Restrição na oferta global de enxofre e fosfatados elevaram os custos de produção e provocaram um aumento da cotação do fosfato bicálcico e dos suplementos minerais ao longo de 2026.
Autor: Rodrigo De Mundo, zootecnista e pesquisador da Scot Consultoria. Equipe de Analistas: Alcides Torres · Fábio Takaku · Felipe Fabbri · Gustavo Duprat · Isabela Stevanatto · Juliana Pila · Lorenzo Cracco · Marcelo Roschel · Mariana Hauschild · Pedro Gonçalves · Roselena Sestari · Rodrigo de Mundo · Stéfany Souza. Jornalista Resp.: Talita Aparecida Peixoto Dias – MTB 0022766/MG.
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O insumo estratégico
O fosfato bicálcico (DCP) é a principal fonte de fósforo utilizada na nutrição animal e um insumo estratégico para a pecuária brasileira. Ele é empregado na formulação de suplementos minerais e rações para bovinos, aves, suínos e peixes, garantindo o fornecimento de fósforo e cálcio, essenciais para o desempenho produtivo e reprodutivo.
Industrialmente, o fosfato bicálcico é produzido a partir da reação entre ácido fosfórico e uma fonte de cálcio. O ácido fosfórico tem como matéria-prima a rocha fosfática, um recurso mineral cuja oferta está concentrada em poucos países, tornando o mercado dependente da disponibilidade global desse minério.
Embora o Brasil possua reservas e produção de rocha fosfática, a oferta doméstica não atende integralmente à demanda da cadeia de nutrição animal e fertilizantes, o que mantém o país dependente de importações. Dessa forma, fatores como oferta internacional, custos de produção, logística e câmbio influenciam os preços no mercado brasileiro.
Entre janeiro e junho deste ano, a cotação subiu 17,8%, estando em média, em R$164,18 por saca de 25 kg.
Evolução da cotação da saca de 25 kg de fosfato bicálcico, FOB São Paulo
O impacto do enxofre
O mercado está sendo marcado pela elevação dos custos de produção, reflexo do encarecimento das principais matérias-primas da cadeia fosfatada.
O principal fator de pressão veio do enxofre, utilizado na produção de ácido sulfúrico, insumo essencial para a fabricação do ácido fosfórico, base do fosfato bicálcico. A escalada dos preços do enxofre elevou os custos da indústria de fosfatados.
O enxofre iniciou 2026 pressionado, em continuidade ao movimento de alta registrado em 2025, quando o desequilíbrio entre oferta e demanda deu sustentação aos preços (leia mais na edição 242 da Carta Insumos).
A oferta global de enxofre tem baixa elasticidade. O produto não é gerado especificamente para a agricultura ou pecuária, sendo majoritariamente obtido como subproduto do refino de petróleo e do processamento de gás natural.
Em 2025, esse desequilíbrio foi gerado por restrições em importantes regiões produtoras e exportadoras, como a Rússia, que, além de diminuir a produção e exportação, teve que importar o insumo para atender a demanda interna. Além disso, houve paradas e redução do desempenho em unidades de refino, reduzindo a disponibilidade internacional.
Ao mesmo tempo, a demanda permaneceu firme, sustentando o consumo de ácido sulfúrico e, consequentemente, de enxofre.
O conflito entre os Estados Unidos e o Irã intensificou a alta, ao afetar regiões produtoras e o principal eixo logístico do comércio global de enxofre, o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 50% do suprimento mundial do produto.
Aproximadamente 42% do enxofre importado pelo Brasil em 2025 veio do Oriente Médio (figura 2).
Participação por país nas importações de enxofre pelo Brasil em 2025 (%)
Fonte: Secex / Elaboração Scot Consultoria
Preços em alta
Com o fechamento do Estreito, a alta nos fretes, nos seguros marítimos e diante das incertezas quanto aos embarques, o mercado ficou pressionado. Mesmo sem interrupção da produção, o aumento do risco foi suficiente para restringir a oferta, com cargas sendo postergadas, redirecionadas ou negociadas com prêmios adicionais.
Nesse contexto, o mercado passou a incorporar um prêmio de risco, elevando as cotações. Além disso, houve uma antecipação das compras para assegurar o abastecimento.
Em junho de 2026, o preço por quilo do enxofre importado pelo Brasil atingiu o maior nível dos últimos seis anos, cotado em US$1,05/kg. Alta de 298,0% em 12 meses e de 595,9% em relação a janeiro de 2025.
Cotação do enxofre importado pelo Brasil (US$/kg) nos últimos seis anos
No mercado internacional, a cotação da tonelada de enxofre também atingiu níveis recordes, ultrapassando 10,0 mil yuans ou 1,5 mil dólares por tonelada e chegando, em 14/7, a 9.119 yuans ou 1,3 mil dólares. Trata-se de uma alta superior a 300% se comparado ao mesmo período de 2025.
A cotação é apresentada em yuan por tonelada porque acompanha o mercado chinês, uma das principais referências globais para o enxofre, já que não existe um preço internacional único para o produto.
Cotação do enxofre industrial na China (CNY/tonelada), últimos cinco anos
Oferta global de fosfatos
A oferta global de fosfatos (fertilizantes; ácido fosfórico; alguns sais de fosfato) permanece restrita. As limitações às exportações chinesas de fosfatados reduziu a disponibilidade internacional, sustentando os preços ao longo do ano. Como a China responde por uma parcela relevante da produção mundial de fosfatos, qualquer restrição em seus embarques repercute sobre o mercado internacional.
Desde o fim de 2025, a China manteve restrições às exportações de fertilizantes fosfatados, priorizando o abastecimento interno e a estabilidade dos preços domésticos. Em 2026, o país também restringiu as exportações de ácido sulfúrico, diminuindo a disponibilidade global justamente em um momento de escassez de enxofre.
Essas medidas reduziram a liquidez do mercado internacional e contribuíram para a alta dos preços.
No Brasil, a dependência de importações de rocha fosfática, ácido fosfórico e outros insumos da cadeia fez com que o mercado doméstico acompanhasse esse movimento. Além do aumento das matérias-primas, custos do frete marítimo e câmbio contribuíram para manter os preços do fosfato bicálcico elevados durante boa parte de 2026.
Poucos substitutos, demanda estável
Apesar da pressão sobre os preços, a demanda permaneceu relativamente estável. O fosfato bicálcico possui baixa possibilidade de substituição na nutrição animal.
A farinha de carne e ossos (FCO) é um dos substitutos do fosfato bicálcico na formulação de rações para aves e suínos, pois fornece fósforo, cálcio e proteína.
Sua vantagem é o menor custo, além de agregar proteína à dieta. Em contrapartida, apresenta maior variação na composição nutricional e menor padronização em relação ao fosfato bicálcico, exigindo maior cuidado na formulação das rações.
Na alimentação de ruminantes, como bovinos, a farinha de carne e ossos não pode ser utilizada no Brasil, devido às restrições sanitárias relacionadas à prevenção da encefalopatia espongiforme bovina (mal da vaca louca). Assim, para a pecuária bovina, o fosfato bicálcico permanece como a principal fonte de fósforo.
Preço em R$/kg de fósforo disponível: fosfato bicálcico vs. farinha de carne e ossos
Em junho, a cotação por quilo de fósforo foi de R$36,48 para o fosfato bicálcico, considerando 18,0% de fósforo, e de R$39,89 e R$31,91 para a farinha de carne e ossos com 4,0% e 5,0% de fósforo, respectivamente.
Suplementos minerais em alta
O mercado de suplementos minerais acompanhou a alta da cotação do fosfato bicálcico. A alta foi repassada aos produtos com fósforo, enquanto a menor disponibilidade da matéria-prima provocou dificuldades pontuais de abastecimento e alongamento dos prazos de entrega em algumas regiões.
Entre janeiro e junho deste ano, os suplementos minerais para fornecimento de fósforo tiveram um acréscimo na sua cotação próximo de 10,0% ou mais.
Evolução da cotação da saca de 30 kg de suplementos minerais com diferentes concentrações de fósforo
Perspectivas
Para o curto prazo, a expectativa é de estabilidade a alta na cotação do fosfato bicálcico. O tráfego limitado no Estreito de Ormuz dificulta o fornecimento de fornecedores do Brasil.
Na China, o estoque de enxofre nos portos em junho estava estimado em 820 mil toneladas, volume 26,13% menor em relação a maio. Na comparação com o mesmo período do ano passado, a queda chega em 63,0%. Isto limita a possibilidade do país asiático fornecer para o Brasil, visto o consumo maior do que reposição nos portos.