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Scot Consultoria

Maior produção de carne bovina poderia reduzir as emissões de gases de efeito estufa do Brasil


Sexta-feira, 22 de janeiro de 2016 - 15h22

Engenheira Agronomo


Traduzido e adaptado por Raissa Pallone, engenheira agrônomo e pesquisadora da Scot Consultoria.



Estudo diz que aumentar a produção de carne bovina no Brasil pode realmente diminuir as emissões nacionais, maximizando o carbono armazenado no pasto. Mas o benefício só é válido quanto menos desmatamento ocorrer nas florestas para a criação de bovinos.


Esta conclusão contradiz os estudos que argumentam que frear a crescente demanda por carne bovina e produtos lácteos seria fundamental para a redução das emissões globais de gases de efeito estufa.


O que isso significa para as dietas com consciência climática? Deveríamos estar comendo mais carne para limitar as alterações climáticas?


*Carbon Brief relata mais sobre a pesquisa.


Desmatamento


A carne bovina é de longe a carne menos favorável ao clima para se comer. Produzir um quilo de carne emite em média 290 kg de CO2. As emissões de gases de efeito estufa são provenientes de correções das pastagens, alimentação, transporte de bovinos e dos gases e chorumes produzidos pelos próprios bovinos.


O Brasil possui mais de 200 milhões de cabeças, só perde para a Índia em termos de quantidade de carne exportada por ano.


Historicamente, a indústria da carne tem sido um dos principais impulsionadores do desmatamento no Brasil. Desde 1960, cerca de 15% da floresta amazônica brasileira tem sido desmatada para agricultura e atualmente cerca de 80% é desmatada para utilização de pastos para o gado.


Mas existem evidencias de que a relação entre o desmatamento e a produção de carne bovina foi quebrada, dizem os autores do novo estudo na Nature Climate Change. Rafael de Oliveira Silva, um estudante de PhD da Universidade de Edimburgo e Faculdade Rural da Escócia (SRUC), e Prof Dominic Moran, economista da SRUC:


"Após um pico em 2005, as taxas de desmatamento têm sido decrescentes em todos os biomas brasileiros, enquanto a produção de carne bovina, simultaneamente, tem aumentado."


Se o desmatamento não é mais um grande fator, isso deixa mais espaço para a indústria de carne bovina reduzir suas emissões, dizem os pesquisadores, e essa economia pode ser ainda mais impulsionada pelo aumento da demanda.


A pastagem é mais verde com demanda maior


O estudo concentra-se na região do Cerrado, que atravessa o centro do Brasil (veja na figura 1). Cerca de um terço da carne bovina brasileira é produzida lá.


Cerca de 90% das vacas de corte no Brasil são alimentadas por capins em pastagens. A maioria das pastagens é composta por gramíneas tropicais do gênero Brachiaria, que são eficazes na absorção de CO2 da atmosfera para armazenamento em suas raízes como carbono orgânico. Estudos têm demonstrado que, quando bem manejadas, essas pastagens podem sequestrar carbono do solo.


A maior demanda por carne estimula os pecuaristas a obter o máximo de forrageira em seus pastos e aumenta a quantidade de carbono que armazenam, enquanto a baixa demanda tem o efeito oposto, dizem:


"Baixa demanda e rebanhos menores requerem menos produção de capim, reduzindo o incentivo para manter ou aumentar a produtividade; pastagens degradadas perdem os estoques de matéria orgânica e de carbono do solo."


Os pesquisadores testaram o efeito através da simulação do impacto sobre as emissões de carbono de um cenário "normal" de demanda por carne bovina em 2030 e seis cenários de maior (+10%, +20% e +30%) e inferior (-10 %, -10% e -30%) demanda em relação ao "normal" em 2030.


Pode-se ver os resultados no quadro 1, que mostram a diferença entre as emissões de cada cenário e do cenário "normal". Se as florestas são derrubadas para o plantio de pastagens (barras azul-clara), as emissões globais em função da maior demanda por carne bovina são muito maiores do que para a demanda normal e menor demanda (gráfico esquerdo). No entanto, sem o desmatamento, as melhorias ao pasto (barras verdes) significam que a maior demanda por carne traz emissões totais menores (gráfico direito).


Como explicam os pesquisadores:


"Basicamente, se o desmatamento é constantemente mantido por políticas eficientes, então qualquer redução no consumo ou na demanda provavelmente levará a uma redução do incentivo para manejo ou melhoramento das pastagens ricas em carbono. Emissões poderiam realmente aumentar o resultado."


As diferenças percentuais nas emissões de carbono acumuladas entre 2006 e 2030 a partir de diferentes cenários de demanda por carne bovina, com o desmatamento (gráfico da esquerda) e sem (à direita). Onde D normal é a demanda normal por carne bovina em 2030, e D normal -10%, etc., são cenários de demanda mais baixos, e D normal + 10%, etc. são de maior demanda. Barras acima da linha de origem indicam aumentos nas emissões, enquanto as barras abaixo redução nas emissões. Grossas linhas pretas mostram cenário global das emissões.


Olhando em longo prazo, eventualmente, haveria um limite para o quanto de carbono extra é absorvido e armazenado pelas gramíneas, dizem os pesquisadores, mas isso não seria alcançado por cerca de meio século.


Pressupostos importantes


Então, quanta diferença pode fazer uma maior demanda por carne bovina para as emissões globais do Brasil? Bastante, dizem de Oliveira Silva e Moran:


"Essa é uma pergunta complicada, mas uma estimativa aproximada está entre 10-20% do total das emissões anuais do Brasil."


Como o Brasil é o décimo segundo maior emissor mundial de CO2, é uma parte considerável das emissões.


Os resultados do estudo já introduzido destinam-se a planejar o Índice Nacional da Contribuição do Brasil (INDC), dizem os pesquisadores. Os INDCs são os compromissos que os países apresentam à ONU, estabelecendo o tempo para a redução de emissões de gases com efeito estufa.


O INDC do Brasil diz que pretende restaurar 15 milhões hectares adicionais de pastagem degradada em 2030, e aumentar 5 milhões de hectares de rotação de culturas, pecuária e florestas - também até 2030.


Vale ressaltar que as conclusões do novo estudo baseiam-se em um par de pressupostos importantes, diz Rob Bailey, diretor de pesquisa do **think tank Chatham House. Bailey não estava envolvido no estudo, mas foi co-autor de estudos recentes na Chatham House sobre a demanda por carne bovina e produtos lácteos. O primeiro pressuposto é que os pecuaristas aumentarão a produtividade de seus pastos quando não puderem expandir para as florestas e o segundo é que o armazenamento de carbono adicional pelas gramíneas será tão significativo como o esperado.


À parte, o estudo mostra o quão importante são os métodos de produção de carne, diz Bailey:


"Derrubar árvores é ruim. A restauração de pastagens e de carbono do solo é bom. Se você evitar o primeiro e fazer o último, sua intensidade de emissões melhorará e é plausível que, nas circunstâncias certas, você poderá obter mais carne para menos emissões, que é o que os autores mostram neste exemplo."


Mas isso não significa necessariamente que devemos disparar nossos churrascos, Bailey acrescenta:


"Do ponto de vista da redução das emissões, no entanto, a melhor coisa a se fazer não é evitar cortar árvores e restaurar pastagens degradadas, mas sim não ter vacas sobre estes pastos degradados."


Fonte: *Carbon Brief

* Carbon Brief é um sitio localizado no Reino Unido que congrega os últimos desenvolvimentos da ciência climática, política climática e política energética. É especializado em dados, artigos e gráficos para ajudar a melhorar a compreensão das alterações climáticas, tanto em termos de ciência como em resposta política. Publica uma ampla variedade de conteúdo, incluindo explicações sobre a ciência, entrevistas, análises e verificações de dados, como cobertura on-line e e-mails com resumos diários e semanais de jornais.


** Chatham House é a designação do Instituto Real de Relações, uma organização sem fins lucrativos, organização não-governamental com sede em Londres, cuja missão é analisar e promover a compreensão das grandes questões internacionais e assuntos atuais, ajudando a construir um mundo sustentável, seguro, e justo. Classificado como o segundo mais influente cojunto de pensamentos think tank do mundo.


O conceito de think tank faz referência a uma instituição dedicada a produzir e difundir  conhecimentos e estratégias sobre assuntos vitais - sejam eles políticos, econômicos ou científicos. Assuntos sobre os quais, nas suas instâncias habituais de elaboração (estados, associações de classe, empresas ou universidades), os cidadãos não encontram facilmente insumos para pensar a realidade de forma inovadora.

***Robert McSweeney abrange a ciência do clima. Ele possui um MEng em engenharia mecânica pela Universidade de Warwick e um mestrado em mudanças climáticas da Universidade de East Anglia. Anteriormente, ele passou oito anos trabalhando em projetos de mudanças climáticas na empresa de consultoria Atkins.




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