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Scot Consultoria

O que realmente falta nos bovinos de corte brasileiros?


Segunda-feira, 10 de julho de 2017 - 14h30

por Leonardo Souza

Médico Veterinário pela Universidade Federal de Goiás, especialista em Pecuária de Corte pelo Rehagro, sócio-diretor da Qualitas Melhoramento Genético, com 21 anos de atuação nas áreas de gestão, produção e melhoramento genético. O Programa Qualitas de Melhoramento Genético conta com mais de 40 fazendas, nos estados de GO, TO, RO, SP, PR, MG e MT e também na Bolívia, totalizando um rebanho de mais de 250.000 cabeças.


Foto: www.scotconsultoria.com.br


Procurando subsídios para fazer uma apresentação, recebi do Fábio Dias, meu “ex” patrão, que agradeço por ter me colocado nessa história de melhoramento genético e que, atualmente é diretor de relacionamento com o pecuarista do JBS, algumas tabelas sobre os abates da empresa em 2015 e 2016. Foram 14,6 milhões de animais abatidos, classificados por sexo, idade e acabamento.


A tabela 1 se refere a uma compilação contendo somente os machos abatidos acima de 16@.


Tabela 1.
Dados machos abatidos acima de 16@


Além das informações contendo o percentual, separado de acordo com a idade, retiramos os bovinos com oito dentes e mais de vinte e duas arrobas, para excluir os touros de descarte da amostra. Vale salientar que, as informações sobre a idade dos bovinos são coletadas pelos técnicos do Serviços de Inspeção Federal (S.I.F.) e não pelo frigorífico.


A fotografia revela uma pecuária de corte longe de ser eficiente: 34% dos bois abatidos no Brasil têm mais de quatro anos de idade!


Com base nessas informações podemos calcular e inferir sobre outras características da pecuária brasileira.


Na terceira coluna da tabela demonstramos quantas arrobas são produzidas por hectare por ano, considerando dezoito arrobas de peso de abate e uma lotação de um boi por hectare. Como a capacidade de suporte das pastagens é menor que um boi por hectare e que, não temos somente machos no sistema de produção, podemos inferir que a produtividade média brasileira está entre três e quatro arrobas por hectare por ano.


Se considerarmos ainda, um preço de venda atual de R$125,00 por arroba, um valor pago pelo bezerro de R$1mil e aplicarmos os custos proporcionais para se abater os bois em cada faixa etária, temos as informações da quarta coluna da tabela: resultado financeiro por boi. Se aplicássemos nessa conta o custo do capital destinado à engorda pioraríamos o resultado, mostrando que um boi abatido com três anos resulta em “zero” de resultado financeiro.


E, na última coluna da tabela apresentamos qual o ganho de peso que um bezerro de 180 kg tem que apresentar para ser abatido com dezoito arrobas em cada faixa etária. Que é justamente onde está o grande problema do gado de corte brasileiro: a “falta” de ganho de peso. Bovinos abatidos acima de três anos não causam prejuízo somente para o produtor, toda a cadeia sai perdendo. O interessante, como disse o Fábio Dias, é que ninguém é esse produtor que abate bois velhos. Aí nós dizemos que, no conto de fadas dos pecuaristas tupiniquins, somos todos excelentes “boiadeiros”, não é mesmo?


Para demonstrar que o grande problema do gado brasileiro é o ganho de peso e que, isso tem tudo haver com a genética dos animais, elaboramos um gráfico separando, em três grupos, todos os machos da Fazenda Mata Verde de Terra Nova do Norte, no Mato Grasso, nascidos de 13 de agosto a 13 de novembro de 2015 (intervalo de 90 dias). Eles foram criados a pasto sem creep-feeding até a desmama e, em seguida receberam um suplemento protéico com consumo de 0,3% do peso vivo (cerca de 0,600 kg por dia) até outubro de 2016. Depois foram suplementados com um protéico-energético com ingestão de 0,5% do peso vivo (iniciou com cerca de 1 kg por dia até 2 kg por dia em abril de 2017).


Tabela 2.
Diferenças entre bovinos safra 2015 Fazenda Mata Verde:


A característica utilizada para separar os grupos foi a DEP (Diferença Esperada na Progênie) para ganho de peso após a desmama (GPD).


Os animais negativos para DEP de GPD tinham 180 kg aos sete meses e aos dezoito meses estavam com 375 kg. Os animais positivos para essa característica estavam com 190 kg e 415 kg respectivamente. Já os 15% melhores apresentaram 203 kg e 444 kg.


Se considerarmos um rendimento de carcaça de 52%, a diferença que, aos sete meses era de 0,8 arrobas, sobe para 2,4 arrobas entre os melhores e os piores animais para DEP de GPD. Algo extremamente impactante se considerarmos um período de menos de um ano.


O ganho de peso dos bovinos geneticamente superiores foi de 0,700 kg por dia após os sete meses, contra 0,550 kg por dia dos negativos, 27% de diferença.


Mais alarmante é saber que, os melhores serão abatidos com 19,6 arrobas e os piores só alcançarão 16,2 arrobas, no final de julho com vinte e um meses de idade e nas mesmas condições de produção. Serão 3,4 arrobas de diferença - 3,4 x R$125,00 = R$425,00!


É por isso que, estamos convencidos que o maior problema do gado de corte brasileiro é a “falta” de ganho de peso.

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