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Scot Consultoria

Resultados de diagnósticos de projetos de pecuária - parte 2


Terça-feira, 12 de abril de 2022 - 15h00

Zootecnista, professor de Forragicultura e Nutrição Animal no curso de Agronomia e de Forragicultura e de Pastagens e Plantas Forrageiras no curso de Zootecnia das Faculdades Associadas de Uberaba (FAZU); Consultor Associado da CONSUPEC - Consultoria e Planejamento Pecuário Ltda; investidor nas atividades de pecuária de corte e de leite.


Foto: Envato


Na edição de março de 2022 eu escrevi a parte 1 deste artigo apresentando um resumo dos resultados de diagnósticos realizados entre 2002 e 2020 em mais de 400 propriedades de pecuária de corte, baseados nos inventários de recursos (leia as edições: parte 1 e parte 2). Continuando a apresentar os resultados - parte 2:


Se por um lado a pecuária de corte baseada em sistemas em pasto tem incorporado muitos avanços técnicos, por outro, os resultados de como o dinheiro é e está empregado na atividade não são tão animadores. Dos diagnósticos realizados naquelas mais de 400 propriedades de pecuária de corte em 18 anos, em apenas algumas dezenas destas foi possível inventariar dados do controle dos investimentos, dos custos e dos resultados econômicos, mas a partir destes poucos conclui-se que:


a) entre 81 e 89,4% do capital investido estava imobilizado no ativo terra. O capital imobilizado em terra resulta em um custo de oportunidade do capital investido, o qual chegou a até 16,3% do custo de produção;


b) por menor que seja a propriedade, há muito capital imobilizado em benfeitorias e edificações: corredores, estradas, piquetes (cercas, bebedouros, cochos, pastagens), curral, casas, galpões... Estes chegaram a aumentar o valor da terra nua em até 53% e representaram até 34,6% do capital imobilizado. Esses ativos fazem parte da propriedade em si e são comercializados juntos com a terra. Todos são classificados como ativos permanentes e de baixa liquidez;


c) o capital em máquinas, implementos e veículos são classificados como ativos médios e de média liquidez. Ativos permanentes e médios são depreciados (com exceção do ativo terra) ao longo de sua vida útil e uma taxa de remuneração deste capital deve ser apropriada para o cálculo dos custos fixos, que representaram entre 12 e 71% do custo operacional;


d) em muitas empresas as despesas administrativas podem ser representativas: escritório, imobiliário deste escritório, funcionários, viagens, promoção da atividade, energia, internet, assinaturas de jornais, revistas, treinamentos, pagamentos para associações, sindicatos, pagamentos de impostos e taxas... Estes representaram de 7 a 13% do custo operacional;


e) por menor que seja a propriedade, se ela não for administrada pelo proprietário deverá ser por alguém contratado e este contrato irá gerar um custo com mão de obra permanente, o qual representou em média 17,3%.


Por outro lado, foi diagnosticado que o número de animais do rebanho é relativamente pequeno e que os custos variáveis para custear este rebanho também são relativamente baixos. O pequeno número de animais era reflexo das baixas taxas de lotação das fazendas.


Em fazendas de cria o capital imobilizado no rebanho representou apenas 8,1 a 14,5% do capital imobilizado na atividade, enquanto em fazendas de recria/engorda aqueles valores variaram entre 9,2 e 16,3%. Animais e dinheiro para o custeio são, por sua vez, ativos circulantes e de alta liquidez. Com baixas taxas de lotação, o custeio (mão de obra variável, reprodução, manejo de pastagens, suplementação, sanidade etc.) com os animais também é relativamente muito baixo. Em fazendas de cria o custeio com o rebanho representou, em média, 2,75 a 4,8%, enquanto em fazendas de recria/engorda variou entre 1,65 e 3% do capital imobilizado.


A análise das relações (ativos circulantes/ativos médios e permanentes) possibilita a avaliação da “saúde” da empresa em termos financeiros. Nesse sentido o que é mais frequente, na quase totalidade dos diagnósticos feitos nos últimos 18 anos, é concluir que a “saúde” da maioria das empresas de pecuária de corte vai mal porque a maior proporção do capital está imobilizada em ativos de baixa liquidez e que não impactam a produção e a produtividade diretamente.  


O retorno sobre o capital investido na atividade de cria, incluindo o ativo terra, variou em média entre 1,54 e 2,76%, enquanto em fazendas de recria/engorda o retorno sobre o capital investido variou entre 1,65 e 3,0%. Estes retornos são pouco atrativos em um país onde a taxa básica de juros (taxa Selic) em março de 2022 alcançou 11,75%. Com uma inflação prevista para 2022 de 5,6% (pelo IPCA), o Brasil continua tendo uma das maiores taxas real de juros do mundo.


Nesse contexto, investir em pecuária de corte parece não fazer sentido, ou ser uma decisão irracional, a não ser que seja pela valorização da terra. Por outro lado, quanto maior for a valorização da terra, sem uma contrapartida no aumento da produtividade, mais baixo ainda será o retorno sobre o capital imobilizado, já que o ativo terá sua proporção aumentada na composição do valor investido. Mas mesmo se o produtor decidisse por manter o ativo (terra) como estratégia de ganhos patrimoniais, ele ainda poderia estar comparando os retornos do seu negócio de pecuária de corte com alternativas de uso da terra, tais como produção de cana-de-açúcar, reflorestamentos, produção de látex, de grãos...


Agora sim, após um inventário bem-feito e a emissão de um diagnóstico, se tem um ponto de partida para o início da realização de mudanças. Mas por onde começar a promover mudanças em uma fazenda de pecuária de corte cujo diagnóstico se enquadra na realidade média daquelas quase 400 fazendas? Aguarde as próximas edições.



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