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Scot Consultoria

O fator Trump


Segunda-feira, 10 de agosto de 2015 - 15h13

Problemas sociais - soluções liberais
Liberdade política e econômica. Democracia. Estado de direito. Estado mínimo. Máxima descentralização do poder.


O peruano Mário Vargas Lhosa escreveu no Estadão, um dos melhores artigos dos últimos tempos.  Trata-se de uma crítica feroz ao indigesto Donald Trump, candidato a presidente dos Estados Unidos pelo Partido Republicano.


As opiniões e posturas de Trump são tão disparatadas que, se eu fosse adepto de teorias conspiratórias, diria que o milionário fanfarrão está a serviço dos Democratas.  Suas diatribes racistas têm sido vistas por muitos como a melhor propaganda de Hillary Clinton et caterva.  Além disso, o valente já teria anunciado que, caso não consiga a vaga pelo GOP, disputará a presidência de forma independente, certamente dividindo os votos conservadores (vale lembrar que não há segundo turno nos EUA).  Hillary e seus assessores devem rir à toa, sempre que o bufão de topete amarelo abre a boca.


Em seu artigo, Mário Vargas Lhosa vai direto ao ponto, esculhambando Trump sem dó nem piedade, ao mesmo tempo em que demonstra que, se os Estados Unidos são o que são, muito se deve justamente aos imigrantes, que abandonaram seus países, com tudo que isso representa, para emprestar sua valorosa força de trabalho à Terra do Tio Sam.  Seguem alguns trechos:


Entre os milionários, assim como entre os demais seres comuns dos nossos dias, há de tudo. Gente dotada de grande talento e de enorme capacidade de trabalho, que amealhou fortunas prestando considerável contribuição à humanidade - como Bill Gates ou Warren Buffett - e, além disso, destina boa parte de sua imensa riqueza a obras de beneficência. E existem imbecis racistas como Donald Trump, ridículo personagem que não sabe o que fazer com seu tempo e com seu dinheiro e se diverte neste momento como aspirante republicano à presidência do país, insultando a comunidade hispânica dos Estados Unidos - mais de 50 milhões de pessoas - que, segundo ele, não passa de uma malta infecta de ladrões e estupradores.


 (...)


O problema é que o racismo nunca é racional, jamais se respalda em dados objetivos, mas em preconceitos, suspeitas e medos inveterados do "outro", do que é diferente, que tem outra cor de pele, fala outra língua, adora outros deuses e tem costumes diferentes. Por isso, é tão difícil derrotá-lo com ideias, apelando para a sensatez. Todas as sociedades, sem exceção, alimentam em seu seio esses sentimentos obscuros, contra os quais, frequentemente, a cultura é ineficaz, até mesmo impotente. Ela os minimiza, desde logo, e frequentemente os sepulta no inconsciente coletivo. Eles, no entanto, nunca chegam a desaparecer por completo - e, sobretudo nos momentos de confusão e de crise, atiçados por demagogos políticos ou fanáticos religiosos, costumam aflorar à superfície e produzir os bodes expiatórios nos quais grandes setores, às vezes até a maioria da população, se exime de suas responsabilidades e descarrega toda a culpa dos seus males no "judeu", no "árabe", no "negro" ou no "mexicano".


(...)


Saber ganhar dinheiro, como um campeão do xadrez ou dando chutes numa bola, não pressupõe nada mais que uma habilidade muito específica para determinada tarefa. Pode-se ser milionário sendo - para todo o resto - um idiota irrecuperável e um inculto pertinaz. Tudo parece indicar que Trump pertence a essa variante lamentável da espécie.


Mas seria também muito injusto concluir, como fizeram alguns diante das intemperanças retóricas do magnata imobiliário, que o racismo e os demais preconceitos discriminatórios e sectários são a essência do capitalismo, seu produto mais refinado e inevitável. Não só não é assim, como os Estados Unidos são a melhor prova de que uma sociedade multirracial, multicultural e multirreligiosa pode existir, desenvolver-se e progredir a um ritmo muito notável, criando oportunidades que atraem às suas plagas gente de todo o planeta.


Os Estados Unidos são a nação mais importante do nosso tempo graças a essa miríade de pobre gente que, desesperada por não encontrar incentivos nem oportunidades em seu próprio país, migrou para matar-se de trabalhar incansavelmente e, enquanto criava um futuro, construiu um grande país, a primeira potência multicultural da história moderna.


É evidente que Donald Trump não tem a menor chance de vencer as eleições e, muito provavelmente, também não conseguirá obter os votos necessários para tornar-se candidato pelo GOP.  Mas o estrago que tem feito aos conservadores, principalmente em relação ao eleitorado independente (que, em última instância, é quem decide a eleição), poderá ser irremediável.  Os democratas agradecem.

Por João Luiz Mauad



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