.
É aqui que entra o alerta. Em uma coluna recente (21/11/25), comentei que, quando o futuro paga bem acima do físico, não estamos diante de um mero capricho do mercado, mas de uma oportunidade de travar margem.
Agora, o recado se repete com um ingrediente a mais: além do ágio, temos um evento conhecido no calendário, que pode aumentar a volatilidade justamente na janela em que muitos bois poderão estar prontos para abate.
Imagine o seguinte cenário: seguimos até janeiro num clima relativamente calmo, os embarques fluem, a China continua comprando bem, e os preços se sustentam nessa faixa de R$325,00/@–R$330,00/@ na curva. De repente, conforme nos aproximamos do dia 26/1, começam a circular rumores mais concretos sobre o formato da salvaguarda, algum documento vaza, uma autoridade dá declaração infeliz… em poucos pregões, o humor muda, fundos reduzem exposição, frigoríficos se reposicionam, e aquele ágio de R$5,00/@ a R$8,00/@, que hoje parece “garantido”, pode simplesmente evaporar.
Não é previsão de catástrofe, é gestão de risco. Pode ser que a salvaguarda venha mais suave do que o mercado teme, pode ser que o impacto seja menor do que se imagina, ou pode ser que não mude nada como está hoje.
Mas, para quem tem boi no cocho, a pergunta não é “o que eu acho que vai acontecer?”, e sim “qual é o preço que garante minha margem se o cenário virar?”. Se hoje o mercado te oferece jan/26 a R$325,90/@, com um prêmio interessante sobre o físico, faz sentido, pelo menos, avaliar travar uma parte da produção – seja via venda a termo, via futuro ou via estrutura com opções.
Não significa vender 100,0% do seu potencial de abate, significa transformar uma parte da sua exposição em resultado conhecido, especialmente na virada de um ano em que a principal âncora da exportação pode ter as regras mexidas. É a diferença entre entrar em 2026 torcendo para que nada dê errado ou entrar em 2026 sabendo que, para uma fatia relevante do seu gado, você já tem um preço mínimo assegurado.
Mais do que nunca, é hora de olhar para a curva com olhos de gestor, e não apenas de produtor. O mercado está sinalizando que aceita pagar acima do físico pelo boi de jan/26. Ao mesmo tempo, o calendário te lembra que, a partir de 26/1, o jogo com a China pode mudar. Juntar essas duas informações é o que transforma a tela em ferramenta, e não em ameaça.
Se fizer sentido para a realidade da sua fazenda, sente com o seu time, revise custos, margens e cronograma de lotes, e converse com uma consultoria de confiança sobre as alternativas de hedge para esse período. Em algumas semanas, a janela pode estar fechada, – e aí não adianta reclamar que “o mercado virou de uma vez”.
No fundo, o recado é simples: enquanto janeiro/26 ainda paga ágio, e o risco da salvaguarda está no horizonte, vale, no mínimo, fazer as contas com carinho.
Forte abraço e bons negócios!
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