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Scot Consultoria

Mitigação da emissão de gases de efeito estufa na pecuária

Entrevista com o engenheiro agrônomo Abmael da Silva Cardoso

Terça-Feira, 08 de Junho de 2021 - 11h15
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Graduado em Engenharia Agronômica, Abmael Cardoso realizou mestrado em Agronomia (ciência do solo) pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e é doutor em Zootecnia pela Unesp, Campus de Jaboticabal. Realizou estágio no exterior no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, além do pós-doutorado entre 2016 e 2021.

Foto: Scot Consultoria


Graduado em Engenharia Agronômica, Abmael Cardoso realizou mestrado em Agronomia (ciência do solo) pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e é doutor em Zootecnia pela Unesp, Campus de Jaboticabal. Realizou estágio no exterior no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, além do pós-doutorado entre 2016 e 2021.

Abmael atua na área de emissão de gases de efeito estufa (GEE) e mudanças climáticas globais e, desde 2007, se dedica à quantificação e modelagem da emissão de GEE na agropecuária.

Scot Consultoria: A intensificação da produção pecuária é uma alternativa para a mitigação das emissões de GEE? Como isso acontece?

Abmael Cardoso: Sim. Essa mitigação se dá de duas formar: uma seria através da redução da intensidade de emissão. A intensidade de emissão é medida por quilos de CO2 por quilo de carcaça, que é a pegada de carbono. Para se reduzir a pegada de carbono, a diminuição da idade ao abate é a melhor estratégia através de melhorias, como o manejo de pastagens e nutrição, principalmente.

A outra forma é a redução das emissões totais de GEE pela pecuária. Porém, essa alternativa é mais complicada, haja vista a necessidade de aumento substancial da taxa de desfrute da pecuária brasileira. Essa taxa de desfrute maior exige um rebanho com menos animais para produzir a mesma quantidade de carne que o mercado demanda. Através dessa redução do rebanho, teríamos como resposta a redução das emissões totais de GEE pela pecuária.

Se por um lado os Estados Unidos, com um rebanho de aproximadamente 93 milhões de cabeças, produzem mais de 13 milhões de toneladas de carcaça por ano, o Brasil, com um rebanho de aproximadamente 215 milhões de cabeças, produz em torno de 12 milhões de toneladas de carcaça por ano. Portanto, esse é o caminho que devemos seguir para mitigar as emissões de GEE da pecuária brasileira, aumentando a taxa de desfrute. Na minha opinião, isso é um “mar” de oportunidades para os operadores da pecuária de corte, pois exige adoção de tecnologias, financiamentos, transferência de conhecimentos etc.

Sobre o efeito da intensificação da pecuária sobre a emissão de GEE, recomendo a leitura desse artigo. Nele, também discutimos os efeitos da intensificação sobre o uso da terra e seu efeito poupa terra.

Scot Consultoria: Comparando o Brasil com os demais países, temos sido transparentes quanto à divulgação de dados das nossas emissões de GEE?

Abmael Cardoso: Sim, embora o Brasil não seja obrigado a reportar suas emissões de acordo com o protocolo de Quioto, sempre realizou inventários nacionais. O quarto inventário nacional de gases de efeito estufa foi publicado recentemente.

O Brasil possuía um número baixo de fatores de emissões de GEE, mas o enorme esforço de pesquisadores brasileiros nos últimos anos levou a publicação de fatores de emissões locais. Acredito que o próximo inventário será bastante preciso.

Scot Consultoria: Hoje em dia, na pecuária brasileira, qual área o senhor acredita que tenha maior participação na diminuição das emissões de GEE : nutrição, manejo das pastagens ou genética, por exemplo? Quais tecnologias o senhor destacaria dentro desse setor? 

Abmael Cardoso: Todas essas áreas contribuem para redução das emissões de GEE. São melhorias na nutrição e adoção de boa genética que permitem reduzir a idade ao abate e aumentar a taxa de desfrute, pontos fundamentais para mitigar a emissão de GEE.

No que se refere ao manejo de pastagens, podemos obter vários benefícios. Uma redução na sazonalidade da produção de forragem contribui para que não ocorra o efeito boi sanfona e, consequentemente, reduzir a idade ao abate, além de possibilitar o aumento do número de bezerros desmamados por vaca por ano. Capins com menor teor de fibra levam à redução na produção de CH4, o mais importante GEE emitido pela pecuária. No entanto, o benefício mais importante do manejo de pastagens é o sequestro de carbono pelo solo. Estudos recentes têm mostrado que áreas de pastagens, quando bem manejadas, estocam grande quantidade de carbono.

O principal gargalo em termos de impactos ambientais na pecuária de corte é a fase de cria. Se faz necessário aumentar a taxa de desmame. Países com as menores pegadas de carbono têm uma taxa de desmame de aproximadamente 90%. Se quisermos reduzir esses impactos, temos que trabalhar na fase de cria da pecuária de corte brasileria (reprodução, genética e aspectos nutricionais).  

Scot Consultoria: Como o senhor vê a Carne Carbono Neutro e Carne de Baixo Carbono no mercado brasileiro atualmente e futuramente, daqui alguns anos?

Abmael Cardoso: Considero iniciativas importantes para certificar quem está reduzindo ou compensando as emissões de GEE. Na minha opnião, existe um segmento disposto a pagar um pouco mais por carne certificada.

Porém, vejo como uma ameaça muito maior a não adoção de estratégias de redução de emissões de carbono. A pressão de competidores da carne brasileira pode levar a prejuízos muito maiores do que a expectativa de ganho através de carne certificada.

Vejo o futuro muito promissor para carnes certificadas devido ao plano ecológico europeu e o Green Deal dos Estados Unidos. Ambos os planos criarão um ciclo virtuoso para negócios sustentáveis.

Scot Consultoria: Como a comunidade científica tem ajustado a metodologia do IPCC para cálculo de emissões de GEE, com a finalidade de melhorar a quantificação das emissões e remoções de GEE em sistemas de produção tropicais?

Abmael Cardoso: Existe um enorme esforço para quantificar as emissões de metano entérico e óxido nitroso para os diferentes sistemas de produção de bovinos de corte no Brasil. Inúmeros estudos têm confirmado que a emissão de CH4 é de aproximadamente 55 kg para um animal adulto de 450 kg.

Por outros lado, a emissão de N2O mensurada é bem menor do que se acreditava, menos de 0,5% do nitrogênio excretado pelos animais contra os 2% determinado anteriormente. Atualmente, o grande desafio é gerar fatores para estimar as remoções de carbono através do sequestro em áreas de pastagens.

Scot Consultoria: Qual o efeito da adubação nitrogenada de pastagens sobre a emissão de gases, balanço das emissões e potencial de redução dos impactos ambientais da pecuária?

Abmael Cardoso: A adubação nitrogenada de pastagens contribui para aumentar a taxa de lotação animal, e portanto, contribui para um efeito poupa terra necessário para a redução da pressão por abertura de novas áreas.

Estudos têm demostrado que a adubação nitrogenada, associada ao manejo, permite a oferta de uma grande quantidade de folhas, resultando em excelentes desempenhos individuais e por área, contribuindo para a redução da pegada de carbono.

Porém, o maior benefício é que para aumentar o carbono estocado no solo é necessário nitrogênio. Isso significa que, além do aumento de produção de massa aérea e raízes, o nitrogênio de fertilizantes contribuirá para a manutenção dos novos estoques de carbono em áreas de pastagens.



O Confina Brasil, expedição que promove o levantamento de dados da pecuária intensiva, já está na estrada. A meta em 2021 é mapear 40% do gado confinado no país. Siga o @confinabrasil no Instagram e acesse confinabrasil.com para acompanhar a expedição.



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