Comitente serve exatamente para isso: mostrar quem está empurrando o mercado e com que intensidade.
Amigos, como eu tinha comentado no artigo anterior, hoje quero trazer, de forma simples, o que são os comitentes na B3 e aproveitar os dados da última semana para mostrar como cada um deles se comportou no mercado futuro do boi gordo.
Muita gente se enrola com esse tema, mas não precisa: comitente nada mais é do que o grupo ao qual pertence quem está posicionado. A bolsa separa esses grupos por perfil, porque cada um tem uma lógica muito própria de operar – e entender isso ajuda a enxergar o boi por dentro, não só pelo preço.
De maneira direta:
• Pessoa Física: é o investidor comum, o especulador, o produtor Resumindo: o varejo, que costuma operar direção, acreditando que o preço vai subir ou cair.
• Pessoa Jurídica Não Financeira: é a indústria, os frigoríficos, exportadores e empresas com risco direto no boi físico – fazem hedge e operam margem.
• Fundos: são gestores profissionais que entram quando enxergam oportunidade e saem rápido quando a conta não fecha.
• Não Residentes: são investidores de fora do Brasil, normalmente muito técnicos e seletivos.
• Pessoa Jurídica Financeira: são os bancos etc. É formada por instituições financeiras que fazem ajustes pontuais e operações específicas para book próprio ou hedge de posições de clientes aos quais oferecem contraparte (NDF etc.).
Figura 1.
Contratos futuros em aberto na B3.
Fonte: B3 / Elaboração: Raphael Galo.
Agora, olhando a figura 1, entre 30/4 e 07/5, o desenho ficou bem claro. A Pessoa Física apareceu com um saldo comprado de 26.667 contratos, que é um tamanho expressivo. Isso mostra que o varejo entrou firme apostando na alta do boi, possivelmente contando com uma oferta mais ajustada ou algum repique no físico. É um posicionamento típico: quando o mercado parece barato, o varejo enche a mão.
No extremo oposto, a Pessoa Jurídica Não Financeira manteve um saldo vendido de –20.204 contratos. Aqui está o peso do mercado: esse grupo é quem tem boi de verdade para abater, quem precisa travar margem e proteger preço. Um saldo vendido forte como esse mostra preocupação com uma oferta maior à frente ou a leitura de que o preço futuro já embute mais do que deveria.
Os Fundos e os Não Residentes praticamente ficaram no giro, ajustando margens, mas sem puxar nem segurar tendência. Esse comportamento de “meio do caminho” indica que não há convicção forte desses players em nenhuma direção, por enquanto.
E, sobre a Pessoa Jurídica Financeira, aqui tem uma revisão importante: vem aumentando o saldo de vendas e é a segunda maior força vendedora.
Quando juntamos tudo isso, amigos, vemos um mercado esticado entre dois polos: varejo muito comprado e indústria muito vendida.
É a clássica foto de um mercado “quieto no preço, barulhento no pano de fundo”. Esse tipo de configuração costuma antecipar movimentos mais bruscos. Basta um gatilho: se o físico firmar, a indústria precisa recomprar; se a oferta pesar, a Pessoa Física costuma ser a primeira a desmontar posição. E é nessa hora que o mercado mostra para onde quer ir.
No fim, comitente serve exatamente para isso: mostrar quem está empurrando o mercado e com que intensidade. O preço é só a superfície. O fluxo – e quem compõe esse fluxo – conta o resto da história.
Forte abraço e até a próxima!
<< Notícia Anterior Próxima Notícia >>Receba nossos relatórios diários e gratuitos