• Segunda-feira, 16 de outubro de 2017
Scot Consultoria

Carta Boi: Os três pecuaristas e o confinamento


Quarta-feira, 2 de agosto de 2017 - 11h15
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Há oferta de boiadas para reposição do rebanho e de grãos com custos atraentes, contudo, a projeção dos preços futuros do boi gordo (B3) e as projeções de resultado da atividade se recuperaram apenas nas duas últimas semanas. Nesta análise fazemos simulações de resultados para o confinamento de bovinos, com diferentes estratégias de gerenciamento de risco de mercado.


Para ilustrar, imagine que no começo do ano três pecuaristas planejavam a compra de gado para confinar, pretendendo abatê-los com 90 dias de cocho, no final de outubro. Ou seja, o gado seria confinado no início de agosto.


O primeiro produtor comprou no começo do ano seguros de preços mínimos para outubro na bolsa de mercadorias (puts), garantindo R$143,00/@, à vista, a um custo de R$1,09/@. O segundo produtor travou preços quando comprou o gado magro e o terceiro não travou as cotações, não fez seguro, apenas acompanhou as expectativas de mercado. 


Com estes três cenários, simulamos os resultados para cada momento da compra dos bois magros, cujo peso foi fixado em 360kg. 


Consideramos preços na praça pecuária de São Paulo e que, entre o começo de janeiro e o final de julho, este gado poderia ter sido comprado em qualquer momento. Para o caso de ter sido comprado antes do início de agosto, início do confinamento, consideramos um custo de manutenção até a entrada no cocho. 


Os custos considerados foram os mesmos para os pecuaristas, tanto para a diária em confinamento (R$7,50/cabeça), como custo diário de manutenção do gado em pasto (R$41,85/cabeça/mês), obtido com a soma de um arrendamento de pastagem, mão de obra, suplementação e sanidade. Os desembolsos considerados foram proporcionais ao período em foco, sendo que um bovino comprado no começo de março agregou mais custos (e ganho, mas não necessariamente lucro) que um boi magro comprado ao final do mesmo mês. 


Usamos um ganho de peso médio diário de 0,4kg/cabeça para estes bois que foram comprados antes, gerando diferentes pesos na entrada para o confinamento. Como fixamos o ganho no período de confinamento em 1,5kg/dia, o peso ao abate também variou, de 18,3@ para o boi magro que foi diretamente para o cocho, até 21,3@ para os comprados no começo de janeiro. 


Embora seja inerente a qualquer simulação, ressaltamos que os valores apresentados variam conforme os detalhes do sistema, custo e ganho, dentre outros. O objetivo aqui é demonstrar as tendências e as diferenças entre os caminhos possíveis, com simulações diretas, com algumas simplificações, como o mesmo custo de diária e rendimento para pesos distintos.


O que comprou o gado magro e garantiu preços de venda simultaneamente


Esta é a simulação para o pecuarista que travou os preços de venda no momento da compra do gado magro. Em 2017 os frigoríficos não têm feito o contrato a termo de preços fixos, o que faz com que esta operação tenha que ser feita na bolsa de mercadorias, através de uma corretora. 


Embora soe complicado, a transação é simples, frente a ajustes nutricionais e outras decisões técnicas que fazem parte do dia a dia do confinamento. Há necessidade de acompanhamento de ajustes e da margem de garantia, mas como para esta podem ser usados outros investimentos do produtor, não consideramos esta saída de caixa para o cálculo da Taxa Interna de Retorno (TIR). 


Por exemplo, no começo de fevereiro (1/2), ele comprou bois magros com 360kg por R$1,92 mil por cabeça, que ficaram 182 dias no pasto, antes de serem confinados, com 432,8kg no início de agosto.  Foram abatidos ao final de outubro com 20,8@.


No momento da compra dos bois magros o produtor travou as cotações em 145,05/@ no mercado futuro. Este preço foi o do fechamento daquele dia.


O retorno apresentado foi anualizado, ou seja, em doze meses, o sistema em questão, com parâmetros do início de fevereiro, geraria retorno anualizado de 10,4%, frente a uma Selic de 13,0% na mesma data. 



Adicionamos a meta da Selic ao gráfico por ser uma taxa que pode ser obtida em investimentos seguros, como o Tesouro Direto. Se não for para superar uma taxa praticamente isenta de risco, a atividade não é interessante, porque, mesmo travando as cotações, sem risco de mercado, há questões sanitárias e operacionais que podem atrapalhar o desempenho e o resultado.


Perceba que na segunda metade de julho a atividade projeta resultado positivo e superando a Selic mais no final do mês.


O que travou preços mínimos no começo do ano


Esta simulação ilustra o resultado do produtor que travou cotações mínimas para outubro (R$143,00/@, à vista) no começo do ano, com o desembolso de R$1,09 por arroba a ser vendida. Esta operação também é feita através de uma corretora e, na prática, garante as cotações mínimas, caso a cotação da arroba tenha caído a patamares abaixo do que foi travado.


Ou seja, em janeiro houve um desembolso pequeno, mas que garantia preços mínimos, sem compromisso de entrega do gado. Se a alimentação tivesse disparado ou a reposição subido, sem alta conjunta da cotação do boi gordo, ele poderia optar por não confinar. 


Assim como um seguro. Garantiu preços mínimos, mas sem obrigações, pagando por isso um prêmio. 


Esta sugestão foi feita no início de março, neste mesmo espaço (veja aqui a Carta Boi “Mantenha as escolhas do confinamento sobre o seu domínio”). Neste ano, com o furacão que acometeu a pecuária, além de efetivo, o exemplo ficou didático. 


No entanto, não citamos isto para dizer que acertamos, pois não foi o caso. Não fazíamos ideia de que seria deflagrada uma operação do porte da Carne Fraca, seguida pela volta do Funrural e, depois, as delações dos dirigentes da JBS. 


O que nós sugerimos naquela ocasião foi que o pecuarista saísse do risco, como fizemos (e outros analistas também) nos últimos anos. Embora importante, não é uma ideia nova, foi a reafirmação de algo fundamental.


Voltando ao exemplo. O produtor travou a cotação mínima em R$143,00/@, a um custo de R$1,09/@ e comprou gado magro ao longo do ano (do início de janeiro ao final de julho), mantendo este gado no pasto, com o custo apresentado, até o confinamento.


Os resultados estão na figura 2.



No início da série, até meados de março, as cotações no mercado futuro estavam acima da cotação assegurada do exemplo, ou seja, era mais interessante que ele travasse naquelas cotações, se optasse por fixar o resultado com a venda futura. 


Ou poderia confiar nos seguros, que já projetavam resultados positivos. Lembrando que, como a compra do seguro foi feita antes da compra dos bois magros, a decisão de confinar permaneceu com o pecuarista.


A partir de março até o final de julho, período da elaboração desta análise, as opções estiveram mais vantajosas, frente aos preços futuros. Se na venda os preços estiverem maiores que o seguro, o produtor ganha na alta.


Ou seja, a TIR apresentada no final de julho, de mais de 50,0% a.a., está garantida para o ciclo, caso não haja problema operacional maior. O resultado é daí para mais.


E o terceiro pecuarista?


O terceiro pecuarista pode ter comprado ou não os bois magros. Se ele não comprou, observa um cenário que projeta resultados crescentes. Isto pode gerar uma oferta de boiadas confinadas maior que a esperada há algumas semanas, a partir de meados de outubro e novembro.


Se ele comprou a reposição, está vendo a situação melhorar, mas depois de ter passado mais de um mês vendo prejuízos nas expectativas do mercado futuro. Hoje ele vê lucro, mas sem ter travado, continua na torcida.


Na torcida para que o “mensalinho” do JBS não gere problemas maiores, para que o mercado entenda apenas como um desdobramento da operação Carne Fraca, ou que a situação econômica melhore, dentre outras agonias. Todos os produtores torcem pela mesma melhoria da situação geral e da pecuária, com a diferença de que quem garantiu preços dorme melhor.


Não há dúvida de que a pecuária brasileira seguirá em frente, não foi a primeira, nem será a última crise. O que o pecuarista precisa é planejamento para seguir com ela.


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