• Sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Scot Consultoria

Carta Conjuntura - Eficiência alimentar e qualidade da carne: Tudo junto e misturado


Quinta-feira, 20 de abril de 2017 - 17h00
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Nessas últimas semanas, rodei mais de três mil quilômetros experimentando o Brasil que dá certo. Foi um sopro de esperança em uma época de tanto desalento. No interior de São Paulo, participei do “Encontro de Confinadores e de Recriadores” da Scot Consultoria e pude ver o “estado-da-arte” da atividade, com empresários rurais com sistemas de produção ultramodernos, além de muita informação relevante de pesquisadores e consultores. Já no Mato Grosso, conheci uma jovem cidade, que ainda não chegou aos 30 anos, mas que tem na “Parecis SuperAgro” um evento à altura dos grandes do país. Na sua 10ª edição, tive a honra de ser um dos palestrantes entre expoentes do setor1 . Foram dias de muito aprendizado e de renovar a crença que temos um futuro brilhante à frente quando olhamos pelo prisma do agronegócio.  


Gostaria de levantar especificamente dois pontos entre tantos que foram discutidos no “Encontro de Confinadores e de Recriadores” e no “SuperAgro” sobre a cadeia da bovinocultura de corte e que aproximaram esses lugares distantes na geografia, mas bem mais próximos nestes aspectos: a eficiência alimentar e o atendimento das expectativas do mercado consumidor.


A eficiência alimentar, por ser uma relação entre duas variáveis, é uma métrica menos palpável do que o ganho de peso e o consumo da dieta, medidas das quais ela é derivada. A maneira mais usual de ser apresentada é como “conversão alimentar”, ou seja, quantos quilogramas da dieta são necessários para cada quilograma de ganho. Por exemplo, se o animal consome 10 kg da dieta e ganha 1 kg de peso vivo, ele tem uma conversão alimentar de 10:1. Um detalhe: é considerado o consumo em matéria seca, isto é, desconsiderando a água contida nos alimentos. 


A eficiência alimentar propriamente dita seria o inverso da conversão alimentar. Neste exemplo, 1 kg de ganho para cada 10 kg de consumo de matéria seca, ou seja, 100 g de ganho para cada quilograma de matéria seca consumido. Uma pequena vantagem em se usar a eficiência alimentar é que, quanto maior seu valor, melhor, o que é mais intuitivo do que a conversão alimentar que, quanto menor, mais vantajosa.


Um animal pode ter eficiência alimentar maior do que outro por duas razões: (1) Apesar de ter o mesmo consumo, ele ganha mais ou (2) ele tem o mesmo ganho, mas consome menos que o outro. O que esperamos dessas duas situações é que sobre mais dinheiro, ou porque há mais receita (Caso 1) ou porque há menos custo (Caso 2). Em sendo assim, podemos associar com 100% de certeza a eficiência alimentar ao lucro? Não, simplesmente porque isso depende do fato do ganho estar sendo suficiente para pagar o custo total diário do animal, incluindo o custo de fornecer a dieta, a depreciação das instalações e o capital empatado na atividade. Assim, eficiência alimentar não garante lucro. Todavia, mesmo na situação em que ocorre prejuízo, o animal mais eficiente trará menor prejuízo em relação a outro menos eficiente.


Fundamental é usar essa medida de maneira a tirar o melhor dela. Nesse sentido, vale à pena comentar o caso apresentado em uma das palestras do “Encontro de Confinadores e Recriadores da Scot Consultroria”. Foram comparados dois lotes, que recebiam a mesma dieta, no qual o menos eficiente foi mais lucrativo. Apesar disso não ser exatamente surpresa, conforme comentado no parágrafo anterior, é importante colocar em perspectiva o que exatamente esse resultado significa.


Esmiuçando um pouco mais as informações trazidas na comparação desses lotes, o dado que mais chamou a atenção foi a ingestão como porcentagem do peso vivo: o lote mais eficiente tinha um consumo cerca de 15% inferior. Caso esses lotes de animais fossem semelhantes, não haveria motivo para esperar uma diferença tão grande no consumo.  


Considerando que fossem mesmo semelhantes entre si, uma explicação para o menor consumo de um dos lotes poderia ser algum problema na oferta da dieta. Menor oferta ajudaria, inclusive, a explicar a maior eficiência: consumos menores fazem o alimento passar mais devagar pelo trato digestivo do animal, dando mais tempo para a ação das enzimas digestivas agirem, o que aumenta o aproveitamento dos nutrientes da dieta e, portanto, sua eficiência. 


Na hipótese (mais provável) de que não tenha havido problemas com a oferta, então a explicação mais plausível seria que os animais dos diferentes lotes eram diferentes entre si, com o lote mais eficiente sendo composto por animais de mais baixo potencial de ganho. Aqui temos um ponto crucial: animais de baixo potencial não ganharam pouco porque consumiram pouco, mas exatamente ao desempenharam menos, tiveram menos fome. 


O que determina a vontade de comer é o potencial produtivo do animal. Isso é mais fácil entender pensando numa vaquinha de leite bem fraquinha, que produza seus 5 kg de leite por dia. De nada adianta abrir uma fístula e encher o seu rúmen da mais tenra alfafa, pois a produção não vai mudar. Ela consume pouco porque pouco produz.  


A mensagem importante, portanto, é que o uso da eficiência alimentar como uma das medidas de desempenho do confinamento requer alguns cuidados, como comparar situações de fato comparáveis, separando bem causa e efeito. Deve-se notar, contudo, que mesmo no caso do lote com menor lucro, ela continua válida e é interessante, pois se a eficiência alimentar fosse a mesma que a do outro grupo, seu lucro seria menor ainda!


Ainda nesta questão da eficiência alimentar, deve-se ter claro em mente que temos uma parte da eficiência que depende de fatores externos ao animal, como uma dieta bem balanceada, ingredientes de qualidade e um manejo alimentar que favoreça o consumo. Ocorre que esses fatores são bem controláveis e, assim, podemos considerá-los perfeitamente atendíveis. Dessa forma, resta-nos avaliar a característica intrínseca do animal, ou seja, a relação de sua genética com a eficiência.


No campo da eficiência e da genética, temos boas notícias. A primeira delas é que o existe um grande diferencial entre indivíduos. No caso de Nelores, por exemplo, avaliando 575 cabeças de um rebanho estrategicamente produzido com o sêmen de 34 touros muito influentes de forma a representar da melhor forma possível a variabilidade da raça, obteve-se uma diferença de 3,8 kg de ingestão de matéria seca entre o animal mais eficiente e o menos eficiente, medida como consumo alimentar residual. É essa gigantesca variabilidade que temos a chance de explorar pelo melhoramento genético. Esses dados são provenientes do projeto Bifequali2.


Esse foi um dos principais pontos que tentei mostrar na palestra em Campo Novo dos Parecis, mas, junto a esta boa notícia, há alguns desafios. Apesar da maioria dos dados nos mostrarem que animais eficientes produzem carne com qualidade da carne semelhante aos demais, percebeu-se que, à medida que vamos à busca de eficiência, há uma tendência em se produzir carne com menos gordura. Será necessária, então, uma vigilância para evitar que produzamos muito eficientemente uma carne que o consumidor não tenha interesse em consumir. Essa meta é plenamente possível e, o mais importante, já está no radar dos nossos melhoristas.


Essa questão de eficiência e qualidade da carne já está no cotidiano da produção de carne e nem sempre tem sido satisfatoriamente resolvido. Aqui entra o segundo ponto ouvido à exaustão nas andanças pelo interior de São Paulo e de Mato Grosso: a necessidade de atender os desejos do consumidor de carne.


Em várias palestras, nos dois eventos, houve menção sobre a importância em se produzir a carne que o mercado quer. Uma grande questão nesse ponto é que não há a exata clareza do que seja isso. Sabemos que temos de produzir uma carne macia, suculenta e saborosa. Todavia, referências mais objetivas, ainda nos faltam. Há um razoável consenso que, no mínimo, devemos abater animais com menos de 30 meses e com boa terminação (cerca de 4 mm de espessura da gordura subcutânea).


O problema é que, do ponto de vista da eficiência alimentar, quanto menos terminado o animal, melhor. Assim o que é bom para a eficiência de produção é ruim para a qualidade final do produto.  Todavia, haveria algum sentido em se produzir uma carne eficiente, mas que será mal recebida pelo consumidor? Evidentemente, a resposta é não! Infelizmente, é o que predomina no mercado da carne do dia-a-dia, cuja característica mais constante é sua inconstância quanto à qualidade, particularmente quanto à maciez.


O exemplo que sempre gosto de repetir é minha experiência pessoal no restaurante por quilo: no “Buffet”, lado a lado, tenho bife e o filé de frango. Meu coração manda pegar o bife, mas, no final das contas, o cérebro prevalece e escolho o filé de frango. A razão me fez lembrar que, apesar de mais sem graça, o peito de frango deve estar muito parecido com o que comi em ocasiões anteriores. Há bem menos chance de que ele esteja duro ou com outra característica sensorial indesejável. 


O que cada produtor precisa entender é que isso não é um exemplo isolado, mas uma realidade cuja escala afeta significativamente a demanda do seu produto e, consequentemente, o seu valor de mercado. A produção verdadeiramente eficiente, portanto, é aquela em que temos atendido também as condições mínimas para garantir a qualidade do produto.


Depois de ver aplicação de esterco na lavoura com uso de GPS, mais dados impressionantes de produção com integração lavoura-pecuária-floresta, a qualidade dos ingredientes sendo avaliada em tempo real em confinamento, sinto-me cometendo uma injustiça em abordar somente esses dois aspectos nesta oportunidade para esses dois importantes eventos. Espero, nos próximos meses, reparar essa falha.


Embrapa Gado de Corte – 40 anos: Dedico esse texto à instituição que tem permitido realizar-me profissionalmente e que no próximo dia 28 de abril celebrará seus primeiros 40 anos. É comum as pessoas serem particularizadas pelo local onde trabalham. Nesse caso, há mais de 15 anos sou o “Sergio da Embrapa”. O diferencial aqui é que o “da Embrapa” qualifica. Sou, então, “o Sergio que trabalha na empresa que tanto ajuda o Brasil a ser uma potência agrícola”, maneira pela qual por tanta gente somos reconhecidos.  Como sinto esse reconhecimento deste o meu primeiro dia no trabalho, tenho consciência que foi uma herança bendita daqueles que, antes de mim, construíram-na. Otimistamente considerando que esteja na minha meia-vida embrapiana, tenho a imodesta ambição de ajudar a deixar, até o final da outra metade, a mesma herança para meus futuros colegas, de forma que o orgulho continue sendo o mais forte traço de união entre os embrapianos. Que esse forte sentimento que nos confere alma, leve o corpo sempre à frente para atender, cada vez mais e melhor, aos anseios de quem nos patrocina, o povo brasileiro.



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