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Scot Consultoria

Brasileiros se sentem pobres, porque eles estão


Sexta-feira, 25 de março de 2022 - 15h54

Zootecnista pela Faculdades Associadas de Uberaba - FAZU, em Uberaba - MG. É analista de mercado da Scot Consultoria.


Foto: Scot Consultoria


Por Amanda Audi, jornalista especializada em política e direitos humanos.


Texto originalmente publicado no sítio “The Brazilian Report”, em 17 de março de 2022.


Tradução de Eduardo Abe, zootecnista. 


Uma combinação de fatores econômicos levou cidadãos brasileiros a se sentirem menos abastados do que eram pouco tempo atrás e os números corroboram com essa percepção.


Semana passada eu publiquei o tweet que obteve maior engajamento em todos os meus anos de mídia social. Ele simplesmente dizia: “Pessoal, vocês sentem que ficaram mais pobres também?”.


“Eu fui ao supermercado hoje e senti como se tivesse ficado mais pobre desde a última vez que fui às compras” respondeu um usuário. “Em 2016 eu estava desempregado e naquela época não tive tantos problemas financeiros como eu tenho hoje enquanto empregado. O custo de vida está bem alto mesmo” disse outro.


Eu estava preparado para algumas respostas grossas, que se tornaram comuns no Twitter, mas não obtive nenhuma. Em vez disso, o tom das respostas foi de frustração e desespero sobre o futuro. “Eu não senti o impacto pois ano passado eu consegui uma promoção e meu salário quase dobrou, então basicamente eu tive que receber o dobro do salário para conseguir pagar minhas contas, sem luxos” escreveu outro usuário.


Desemprego, inflação e salário médio já foram menores no passado do Brasil, então o que explica esse sentimento generalizado de pobreza?


Quando chove transborda

Eu conversei com dois economistas que analisaram o cenário econômico do país por décadas e eles concordaram: “não é apenas um caso de percepção, os brasileiros estão ficando, de fato, mais pobres.”


A principal explicação para isso é uma espécie de tempestade perfeita, uma soma de fatores que coincidiram pela primeira vez. Em 2021 a taxa de inflação brasileira atingiu 10,06%, o desemprego fechou o ano em 11,1% e o salário médio caiu 7%. Fatores externos, como a pandemia e a queda econômica global, ajudaram a aprofundar a crise.


“É uma situação totalmente atípica que não é comparável a qualquer outro momento econômico na história do Brasil", diz Newton Marques, economista aposentado do Banco Central que atualmente trabalha como consultor financeiro.


Além disso, a recessão econômica veio como um golpe enquanto o Brasil ainda estava se recuperando da crise de 2014-2016 - que foi a pior já registrada até aquele momento. “The Brazilian Report” já mostrou que o país poderia estar entrando na terceira “década perdida” em apenas 50 anos.


Figura 1. IPCA e meta para a inflação.


Fonte: Banco Central do Brasil


A crise atrasada

Patrícia Pelatieri, diretora do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), explica que, em 2015, a economia brasileira teve uma forte retração. A crise tem se aprofundado desde então - principalmente devido à escolhas políticas imprudentes em meio a um cenário assustador que inclui a pandemia e, agora, a guerra na Ucrânia.


Ela cita a reforma trabalhista e previdenciária, que aumentaram a flexibilidade dos contratos de trabalho e endureceram as regras para aposentadoria, respectivamente.


“Ambos impactaram o mercado de trabalho, prejudicando as políticas públicas que garantiam a proteção do trabalhador em momentos de crise. Com mais pessoas procurando emprego, mesmo com idade para se aposentar, os salários iniciais caem”, diz ela.


Figura 2. Média de salários de admissão.


Fonte: Novo Caged


“Por um lado, os consumidores estão pressionados pelos preços crescentes. Por outro lado, eles estão com menor estabilidade no trabalho e se você se endividar as taxas vão consumir o resto do seu salário, é aterrorizante”, diz Marques.


Desde os piores momentos da pandemia, a taxa de emprego brasileira tem visto uma recuperação para os níveis anteriores à pandemia, mas principalmente através de trabalhos informais, que oferecem menor proteção e geralmente salários mais baixos ao trabalhador. Uma pesquisa realizada pela Kantas revelou que o salário líquido dos brasileiros caiu 8,3% no ano passado.


Enquanto isso, o Brasil está passando pela política monetária mais rígida do mundo, com a taxa básica de juros (taxa Selic) saindo de uma baixa histórica de 2% ao ano para 11,75%, a mais alta dos últimos 5 anos, e há expectativa de aumento de mais 1% para maio.


Figura 3. Taxa de desemprego no Brasil.


Fonte: IBGE


“Diferente de 2015, quando o país estava crescendo devagar e de forma estável, as pessoas hoje não têm mais poupança para recorrer”, diz Marques. Isso também refletiu nos números: em 2021, as retiradas das poupanças superaram os depósitos em mais de R$35 bilhões (US$6,86 bilhões).


Outro aspecto político crucial para o cenário atual, segundo Pelatieri, foi o teto de gastos do Governo Federal implementado pelo presidente Michel Temer em 2016. A lei determina que o gasto público só pode ser aumentado de acordo com a taxa de inflação do ano anterior, impedindo ganhos reais.


"O impacto foi notado principalmente durante a pandemia, alguns anos após a lei ser aprovada, quando a saúde pública e a educação enfrentaram dificuldades às demandas da calamidade sanitária", diz ela.


Figura 4. Taxa básica de juros brasileira (Selic).


Fonte: Banco Central do Brasil


Figura 5. Taxa de juros crescentes.


Fonte: Banco Central do Brasil


Por si só, os indicadores de inflação e renda já sinalizam uma disparidade entre o custo de vida e a renda das pessoas. Mas eles escondem variações internas que tornam o fardo mais pesado para aqueles que possuem menos dinheiro.


"A taxa de inflação nos dá uma perspectiva geral, mas o aumento de preços atinge cada classe social de forma diferente", Marques explica. Itens de cesta básica e gás pesam mais para os pobres, enquanto os ricos sentem a inflação em educação, passagens aéreas e planos de saúde.


"Aqueles que têm mais dinheiro também sentem a variação dos preços, mas o impacto em seu orçamento é menor. Muitas vezes as pessoas param de comer fora e isso já é o bastante para pagar as contas. Os pobres normalmente não têm luxos que podem ser cortados de seu orçamento", diz o economista.


Os efeitos da crise atual ainda serão sentidos por um tempo, as mudanças macroeconômicas normalmente têm um efeito atrasado na vida das pessoas. Então, enquanto levaram alguns anos para a maioria dos cidadãos sentirem os efeitos da crise, a recuperação será igualmente devagar.


Matéria disponível em: Brazilians feel poorer. And that’s because they are



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