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Scot Consultoria

O que Bolsonaro “sacará da cartola”?


Quarta-feira, 14 de novembro de 2018 - 06h00

Foto: Poder360


Com o fim das incertezas eleitorais, como ficou o humor dos empresários e investidores no Brasil? Como o mercado financeiro reagiu à definição do presidente? As estratégias adotadas para buscar o equilíbrio fiscal vêm sendo satisfatórias do ponto de vista dos economistas? Como o mercado enxerga o horizonte daqui para frente?


Para sanar essas dúvidas, convidamos André Perfeito para uma entrevista. André é economista e mestre em economia política pela PUC/SP, é especialista em econometria pela FIPE e economista-chefe da Spinelli Corretora de Valores.


André também participará do bloco de economia do Encontro de Analistas da Scot Consultoria que acontecerá em São Paulo no dia 23 de novembro, aprofundando ainda mais essas questões. As vagas estão esgotadas. Entretanto, abrimos uma lista de espera para os interessados em participar. Para fazer parte desta lista, preencha o formulário disponível em www.encontrodeanalistas.com.br ou ligue para 17 3343 5111.


Confira a entrevista na íntegra:


Scot Consultoria: Ao longo das eleições e das pesquisas de intenção de votos, o mercado reagiu positivamente com o futuro presidente do país, Jair Bolsonaro. Em sua opinião, essa “lua de mel” entre o presidente e o mercado financeiro está com os dias contados? Tem um prazo de validade?


André Perfeito: Bom, primeira coisa, eu acho que, no começo, o mercado precificou não exatamente a vitória do Bolsonaro, mas, sim, a derrota do PT (Partido dos Trabalhadores), isso por si só já gerou muito ânimo na bolsa.


Por que eu estou colocando isso? Porque o Bolsonaro sempre foi muito misterioso para gente, mas o PT não, todos já sabiam exatamente qual era a posição deles.


Uma vez que o Bolsonaro ganhou, agora, nós começamos a precificar exatamente o Bolsonaro. Esse processo de precificação, em um primeiro momento, é relativamente fácil ser otimista, por que eu diria isso? Porque até agora ele só está montando o plano de governo, nada está sendo executado ainda.


Então, em um primeiro momento, a reação do mercado continua sendo positiva, podemos notar que a bolsa brasileira também tem subido bastante, mas, se for comparado em dólares, nós estávamos bem para trás, a bolsa poderia até subir mais comparado ao que estava.


Entretanto, eu acho que esse movimento tem limite. Diferentemente de outros colegas, eu acho que até pode atingir 100.000 pontos, mas eu sugiro muita cautela porque, além das nossas questões, há as questões externas a serem consideradas.


Mais que isso, quando começar efetivamente o governo do Bolsonaro é que vamos separar o “joio do trigo”.


A brincadeira que eu faço é que agora no final do ano, em dezembro e janeiro, nós vamos entrar em um período infernal, por que infernal? Porque o “diabo” mora no detalhe, nós precisamos ver o detalhe de cada uma das coisas. Por exemplo, ele fala que vai resolver o problema da segurança e educação, mas, ao mesmo tempo, fala de cortar gastos. Como? Ele diz que irá fazer o ajuste na previdência, mas, aparentemente, não vai mexer nos militares. Como? Ele quer cortar imposto e ter resultado fiscal positivo. Como? Ele quer aumentar imposto. Que tipo de impostos? De que forma? Vai ser um trabalho grande.


Há outras coisas também. Por exemplo, a indicação do Sérgio Moro foi recebida com bastante entusiasmo pelo mercado, e eu até entendo esse entusiasmo, faz todo sentido o entusiasmo por parte do mercado financeiro. Mas, por outro lado, ele sabe que ser Ministro da Justiça no Brasil não é uma tarefa fácil, nós estamos falando de um país que tem muita rebelião em presídio, estamos falando de um país que tem muito problema com ministros, vamos ver agora como o Sérgio Moro reage a tudo isso.


Isso para dizer que, esse sentimento muito positivo pode durar esse ano e começo do ano que vem, mas cada vez mais vamos ter que olhar os detalhes.


Então, em um primeiro momento, nós precificamos que o PT não ia ganhar, faz sentido a bolsa subir? Todo sentido a bolsa subir. Agora, estamos começando a precificar o Bolsonaro, no começo é fácil encaminhar isso, só que existem algumas questões que nós vamos ter que entrar no detalhe, entender exatamente o que ele está falando, como as privatizações, ajuste fiscal, planos para educação e para a segurança etc.


Também coloco aqui a situação do Moro, porque, em um primeiro momento parece muito fácil, muito bonito, só que ele precisará fazer um trabalho bastante evidente, para dizer o mínimo. Isso é uma questão interna que vai ter um pouco mais de cuidado do que a gente está tendo hoje.  


Então, falta nós sabermos, ele vai privatizar a Petrobras, sim, não ou um trecho? E a Embraer, eles vão usar o Golden Share, porque é uma empresa que faz arma, logo tem a ver com o núcleo militar?


Tem uma disputa dentro do governo Bolsonaro, que ainda não está claro para mim exatamente, que é entre o núcleo militar e o civil. Até agora o que está falando mais alto é o núcleo civil, mas eu não sei se é tão simples assim. O general Mourão, o vice-presidente, parece ser um homem bastante determinado a respeito de determinadas agendas e pautas.


Scot Consultoria: O senhor acha que o Bolsonaro é um liberalista “recém-convertido”? Se formos levar em consideração o histórico dele como deputado, inclusive em algumas declarações ele era meio contrário a alguns posicionamentos do Paulo Guedes...


André Perfeito: Assim, ele encontra o liberalismo pela “curva da direita”, o que eu quero dizer com isso? Ele é um político que entende os valores da direita como positivos e o que isso significa? Ele tem ideia de liberdade, de empreender, essas liberdades que são entendidas como fundamentais para a direita.


Só que ele é um “ornitorrinco ideológico”, digo isso porque, para mim, não existe nada mais absurdo que um liberal conservador, para mim, isso é um absurdo em objeto, não existe isso. O que existe é uma espécie de conservadorismo de direita, e um exemplo disso é o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Se o Bolsonaro for o Trump brasileiro, pode notar que o resultado fiscal do governo Norte Americano está indo para a “cucuia”, está gerando um déficit gigantesco, ele é um intervencionista e por aí vai.


O que é uma característica mais de direita econômica é a ideia da necessidade de cortar impostos porque a iniciativa privada sabe fazer melhor que o governo, mas, fora isso, não tem muito mais o que pensar dele. E as pessoas votaram no Bolsonaro nesse sentido, eu acho que existe uma leitura no mercado, e aí eu sou um pouco crítico com alguns colegas, que o mercado colocou muitas palavras na boca do Bolsonaro.


Essa conversão dele sobre o liberalismo, não é bem um liberalismo, ele é um conservador de direita, e tem algumas pessoas que são liberais e conservadoras, que para mim é um absurdo teórico, não faz sentido isso.


A direita conservadora, o que dá para ver é Trump, mas aí que está, isso que eu estou achando a respeito dele, porque de novo, eu não estou querendo colocar palavras na boca dele, eu estou querendo ouvir o que ele está colocando, e até agora quem está se posicionando e se colocando é o Paulo Guedes.


Só que, ao mesmo tempo, teve uma fala do Bolsonaro nos últimos dias, por exemplo, sobre a reforma da previdência, que ele veio com suspensão à reforma. Então, eu tenho que ver mais em detalhe o que vai acontecer e novamente dizendo que novembro e dezembro vai ser fácil falar, quero ver chegar janeiro e fevereiro.


Scot Consultoria: Falando um pouco sobre o Paulo Guedes, o senhor acha que pode ter alguma chance de ele ter o mesmo destino que o Joaquim Levy, no mandato da Dilma? Que pediu demissão depois de uma sequência de derrotas ao tentar promover o ajuste fiscal?


André Perfeito: Então, eu acho que pode ter uma chance sim de ele sair, mas acho que não vai ser tão rápido porque é diferente do Joaquim Levy, que foi, vamos dizer assim, “improvisado ali”, porque não vamos mentir, ele [Joaquim] foi um improviso da Dilma, nem era cogitado o seu nome durante a campanha, por isso mesmo se viu esse estelionato eleitoral com a Dilma porque ela não tinha nem apresentado isso.


Agora, o Paulo Guedes é o contrário, ele é o “posto Ipiranga” do Bolsonaro desde meados deste ano, então todo mundo sabia. Então eu acho que ele está muito vinculado ao presidente, por isso não sairá muito rápido, mas isso não quer dizer que a capacidade do governo Bolsonaro de entregar as reformas que o Paulo Guedes entende como necessária seja possível.


Por que eu estou falando isso? Porque na verdade, o PSL (Partido Social Liberal), hoje em dia, tem a segunda maior bancada e vai virar a primeira maior bancada porque vai acabar absorvendo um ou outro nome ali, e se estamos falando de bancadas, o PT (Partido dos Trabalhadores) tem 56, e o PSL (Partido Social Liberal) 52, números pequenos em comparação ao que existia antigamente. O PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), o PT, o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), nos áureos tempos, cada um tinha quase cem deputados nas respectivas bancadas.


Então, é um congresso difícil de administrar, o Bolsonaro já não é, digamos, um primor do trato político, ele tem um estilo que é muito do conflito, ele ganhou porque as pessoas queriam isso, querem alguém que fale “eu faço e aconteço”. Eu posso achar isso ingenuidade, mas quem sou eu na fila do pão?


Eu sou só mais um tentando fazer análises, mas ele não vai conseguir entregar tudo isso que ele está prometendo, em minha opinião. Ele vai tentar fazer isso, mas acho que ele não vai conseguir efetivamente fazer todas essas reformas e por outro motivo também, nós estamos em um momento no Brasil aonde a questão fiscal, ano que vem, vai ficar muito aguda porque o teto, muito provavelmente, vai ser testado, estourado, algo desse tipo, e em uma economia que estados estão quebrados.


Por mais que muitos dos nomes sejam novos, existem demandas sociais. Remédio em posto de saúde é tão simples quanto isso, e aí, eles vão continuar cortando? Porque nós achamos que não, mas o nível do corte que o Temer fez, foi muito abrupto, o incêndio do museu nacional é só um caso evidente do quanto estamos cortando de todas as áreas, e aí, dá para cortar mais? Eu acho que não, e aí eu quero ver o que o Bolsonaro e o Paulo Guedes vão “sacar da cartola”.


Scot Consultoria: O Paulo Guedes tinha comentado que queria vender uma parte das reservas cambiais para reduzir o tamanho da dívida. Apesar dele já ter voltado atrás, o senhor acha que isso seria uma estratégia?


André Perfeito: Eu acho preocupante porque reserva cambial dá para ser usada de forma mais inteligente. Hoje em dia, nós temos essa reserva amplamente financiando a dívida norte-americana. Então, você pode ter um uso melhor, porque é o seguinte: a reserva não é um “muro de arrimo” que a gente tem, eu não acho sábio a gente tirar tijolo do muro de arrimo para tentar consertar o telhado, deixa lá naquele muro, entendeu?


O que nós podemos fazer é usar as reservas para tentar efetivar justamente o fortalecimento nacional no quesito exportação. Falaremos disso no Encontro de Analistas da Scot Consultoria. Mas, dentro desse âmbito, faz sentido, por exemplo, preparar e facilitar portos, gerar linhas de créditos para moeda estrangeira de exportadoras de carne etc.


Quer ver uma coisa que é complicada no momento atual? Por exemplo, nos últimos doze meses, o Brasil tem um déficit, com Israel, de US$600,0 milhões, e um superávit, com o Irã, no mesmo período, de US$5,0 bilhões. Aí começa esse jogo geopolítico que o Bolsonaro está colocando que, de novo, lembra que eu falei que será um período infernal e que temos que ver no detalhe?


Então, esse é o jogo, agora é que vamos ver, porque o Bolsonaro foi eleito com uma das plataformas mais simplórias que eu já vi na minha vida que é “tem que mudar isso aí”. O que é isso aí? De que jeito é isso aí?


Então, por isso que eu sou cauteloso, mas isso não quer dizer que eu não esteja otimista com a economia como um todo no sentido do crescimento em termos brutos, com o PIB do ano que vem a 2%, podendo ir até 3%, por que não? Boa parte do ajuste econômico foi feito, mas eu ainda acho que temos uma situação bastante preocupante a respeito de outras variáveis, mas que nós podemos crescer com incentivos pequenos, dá sim. 


Entrevistado:



André Perfeito, economista-chefe da Spinelli.


 



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