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Scot Consultoria

Efeito do correto manejo da pastagem na resposta às práticas de correção e adubação do solo – parte 1


Quarta-feira, 21 de julho de 2021 - 18h00

Zootecnista, professor de Forragicultura e Nutrição Animal no curso de Agronomia e de Forragicultura e de Pastagens e Plantas Forrageiras no curso de Zootecnia das Faculdades Associadas de Uberaba (FAZU); Consultor Associado da CONSUPEC - Consultoria e Planejamento Pecuário Ltda; investidor nas atividades de pecuária de corte e de leite.


Foto: Bela Magrela


Introdução

Um sistema agrícola pode ser compreendido como sendo a combinação integrada entre os componentes clima, solo, planta e o ser humano, este por meio do manejo do sistema. Por outro lado, um sistema pastoril é a combinação integrada desses componentes, mais o componente animal.


Em um sistema agrícola, quando a produção vegetal alcança seu ponto de colheita, o produto é colhido diretamente pelo ser humano, por exemplo, manualmente, ou indiretamente, por meio de uma colhedora, e o produto colhido quase sempre é o produto diretamente comercializado.


Mas em um sistema pastoril, quando a produção vegetal alcança seu ponto de colheita, o produto, nesse caso particular, a forragem, é colhido pelo animal herbívoro, e o produto colhido quase nunca é o produto diretamente comercializado, a não ser em sistemas nos quais a forragem é colhida mecanicamente e conservada na forma de silagens, ou fenos ou pré-secados. Mas neste artigo será tratado apenas de sistemas de pastejo, nos quais a forragem é colhida pelo animal por meio do pastejo.


Então, a produção vegetal colhida deverá ser convertida no produto que de fato será comercializado, que nesse caso será o produto animal, na forma do próprio animal, ou de sua produção, como a carne, o leite ou a lã. Numa linguagem figurada, o animal herbívoro assume a função da “colhedora”, só que uma colhedora viva, que para colher forragem e convertê-la com eficiência no produto animal tem que ter suas necessidades atendidas, e estas são bastante específicas, como a colhedora mecânica tem as suas (troca de óleos, lubrificantes, reposição de peças, revisões etc.).


Além das necessidades específicas, o animal, esta “colhedora viva”, tem seu comportamento e suas atividades diárias (pastejo, ruminação, ócio e interações sociais) adquiridos por meio de seleção natural durante milhões de anos.


Para a implantação e a condução de um sistema pastoril recomenda-se seguir a seguinte sequência de procedimentos: inventário dos recursos disponíveis, diagnóstico da situação atual e do potencial do sistema, plano de metas, planejamento, treinamento de equipe, execução do planejado, controle da produção e do resultado econômico.


Na etapa de execução em sequência faz-se a escolha das espécies forrageiras, o estabelecimento da pastagem, a implantação da infraestrutura, o manejo para o conforto animal, o manejo do pastejo, o manejo e controle de plantas infestantes, de pragas e doenças, a suplementação dos animais, a correção, adubação e a irrigação do solo.


O objetivo de uma sequência de artigos com esse tema é descrever como o manejo da pastagem em cada etapa deste programa influencia a maximização da resposta da pastagem às práticas corretivas e de adubação do solo e para a nutrição equilibrada da planta forrageira.


A espécie forrageira

A literatura especializada nas áreas de nutrição de plantas e de fertilidade de solo é farta em trabalhos de pesquisas comparando respostas de plantas forrageiras às práticas de correção e adubação, como também à adaptação dessas plantas a solos de baixa fertilidade natural sem correção e adubação (infelizmente, a maioria conduzido em vasos, ou em canteiros, com a planta submetida a cortes). Por exemplo, linhas de pesquisas avaliando níveis críticos de nutrientes interno (análise foliar) e externo (análise de solo). Estudando os resultados desses trabalhos observa-se que os autores encontraram diferenças significativas entre plantas forrageiras (tabela 1).


Tabela 1. Níveis críticos (NC) externo de fósforo de gramíneas forrageiras tropicais.


Forrageira NC (mg/dm3) Fonte
B. humidicola 3,7 MARTINEZ,1980
Gordura 5 a 17 WERNER; HAAG, 1972; MARTINEZ, 1980
Jaraguá 1,94 a 10 MARTINEZ, 1980; WERNER; HAAG, 1972;
B. decumbens 10,6 a 16,94 CORREA; HAAG, 1993; MARTINEZ, 1980
Pangola, Transvala 19 MARTINEZ, 1980
P. maximum (Colonião, Massai, Mombaça, Tanzânia, Tobiatã) 16 a 26 CORREA; HAAG, 1993; MARTINEZ, 1980; WERNER; HAAG, 1972; CORREA et al., 1996; MESQUITA et al, 2003
B. brizantha 21,8 a 29 CORREA; HAAG, 1993; MESQUITA et al, 2003
P. purpureum Elefante 19 a 25 MARTINEZ, 1980; WERNER; HAAG, 1972

Fonte: AGUIAR, 2011.


Por outro lado, ao estudar outro conjunto de trabalhos de pesquisas (em áreas submetidas ao pastejo) e principalmente de campo em fazendas comerciais é possível concluir que quando a pastagem é cultivada com espécies forrageiras adaptadas às condições climáticas (volume e distribuição de chuvas, e temperatura) e de solos (particularmente o relevo, a profundidade e a drenagem) da região, e uma vez havendo interação genótipo:ambiente não se observam diferenças significativas na resposta às práticas corretivas e de adubação do solo em produção de forragem (tabela 2) e seu valor nutritivo (tabela 3) entre as diferentes espécies forrageiras, mas principalmente quando os parâmetros avaliados são o desempenho individual (a produtividade da pastagem (tabelas 4 e 5)).


Tabela 2. Resultados* médios da produção e características do relvado dos capins Tanzânia, Mombaça e Tifton 85 nos anos pastoris de 1998/99 a 2002/2003, nas diferentes estações do ano, em pastagens não irrigadas.


Tanzânia Mombaça Tifton 85
Parâmetro PV1 O/I2 Média3 PV O/I Média PV O/I Média
MFPREP (t MS/ha)4 5,9 4,1 5,2 6,4 3,6 5,3 5,2 5,0 5,3
MFPOP (t MS/ha)5 2,9 2,8 2,9 2,9 2,1 2,7 2,4 2,9 2,7
TAF (kg MS/ha/dia)6 111 42,6 81 106 41 78 102 68 85
FA/Ano (t MS/ha/ano)7 29 29 33

*Estas produtividades foram alcançadas em um ambiente com temperatura média anual de 23 oC (20 a 25 oC, entre mínima e máxima); 1.670 mm de precipitação anual (1.261 a 2.033 mm entre mínima e máxima); 357 kg/ha de N, 80 kg/ha de P2O5, 184 kg/ha de K2O e 43 kg/ha de enxofre na média dos quatro anos.
1P/V: Estações de primavera e verão; 2O/I: Estações de Outono e Inverno; 3Média anual; 4MFPREP (t MS/ha): Massa de forragem no pré pastejo; 5MFPOP (t MS/ha): massa de forragem no pós pastejo; 6TAF (kg MS/ha/dia): taxa de acúmulo de forragem; 7FA/Ano (t MS/ha): forragem acumulada por ano.
Fonte: RESENDE, 2004


Tabela 3. Composição química média das forrageiras durante o experimento.


Tratamento
Convert HD 364 B.decumbens B.brizantha B.ruzizienses Média
PB (%) 16,00 15,13 13,44 14,37 14,73
EE (%) 2,80 2,59 2,75 2,54 2,67
FB (%) 27,47 29,32 29,47 28,57 28,71
MM (%) 9,79 9,04 10,26 9,60 9,67
MS (%) 23,59 26,76 26,94 24,15 25,36
NDT (%) 67,44 66,77 63,50 66,42 66,03
Ca (%) 0,58 0,52 0,57 0,53 0,55
P (%) 0,28 0,25 0,28 0,28 0,27
FDN (%) 59,84 64,48 62,99 61,62 62,23
FDA (%) 30,65 33,67 33,62 31,40 32,33
Hem (%) 31,19 33,01 30,91 32,39 31,87

Fonte: COSTA, 2015.


Tabela 4. Indicadores de produtividade1 alcançados em pastagens intensivas de B. hibrida Convert cv HD364 (BH) e seus progenitores, B. decumbens (BD), Brachiaria brizantha cv Marandu (BB) e Brachiaria ruziziensis (BR) manejadas em pastoreio de lotação alternada.


Forrageira
Indicador Unidade BH HD 364 BD BB BR Média
Taxa de lotação UA/ha2 4,46 4,02 3,83 3,60 3,98
Ganho médio diário kg/cab/dia 0,76 0,70 0,66 0,74 0,72

1Produtividades alcançadas com 2.150 mm de chuvas e 5,0 t/ha de calcário + 1,26 t/ha de gesso + 209 kg/ha de P2O5 + 130 kg/ha de K2O + 318 kg/ha de N + 123 kg/ha de enxofre (do gesso) durante o período experimental.
2Unidade animal; 3Peso corporal; 4Eficiência de uso de nitrogênio (112 kg de N via adubação e assumindo + 9 kg N-atmosférico + 7,5 kg N-mineral do solo + 142 kg N-matéria orgânica do solo).
Os animais foram suplementados apenas com suplementos minerais.
Fonte: SILVA, 2014.


Tabela 5. Ganho médio diário (GMD), taxa de lotação (TL) e produtividade por hectare em peso corporal (PC) e entre parêntesis em @/ha de cultivares de forrageiras dos gêneros Brachiaria sp e Panicum sp.


GMD (kg/dia) TL (cabeças/ha) PC
Forrageira Chuvas Seca Chuvas Seca kg ha/ano Fonte
Brachiaria sp 0,59 0,30 4,2 1,7 618 (20,6@) EMBRAPA; Unipasto
Panicum sp 0,61 0,32 3,9 2,2 741 (24,7@)
Média 0,60 0,31 4,05 1,95 679 (22,6@)

Gênero Brachiaria sp: (1)Duração de 3 anos, 75 a 100 kg N/ha, EMBRAPA Gado de Corte, Campo Grande, MS; (2)Duração de 3 anos, *TL em UA/ha, EMBRAPA Gado de Corte, Campo Grande, MS; (3)Duração 2 anos, *TL em UA/ha, EMBRAPA Rio Branco, AC (4)Duração 3 anos, animais pesando 250 kg de PC, EMBRAPA Gado de Corte, Campo Grande, MS; (5)Duração de 2 anos; ? a ? kg N/ha; animais pesando ? kg de PC, EMBRAPA Gado de Corte, Campo Grande, MS.
Gênero Panicum sp:(1)Duração de 4 anos, novilhos pesando 250 kg, lotação rotacionada: 7 dias de PO e 35 dias de PD, EMBRAPA Gado de Corte, Campo Grande, MS; (2)Animais pesando 450 kg, EMBRAPA Rio Branco, AC; (3): Animais pesando 300 kg, 120 a 150 kg de N/ha, EMBRAPA Gado de Corte, Campo Grande, MS (4) 2 anos, animais pesando 450 kg, lotação alternada 28 dias por piquete, 100 a 150 kg de N/ha, EMBRAPA Cerrado, DF; (5)Duração de ? anos, ? a ? kg N/ha, animais pesando ? kg de PC, EMBRAPA Rio Branco, AC.
Fonte: Unipasto e Embrapa.


Isso porque a herdabilidade para as variáveis produção e qualidade de forragem é baixa. Assim, produção e qualidade de forragem são, em grande medida, estabelecidas por meio do correto manejo da pastagem.


O mais importante quando da escolha de espécies forrageiras é diversificar ao máximo possível com aquelas espécies e cultivares que se adaptarem melhor às condições edafoclimáticas da região. Essa medida minimiza, e muito, o impacto de estresses dos tipos abióticos (extremos de temperatura e de umidade) e bióticos (ataque de pragas e doenças de plantas). Aqui, o potencial de resposta às práticas de correção e adubação não deve ser a prioridade, principalmente em ambientes em não equilíbrio, que são aqueles com pouca previsibilidade do comportamento climático e de drenagem do solo por causa de cheias de cursos d´água e consequentes inundações.


Referências


Embrapa. Disponível em: Embrapa.


Unipasto. Disponível em: Unipasto.




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