• Sábado, 18 de novembro de 2017
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“Sou tão apaixonado pela pecuária que cometo a loucura de mexer com a agricultura”


Quinta-feira, 9 de novembro de 2017 - 09h15

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por William Marchió

Médico veterinário pela UNESP – campus de Jaboticabal, especialização em produção animal pela UFLA e atual Diretor Executivo na Rede de Fomento à Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF - Embrapa).



Quando ouvimos isso de um pecuarista, a que nos remete estes dizeres?


Primeiramente que querer expandir o uso da tecnologia de ILPF tentando transformar pecuaristas em agricultores, e agricultores em pecuaristas, não é o que fará crescer o uso da técnica.


Os pecuaristas, em sua grande maioria o são pelas características intrínsecas da atividade de pecuária de corte, com baixo risco, pouco endividamento, administração de patrimônio e não de produção. Já os agricultores se caracterizam por uma intensa alavancagem, pegam crédito constantemente para custeio, para as máquinas, para defensivos e insumos, enfim, são administradores de produção, estão sempre rezando para chover e para parar de chover. Por este motivo, alguns pecuaristas consideram a agricultura uma “loucura”, adrenalina na veia, risco puro.


Porém, com o advento da tecnologia de integração, muitos destes agropecuaristas, observando alguns de seus pares, modificando drasticamente suas propriedades com o uso da agricultura integrada à pecuária, tem levado à adoção da tecnologia. Como mostra a figura a seguir:


Figura 1.
Evolução do uso da tecnologia ILPF no Brasil em milhões de hectares.
Fonte: REDE ILPF 2016


Quando avaliamos a distribuição das pastagens em nosso país como apresentado na figura 2, que demonstra termos aproximadamente 164 milhões de hectares de pastagens, e imaginando que segundo Dias Filho (2011b) teríamos cerca de 50% a 70% delas em algum estágio de degradação; chegamos a uma cifra de 80 milhões de hectares, se imaginarmos que destes 80 milhões, 65% seriam passível de conversão à agricultura integrada, isso representa um outro Brasil Agrícola adormecido nestas pastagens, visto que temos 58 milhões de hectares cultivados com grãos.


Figura 2.
Áreas de pastagens no Brasil.

Fonte: LAPIG


Com isso, está claro que para expandirmos nossa produção agropecuária, não temos necessidade de avançar em áreas preservadas, apenas temos que ter programas para a intensificação sustentável de nossa agropecuária, ação realizada pelo uso da ILPF.


Outro fator de pressão ambiental que temos sofrido são as alegações de que nossa pecuária é grande emissora de gases de efeito estufa, os dados da Embrapa nos mostram que a utilização de sistemas integrados de produção é capaz de mitigar e até anular estas emissões de forma significativa, a dita “Carne Carbono Neutro”, se extrapolarmos temos também os “Grãos Carbono Neutro”. Tudo isso proporcionado pelo uso de sistema sustentáveis de produção agropecuária.              


Voltando à frase inicial, a maior dificuldade que o pecuarista tem em enveredar pela agricultura tem sido os investimentos iniciais e os riscos climáticos. Também em nossa pesquisa, determinamos que um gargalo importante é a ausência de profissionais das ciências agrárias com competência para atuar em projetos integrados, onde se necessita um conhecimento eclético das atividades de agricultura, pecuária e florestas.


Mesmo com estas dificuldades, a expansão do uso da ILPF tem nos surpreendido. Existem vários arranjos que os pecuaristas e os agricultores têm buscado para atingir seus objetivos. É comum, em algumas regiões, os pecuaristas realizarem parcerias com agricultores onde não há transação financeira, apenas um acordo de cooperação, no qual o pecuarista cede a área para o agricultor, este a cultiva com soja e no final do ciclo da soja realiza sobre semeadura com braquiária para que o pecuarista utilize a área na época da seca. Depois de três a quatro anos a área retorna à pecuária, bem formada pelo agricultor, daí o sistema vai rodando pelas áreas degradadas da fazenda de maneira que as pastagens fiquem no máximo três a quatro anos para retornar à agricultura, tornando o sistema sustentável e estabelecendo uma relação interessante de parceria.


Da mesma forma, agricultores que não querem ter gado têm arrendado suas áreas de palhada cultivadas com braquiária para pecuaristas explorarem, sendo que esta exploração garante cerca de 10% a mais de produtividade na soja subsequente.


Para alguns agricultores de Mato Grosso, o boi passou a ser um excelente “vasilhame” para o milho, que lá possui um limitado preço de mercado; na maioria das vezes não chega a pagar os custos de produção.


Em regiões de solo e clima desafiadores estes sistemas de integração têm demonstrado serem mais resilientes e capazes de entregar resultados mesmo em condições adversas.


Enfim, os recíprocos resultados estão levando produtores a superar restrições e adentrar em uma atividade nova buscando os benefícios que esta tem trazido à sua atividade principal.


Para o pecuarista está claro que a agricultura lhe presta um serviço de reforma e recuperação de pastagens e para o agricultor está clara a necessidade de ter palhadas cultivadas e subsequente pastejo destas áreas.


Em nossa pesquisa sobre a adoção do ILPF é nítida a influência das cooperativas na expansão da integração. Principalmente nos estados do Sul, onde a cultura de cooperação está mais consolidada, são evidentes os avanços significativos pela pressão de técnicos que atuam diariamente junto a produtores, transferindo conhecimento e dando segurança no avanço a uma tecnologia nova.


Infelizmente no restante do país as Aters (Assistência Técnica e Extensão Rural) sempre tiveram papel significativo neste avanço da utilização de tecnologia no campo, porém, com a degradação destas instituições públicas e a falta de renovação do quadro de funcionários e de investimentos em infraestrutura, temos assistido o quão órfãos estão nossos produtores, sujeitos à intensa interferência da assistência técnica de revendas e balconistas, que nem sempre levam informações de qualidade a este produtor.


Outro ponto de alavancagem do uso da tecnologia tem sido as ações de crédito direcionadas à Agricultura de Baixo Carbono, projeto ABC. Apesar de ainda existir um enorme espaço para a expansão deste crédito direcionado, as ações já implantadas e espalhadas pelo país em propriedades adotantes passam a ser unidades de demonstração do uso de tecnologias.


Desta forma, vizinhos destes projetos podem ver o sucesso alheio e começam a praticar a implantação da ILPF. Falamos sobre a “Adoção por inveja”.


Uma ação que assume grande importância na difusão da tecnologia são as realizações de dias de campo. Instituições como a Embrapa/REDE ILPF, Senar e Cooperativas, entre outras, realizam milhares de dias de campo em todos os biomas brasileiros. Estes dias de campo objetivam principalmente apresentar tecnologias de ILPF e o “como se faz”. Nessas oportunidades o produtor consegue tirar suas principais dúvidas e principalmente interagir com outros produtores que estão fazendo uso da tecnologia de integração e, com isso, passam a se sentir mais confiantes no processo de adoção.


Cito o caso de nosso amigo, o senhor Carlos Viacava, pecuarista tradicional, produtor de genética de nelore mocho, que se interessou pela tecnologia e, motivado pelo pesquisador João K. e apoiado pela Cocamar, participou de dias de campo e hoje sua propriedade é uma Unidade de Referência Tecnológica da Embrapa, em Presidente Venceslau-SP, região de solos arenosos e degradados.


Pensar grande, começar pequeno e crescer rápido na ilpf           


Este tem sido o conselho de técnicos e pesquisadores aos agricultores que se interessam por implantar a tecnologia.


A boa fase das commodities tem levado a um modelo de integração que foge um pouco do convencional. Normalmente, ao indicarmos a integração para a reforma das pastagens, preconizamos a utilização de 1/3 da área com agricultura e que esta área passe a percorrer a propriedade de dois em dois anos, a fim de que no final tenhamos todas as áreas em um ciclo de dois anos de agricultura e dois anos de pastagens.


Porém, com o excelente resultado da cultura da soja, muitos produtores passam a fazer a utilização de uma maior área com a cultura, em muitas das vezes, em toda a área agricultável da propriedade, e todo ano desseca a pastagem e retorna com a soja, logo em seguida se faz a safrinha de milho ou sorgo consorciado e, por fim, o boi, em alguns casos se faz a cultura da soja e logo em seguida se planta o capim ou se faz sobre semeadura na soja  para logo após a colheita já poder entrar na safrinha de boi.


Nestes modelos, normalmente só sobram áreas de pastagens sem aptidão agrícola, muitas das vezes se transformando em áreas pulmão para o depósito da compra de bovinos. Nestes sistemas é comum se adotar a estratégia de confinamento de bovinos, onde os animais que saem da palhada, sem estarem em condições de abate, são destinados a um confinamento de curto prazo para se tornarem vendáveis aos frigoríficos.


Com isso, fazendas se especializam no “boi safrinha”, buscando maximizar a utilização destas pastagens consorciadas para novamente a dessecarem e dar início a um novo ciclo de soja e pasto. Tal tecnologia tem transformado o mercado de sementes de gramíneas, que tem respondido com o desenvolvimento de diferentes cultivares de braquiária e panicum para atender a esta crescente demanda por variedades que se enquadram nestes processos produtivos diferenciados.


O interessante destes sistemas é que a interdependência da lavoura, da pastagem e do confinamento, tem levado à criação de um bloco de produção indissolúvel e de rentabilidade superior aos sistemas convencionais destas atividades em cultivo solteiro. O que temos chamado de sinergia entre sistemas produtivos, onde os custos de produção e resultados são significativamente melhores quando comparados com as atividades solteiras.


A transformação de pecuaristas administradores de patrimônio, exercendo atividades extrativistas, em gestores de produção com alto grau de tecnificação, tem transformado fazendas e regiões. Fazendas degradadas se transformam em fazendas produtivas e rentáveis com a introdução da integração.


Sabemos que grande parte da responsabilidade da adoção desse sistema se deve ao resultado da cultura da soja, que nos últimos anos tem tido bom desempenho, sendo capaz de bancar o investimento em maquinários, logística, armazenamento e mão de obra; aí quando a pecuária é introduzida nestas pastagens de baixo custo, temos uma arroba competitiva, que, depois de o sistema se estabelecer, passa a ser resiliente e, mesmo com as possíveis quedas de preços destas commodities, estes sistemas se mantêm em atividade pois amortecem esses altos e baixos das diferentes atividades produtivas integradas.


Futuramente acreditamos que processos de certificação poderão até criar valor a produtos originados nesses sistemas de produção. E que nichos específicos de mercado poderão remunerar diferentemente estes esforços por uma produção sustentável.


Existem movimentos para que sejam remunerados os serviços ecossistêmicos, ou seja, pagamentos por serviços ambientais como a preservação de mananciais de água e mitigação de gases de efeito estufa, por exemplo, ações que possam beneficiar comunidades próximas a estas unidades de produção ou até comunidades que necessitam pagar pela compensação de suas ações deletérias em seu ambiente.


Como demonstra o figura 3, os produtores brasileiros são os que mais contribuem para a preservação de áreas de vegetação, com cerca de 20,5% dos 66,3% de área de vegetação protegida e preservada de nosso país sem, contudo, receber nada por isso, pelo contrário, são tratados como fiéis depositários destas áreas e são responsabilizados e penalizados pela sua manutenção.


Figura 3.
Ocupação e uso das terras no Brasil

Fonte: Embrapa Monitoramento


Acreditamos que com ações coordenadas de esclarecimento da população em nível nacional e internacional, a visão dos produtores brasileiros mudará e com o reconhecimento de seus serviços de geração de emprego, renda e da contribuição significativa para o crescimento do PIB, mais e mais pessoas passarão a encarar a agropecuária como positiva e fundamental para nossa população. Daí os pagamentos por serviços ecossistêmicos e ambientais serão prováveis e possíveis.



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