• Quarta-feira, 21 de outubro de 2026
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Carta Insumos - Efeito da dependência externa por diesel

Em setembro, o Brasil importou 26,5% menos diesel na comparação anual, e os Estados Unidos responderam por 73,6% do volume. O acordo entre Trump e Putin reabre a oferta russa, mas o abastecimento de novembro ainda depende de novas compras.


Foto: Magnific

Foto: Magnific

O mercado brasileiro de diesel chega a meados de outubro com menos produto importado, preço internacional elevado e compras concentradas em um único fornecedor. De janeiro a setembro de 2026, o Brasil importou 9,1 milhões de toneladas de óleo diesel, 13,5% menos que no mesmo período de 2025 (10,6 milhões de toneladas). O desembolso, porém, aumentou 32,7% e somou US$9,2 bilhões, consequência do custo da tonelada que ficou, em média, em US$1.010 (FOB), alta de 53,5% sobre os US$658 de um ano antes.

Em setembro, o aperto ficou mais claro, foram 1,08 milhão de toneladas, queda de 26,5% na comparação feita ano a ano, a US$1.390 por tonelada, mais que o dobro dos US$675 de setembro de 2025 (figura 1).

Figura 1.
Importação mensal de óleo diesel por país de origem, em mil toneladas, de janeiro de 2025 a setembro de 2026.

Fonte: Comex / Elaborado por Scot Consultoria

A queda tem origem conhecida, a saída da Rússia. Até maio, os russos embarcaram, em média, 687,0 mil toneladas por mês para o Brasil, em agosto e setembro, 59,2 mil toneladas. Desde julho, Moscou proibiu a exportação de diesel pelos produtores para garantir o abastecimento interno, afetado por ataques ucranianos às refinarias, e a restrição foi prorrogada até 31 de outubro. Os Estados Unidos ocuparam o espaço, em setembro, embarcaram 793,8 mil toneladas, 73,6% do diesel importado pelo Brasil, ante 45,8% um ano antes. A fatia russa recuou de 27,1% para 5,8%.

A concentração deixou o abastecimento brasileiro mais sensível à política norte-americana. Em setembro, com o diesel nos postos dos Estados Unidos no recorde de US$6,52 por galão (22/9), Washington discutiu restringir as exportações. Em 2 de outubro, depois de o G7 anunciar a liberação de 100 milhões de barris de petróleo e derivados de estoques, o presidente Donald Trump descartou a proibição. O risco diminuiu, mas o inverno no Hemisfério Norte tende a reduzir o excedente exportável norte-americano.

Em 9 de outubro, Trump anunciou um acordo com Vladimir Putin para liberar diesel russo, 300 mil toneladas de imediato, 500 mil toneladas em novembro e 1 milhão de toneladas na sequência, segundo o próprio presidente norte-americano. No mesmo dia, o Tesouro dos Estados Unidos autorizou operações com diesel de origem russa até 7 de abril de 2027 e, no dia 10, Moscou suspendeu parcialmente a proibição.

Para o Brasil, o efeito tende a ser indireto. O volume anunciado é menos da metade do diesel russo comprado pelo país entre janeiro e setembro (4,2 milhões de toneladas) e o acordo foi apresentado como medida para baixar o preço nos Estados Unidos. Ainda assim, mais produto russo em circulação reduz a disputa pelos volumes norte-americanos. Os termos não foram publicados oficialmente pela Rússia, e a licença é questionada no Congresso dos Estados Unidos.

Subvenção do preço no Brasil

Desde 15 de setembro, produtores e importadores de diesel rodoviário recebem subvenção de R$2,12 por litro, mantida por mais 30 dias a partir de 27 de setembro. Em 9 de outubro, o governo acrescentou R$1,40 por litro ao diesel importado, também por 30 dias, com custo estimado de R$1,6 bilhão. O benefício ao importado chegou, assim, a R$3,52 por litro.

Mesmo assim, o preço doméstico segue distante da paridade de importação. Em 2 de outubro, a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) calculava o diesel da Petrobras R$3,27 por litro abaixo do custo de importação, defasagem de 100%. A diferença aparece entre as regiões, em setembro, o diesel S-10 praticado por produtores e importadores (sem ICMS) custou, em média, R$3,70 por litro no Sudeste e R$4,56 no Nordeste, 23,2% a mais, segundo a ANP. Um ano antes, o preço no Nordeste estava abaixo do Sudeste. A região é porta de entrada do produto importado, Maranhão e Pernambuco receberam 30,9% do volume de janeiro a setembro.

Nas bombas, o diesel S-10 subiu em todas as semanas desde o início de setembro, de R$6,97 por litro (6 a 12/9) para R$7,36 (4 a 10/10), alta de 5,6% (ANP). A Abicom avalia que o abastecimento de outubro está garantido, mas as contratações para novembro ainda estão baixas. O período coincide com as paradas programadas das refinarias de Paulínia (Replan) e Araucária (Repar), que respondem por cerca de 36% da produção de diesel da Petrobras. A estatal prevê compensar a perda com importação, justamente com o produto mais caro.

Biodiesel: B15 mantido e B16 para 2027

A mistura obrigatória vigente é de 15% de biodiesel (B15), desde agosto de 2025. Pela Lei do Combustível do Futuro, o B16 estava previsto para março de 2026, mas depende de testes de viabilidade técnica iniciados em agosto, com relatório final esperado para fevereiro de 2027. O aumento da mistura, portanto, não deve aliviar a necessidade de importação nesta safra.

Com o B15, a produção de biodiesel somou 6,83 milhões de metros cúbicos de janeiro a agosto de 2026, 8,0% mais que no mesmo período de 2025, quando a mistura foi de 14% até julho (figura 2). O óleo de soja respondeu por 73,8% da matéria-prima, o que mantém a demanda por biodiesel ligada ao esmagamento da oleaginosa.

Figura 2.
Produção de biodiesel de janeiro a agosto, em mil metros cúbicos, em 2025 e 2026.

Fonte: ANP / Elaborado por Scot Consultoria

O B100 praticado por produtores passou de R$4,94 por litro em maio para R$5,55 em setembro (médias mensais, sem ICMS), alta de 12,3%, e ficou 40,8% acima do diesel S-10 no mesmo critério. Na comparação direta entre esses preços, a mistura de 15% acrescenta cerca de R$0,24 por litro ao diesel B.

Perspectivas

Quatro fatores devem orientar o mercado nos próximos meses, o volume de diesel russo que efetivamente voltará ao mercado e a decisão de Moscou sobre a proibição a partir de novembro, o excedente exportável dos Estados Unidos no inverno, a continuidade das subvenções, que vencem entre o fim de outubro e o início de novembro; e o retorno das refinarias em manutenção.

Para o agronegócio, a atenção está no plantio da safra de verão. Não há indicação de desabastecimento, mas importação menor, fornecedor concentrado e preço interno abaixo da paridade mantêm o risco de atrasos pontuais e de pressão sobre o custo de produção e o frete. Enquanto a oferta internacional seguir restrita, o cenário provável é de preço firme. Um recuo depende da normalização das exportações russas e da redução das tensões no Oriente Médio.

Publicado originalmente no Broadcast Agro.

Referências:

AGÊNCIA BRASIL. Tributos da gasolina são zerados e subsídios a combustíveis, ampliados. Brasília, 9 out. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-10/tributos-da-gasolina-sao-zerados-e-subsidios-combustiveis-ampliados

AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS (ANP). Preços de produtores e importadores de derivados de petróleo e biodiesel; dados abertos de produção, vendas e matérias-primas do biodiesel. Brasília, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br

CLICK PETRÓLEO E GÁS. Diesel da Petrobras: diferença para o preço de importação cai de R$ 3,67 para R$ 3,27 por litro em um dia, diz Abicom. 4 out. 2026. Disponível em: https://clickpetroleoegas.com.br/diesel-da-petrobras-diferenca-para-o-preco-de-importacao-cai-de-r-3-67-para-r-3-27-por-litro-em-um-dia-diz-abicom-e-defasagem-recua-a-100-btl96/

CNN BRASIL. Rússia flexibiliza restrições à exportação de diesel após acordo com Trump. São Paulo, 10 out. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/macroeconomia/russia-flexibiliza-restricoes-a-exportacao-de-diesel-apos-acordo-com-trump/

FORTUNE. After threatening to ban U.S. exports of diesel fuel, Trump admits “we were never going to do it”. 3 out. 2026. Disponível em: https://fortune.com/2026/10/03/us-diesel-export-ban-record-prices-trump-europe-g7-reserves-release/

MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA, COMÉRCIO E SERVIÇOS (MDIC). Comex Stat: importação e exportação da NCM 27101921. Brasília, 2026. Disponível em: https://comexstat.mdic.gov.br/

PBS NEWSHOUR. Trump strikes deal with Putin for Russian diesel in sharp reversal of U.S. policy ahead of midterms. 9 out. 2026. Disponível em: https://www.pbs.org/newshour/world/trump-strikes-deal-with-putin-for-russian-diesel-in-sharp-reversal-of-u-s-policy-ahead-of-midterms

PODER360. Governo mantém subsídio de R$ 2,12 no diesel até fim de outubro. Brasília, 26 set. 2026. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-economia/governo-mantem-subsidio-de-r-212-no-diesel-ate-fim-de-outubro/

PODER360. Estoques asseguram diesel de outubro diante de crise global no refino. Brasília, 10 out. 2026. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-energia/estoques-asseguram-diesel-de-outubro-diante-de-crise-global-no-refino/

TAGD LAW. Petrobras retoma manutenção de refinarias. 5 ago. 2026. Disponível em: https://tagdlaw.com.br/petrobras-retoma-manutencao-de-refinarias/

THE AGRIBIZ. Biodiesel: sem folga nos testes, B16 pode ficar para 2027. 12 ago. 2026. Disponível em: https://www.theagribiz.com/empresas/bioenergia/biodiesel-sem-folga-nos-testes-b16-pode-ficar-para-outubro-de-2027/

THE MOSCOW TIMES. Government extends diesel export ban until end of October. 30 set. 2026. Disponível em: https://www.themoscowtimes.com/2026/09/30/government-extends-diesel-export-ban-until-end-of-october-a93823

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