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Carta Insumos
CARTA INSUMOS Julho de 2026 · Edição 271 · Ano 21
Insumos · Nutrição mineral

Fósforo mais caro

Alta do enxofre impulsiona preços do fosfato bicálcico e dos suplementos minerais

Carta Insumos · Fósforo mais caro www.scotconsultoria.com.br

Restrição na oferta global de enxofre e fosfatados elevaram os custos de produção e provocaram um aumento da cotação do fosfato bicálcico e dos suplementos minerais ao longo de 2026.

Carta Insumos · Fósforo mais caro
Expediente

Autor: Rodrigo De Mundo, zootecnista e pesquisador da Scot Consultoria. Equipe de Analistas: Alcides Torres · Fábio Takaku · Felipe Fabbri · Gustavo Duprat · Isabela Stevanatto · Juliana Pila · Lorenzo Cracco · Marcelo Roschel · Mariana Hauschild · Pedro Gonçalves · Roselena Sestari · Rodrigo de Mundo · Stéfany Souza. Jornalista Resp.: Talita Aparecida Peixoto Dias – MTB 0022766/MG.

01

O insumo estratégico

O fosfato bicálcico (DCP) é a principal fonte de fósforo utilizada na nutrição animal e um insumo estratégico para a pecuária brasileira. Ele é empregado na formulação de suplementos minerais e rações para bovinos, aves, suínos e peixes, garantindo o fornecimento de fósforo e cálcio, essenciais para o desempenho produtivo e reprodutivo.

Industrialmente, o fosfato bicálcico é produzido a partir da reação entre ácido fosfórico e uma fonte de cálcio. O ácido fosfórico tem como matéria-prima a rocha fosfática, um recurso mineral cuja oferta está concentrada em poucos países, tornando o mercado dependente da disponibilidade global desse minério.

Embora o Brasil possua reservas e produção de rocha fosfática, a oferta doméstica não atende integralmente à demanda da cadeia de nutrição animal e fertilizantes, o que mantém o país dependente de importações. Dessa forma, fatores como oferta internacional, custos de produção, logística e câmbio influenciam os preços no mercado brasileiro.

Entre janeiro e junho deste ano, a cotação subiu 17,8%, estando em média, em R$164,18 por saca de 25 kg.

Figura 1

Evolução da cotação da saca de 25 kg de fosfato bicálcico, FOB São Paulo

Evolução da cotação da saca de 25 kg de fosfato bicálcico
Fonte: Scot Consultoria
02

O impacto do enxofre

O mercado está sendo marcado pela elevação dos custos de produção, reflexo do encarecimento das principais matérias-primas da cadeia fosfatada.

O principal fator de pressão veio do enxofre, utilizado na produção de ácido sulfúrico, insumo essencial para a fabricação do ácido fosfórico, base do fosfato bicálcico. A escalada dos preços do enxofre elevou os custos da indústria de fosfatados.

O enxofre iniciou 2026 pressionado, em continuidade ao movimento de alta registrado em 2025, quando o desequilíbrio entre oferta e demanda deu sustentação aos preços (leia mais na edição 242 da Carta Insumos).

A oferta global de enxofre tem baixa elasticidade. O produto não é gerado especificamente para a agricultura ou pecuária, sendo majoritariamente obtido como subproduto do refino de petróleo e do processamento de gás natural.

Em 2025, esse desequilíbrio foi gerado por restrições em importantes regiões produtoras e exportadoras, como a Rússia, que, além de diminuir a produção e exportação, teve que importar o insumo para atender a demanda interna. Além disso, houve paradas e redução do desempenho em unidades de refino, reduzindo a disponibilidade internacional.

Ao mesmo tempo, a demanda permaneceu firme, sustentando o consumo de ácido sulfúrico e, consequentemente, de enxofre.

O conflito entre os Estados Unidos e o Irã intensificou a alta, ao afetar regiões produtoras e o principal eixo logístico do comércio global de enxofre, o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 50% do suprimento mundial do produto.

Aproximadamente 42% do enxofre importado pelo Brasil em 2025 veio do Oriente Médio (figura 2).

Figura 2

Participação por país nas importações de enxofre pelo Brasil em 2025 (%)

Participação por país nas importações de enxofre pelo Brasil em 2025
*Outros: Alemanha, China, Coreia do Sul, Coveite (Kuweit), Espanha, França, Hungria, Índia, Japão, Omã, Polônia, Reino Unido, Turquia
Fonte: Secex / Elaboração Scot Consultoria
03

Preços em alta

Com o fechamento do Estreito, a alta nos fretes, nos seguros marítimos e diante das incertezas quanto aos embarques, o mercado ficou pressionado. Mesmo sem interrupção da produção, o aumento do risco foi suficiente para restringir a oferta, com cargas sendo postergadas, redirecionadas ou negociadas com prêmios adicionais.

Nesse contexto, o mercado passou a incorporar um prêmio de risco, elevando as cotações. Além disso, houve uma antecipação das compras para assegurar o abastecimento.

Em junho de 2026, o preço por quilo do enxofre importado pelo Brasil atingiu o maior nível dos últimos seis anos, cotado em US$1,05/kg. Alta de 298,0% em 12 meses e de 595,9% em relação a janeiro de 2025.

Figura 3

Cotação do enxofre importado pelo Brasil (US$/kg) nos últimos seis anos

Cotação do enxofre importado pelo Brasil, últimos seis anos
Fonte: Secex / Elaboração Scot Consultoria

No mercado internacional, a cotação da tonelada de enxofre também atingiu níveis recordes, ultrapassando 10,0 mil yuans ou 1,5 mil dólares por tonelada e chegando, em 14/7, a 9.119 yuans ou 1,3 mil dólares. Trata-se de uma alta superior a 300% se comparado ao mesmo período de 2025.

A cotação é apresentada em yuan por tonelada porque acompanha o mercado chinês, uma das principais referências globais para o enxofre, já que não existe um preço internacional único para o produto.

Figura 4

Cotação do enxofre industrial na China (CNY/tonelada), últimos cinco anos

Cotação do enxofre industrial na China, CNY por tonelada
Até 14/7 · Fonte: Trading Economics
04

Oferta global de fosfatos

A oferta global de fosfatos (fertilizantes; ácido fosfórico; alguns sais de fosfato) permanece restrita. As limitações às exportações chinesas de fosfatados reduziu a disponibilidade internacional, sustentando os preços ao longo do ano. Como a China responde por uma parcela relevante da produção mundial de fosfatos, qualquer restrição em seus embarques repercute sobre o mercado internacional.

Desde o fim de 2025, a China manteve restrições às exportações de fertilizantes fosfatados, priorizando o abastecimento interno e a estabilidade dos preços domésticos. Em 2026, o país também restringiu as exportações de ácido sulfúrico, diminuindo a disponibilidade global justamente em um momento de escassez de enxofre.

Essas medidas reduziram a liquidez do mercado internacional e contribuíram para a alta dos preços.

No Brasil, a dependência de importações de rocha fosfática, ácido fosfórico e outros insumos da cadeia fez com que o mercado doméstico acompanhasse esse movimento. Além do aumento das matérias-primas, custos do frete marítimo e câmbio contribuíram para manter os preços do fosfato bicálcico elevados durante boa parte de 2026.

05

Poucos substitutos, demanda estável

Apesar da pressão sobre os preços, a demanda permaneceu relativamente estável. O fosfato bicálcico possui baixa possibilidade de substituição na nutrição animal.

A farinha de carne e ossos (FCO) é um dos substitutos do fosfato bicálcico na formulação de rações para aves e suínos, pois fornece fósforo, cálcio e proteína.

Sua vantagem é o menor custo, além de agregar proteína à dieta. Em contrapartida, apresenta maior variação na composição nutricional e menor padronização em relação ao fosfato bicálcico, exigindo maior cuidado na formulação das rações.

Na alimentação de ruminantes, como bovinos, a farinha de carne e ossos não pode ser utilizada no Brasil, devido às restrições sanitárias relacionadas à prevenção da encefalopatia espongiforme bovina (mal da vaca louca). Assim, para a pecuária bovina, o fosfato bicálcico permanece como a principal fonte de fósforo.

Figura 5

Preço em R$/kg de fósforo disponível: fosfato bicálcico vs. farinha de carne e ossos

Preço do fósforo disponível: fosfato bicálcico vs. farinha de carne e ossos
Fonte: Scot Consultoria

Em junho, a cotação por quilo de fósforo foi de R$36,48 para o fosfato bicálcico, considerando 18,0% de fósforo, e de R$39,89 e R$31,91 para a farinha de carne e ossos com 4,0% e 5,0% de fósforo, respectivamente.

06

Suplementos minerais em alta

O mercado de suplementos minerais acompanhou a alta da cotação do fosfato bicálcico. A alta foi repassada aos produtos com fósforo, enquanto a menor disponibilidade da matéria-prima provocou dificuldades pontuais de abastecimento e alongamento dos prazos de entrega em algumas regiões.

Entre janeiro e junho deste ano, os suplementos minerais para fornecimento de fósforo tiveram um acréscimo na sua cotação próximo de 10,0% ou mais.

Figura 6

Evolução da cotação da saca de 30 kg de suplementos minerais com diferentes concentrações de fósforo

Cotação da saca de 30 kg de suplementos minerais com diferentes concentrações de fósforo
Fonte: Scot Consultoria
07

Perspectivas

Para o curto prazo, a expectativa é de estabilidade a alta na cotação do fosfato bicálcico. O tráfego limitado no Estreito de Ormuz dificulta o fornecimento de fornecedores do Brasil.

Na China, o estoque de enxofre nos portos em junho estava estimado em 820 mil toneladas, volume 26,13% menor em relação a maio. Na comparação com o mesmo período do ano passado, a queda chega em 63,0%. Isto limita a possibilidade do país asiático fornecer para o Brasil, visto o consumo maior do que reposição nos portos.

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