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Scot Consultoria

Sherlock Holmes investiga a fraude no leite e as preocupações do consumidor


Sexta-feira, 9 de novembro de 2007 - 14h49

Escrito por Marcello de Moura Campos Filho Presidente da Leite São Paulo Matéria do jornal Correio Popular de Campinas de 01 de novembro passado mostra que o leite em pó está mais procurado nos supermercados de São Paulo porque o consumidor, segundo gerentes, está desconfiado do leite longa vida. Esse mesmo periódico no dia seguinte publicou matéria com título “Empresas se dizem vítimas de fraude”, em que a associação dos produtores de leite longa vida culpa os fornecedores de leite cru pela fraude e que as empresas que produzem leite longa vida são vítimas. Procede a desconfiança com relação ao leite longa vida? Quem está fraudando o leite cru comprado por indústrias que produzem longa vida? Sherlock Holmes investigando o caso afirmou: elementar meu caro Watson, é claro que não foram as vacas que fraudaram o leite! Watson, veja que nessa mesma matéria do dia 02 de novembro, um representante da Parmalat, para ilustrar o rigoroso controle de qualidade da empresa, disse que a empresa devolve aos produtores rurais 1,5 milhões de litros por ano com um corante para que não possa ser vendido para outras companhias. Ora, como as vendas são em média de 60 milhões de litros mês, o leite comprado de produtores rurais e devolvido por não atingir o padrão de qualidade especificado na norma representa 0,2% do leite vendido pela empresa, o permite inferir que o leite fornecido diretamente pelos produtores rurais tem qualidade e que se existe fraude no leite cru que as indústrias de leite longa vida compram, essa fraude não é praticada pelo produtor rural mas sim por quem revende o leite cru no mercado spot. Dessa forma o consumidor pode ficar certo que quando ocorre fraude no leite longa vida, a responsabilidade pode ser de quem forneceu leite cru no mercado spot ou da própria indústria que produziu o longa vida, mas não do produtor rural. Continuando sua investigação, Holmes explicou a Watson que mesmo evidenciado que o produtor rural não está envolvido isso não resolve o problema do consumidor, que não está preocupado com o autor da fraude, mas com os riscos e prejuízos que possa ter com a fraude no leite. Mas então o caso é simples, disse Watson: é só consumidor substituir o leite longa vida por leite pasteurizado ou leite em pó. Não Watson, não é tão simples assim. E abrindo uma pasta mostrou jornais de 2004 com notícias de prisão de acusados de fraudar leite em pó e apreensão do leite em pó adulterado. Mas então o caso não tem solução? O que o consumidor deve fazer? O primeiro passo é verificar que os fraudadores representam uma minoria, e que a maioria do leite é de boa qualidade. O segundo passo Watson é entender que o “milagre da multiplicação do leite” é feito normalmente por adição de ingredientes de menor valor nutricional, como por exemplo soro de leite ou água com maltodextrina, e que o uso de soda cáustica é em quantidades pequenas, apenas para acertar o teor de acidez. Assim, como garantem o Ministério da Saúde e a Anvisa, mesmo se tomar leite fraudado, não existe risco imediato de prejuízo para sua saúde. O prejuízo ocorrerá a longo prazo se só tomar leite fraudado. Mas prejuízo maior para sua saúde é se por medo de tomar leite fraudado ele deixar de tomar leite. O terceiro passo é perceber que por mais que o Governo se esforce para melhorar a fiscalização, num País com as dimensões do Brasil, onde ocorrem fraudes em todos os setores e onde os recursos são poucos e em grande parte já comprometidos, os recursos adicionais que venham a ser destinados para melhorar a fiscalização do leite serão limitados, e por isso Watson, pode estar certo que o grande fator inibidor da fraude serão penalidades pesadas para empresas e pessoas físicas envolvidas em fraudes. Matéria do jornal Correio Popular de Campinas de 02 de outubro passado mostra que a maioria dos juízes criminais de São Paulo (61,9%) considera a legislação penal brasileira, no todo ou em parte, excessivamente branda, o que dificulta a contenção da criminalidade. E por isso Watson, o consumidor deve exigir mais recursos para a fiscalização um entrosamento da fiscalização federal e estadual e um melhor entrosamento entre elas para aproveitar melhor os poucos recursos disponíveis, mas principalmente deve exigir o estabelecimento de legislação punindo severamente os fraudadores do leite. Mas Holmes, mudar as leis não seria difícil e demorado? Mesmo que fosse difícil e demorado é necessário mudar a legislação penal para combater a fraude no leite, e o foi exposto na imprensa mostra que o momento exige isso, Se o os governos federal e estaduais, e as lideranças das entidades que representam consumidores, produtores, indústria e varejo, que obviamente percebem essa necessidade, quiserem mudanças na legislação penal aplicável a fraudes, pelo menos no que tange ao leite, poder ser feita rapidamente. Se isso não acontecer rapidamente é por que ou prevaleceram os interesses dos fraudadores ou incompetência dos governos e legislativos. E finalmente Watson, o leite longa vida é um produto caro, pois a facilidade de poder ser conservado por maior prazo que o leite pasteurizado e sem refrigeração enquanto fechado, envolve uma embalagem cara, que custa cerca de 40 centavos. Desafio qualquer fabricante de longa vida a provar que no varejo de São Paulo seu produto possa custar menos que o leite pasteurizado, principalmente se esse longa vida é produzido em outros estados ou com leite cru vindo de outros estados. Mas os supermercados que são basicamente os grandes vendedores de leite longa vida, e que tem um poder econômico muito maior que a indústria forçam o preço do longa vida para baixo. Aliás, pouco antes de se apurar essa fraude, os jornais noticiaram a ação dos supermercados para baixar o preço do longa vida, o que evidentemente força a indústria a baixar o preço pagos aos produtores rurais, que sendo o elo mais fraco da cadeia são sempre os que pagam o pato, e isso tem reflexos sobre a qualidade. E as vezes, em função da pressão dos supermercados para reduzir o preço do longa vida, para a indústria, mesmo reduzindo drasticamente os preços aos produtores, a tentação da fraude para reduzir custos pode se manifestar. Creio que seria interessante analisar se não há abuso de poder econômico na relação entre os supermercados e os fabricantes de leite longa vida. Então Holmes, quer dizer que o consumidor paulista e brasileiro pode acreditar que de forma geral o leite vendido é de boa qualidade, e desconfiar de fraude no longa vida quando o produto oferecido estiver com preço muito baixo, igual ou inferior ao leite pasteurizado padrão? Elementar meu caro Watson, o consumidor deve continuar tomando leite que é importante para sua saúde, e que no geral é de boa qualidade, mas lembrar que quando a esmola é demais até santo deve desconfiar. O consumidor deve desconfiar de leite e lácteos, principalmente do longa vida, com preços muito baixos, pois aí sim existe grande probabilidade de estar levando um produto fraudado ou de baixa qualidade. Mas o consumidor não deve se esquecer que, ainda que a fraude seja uma ação nefasta de uma minoria e não lhe traga riscos imediatos, tem conseqüência a longo prazo, não deve ser tolerada, e por isso o consumidor deve exigir, do governo e das lideranças dos produtores e das indústrias, melhoria na fiscalização e sobretudo leis severas para punição de pessoas e empresas que se envolverem na fraude de leite ou lácteos. Sherlock Holmes continua investigando a fraude no leite e as preocupações do consumidor Escrito por Marcello de Moura Campos Filho Presidente da Leite São Paulo Embora não fosse vaca, Sherlock Holmes continuava ruminando a questão da fraude no leite e as preocupações do consumidor. Estava tomando o café da manhã e despejava o leite na xícara quando Watson chegou. Watson, sabe quanto custa um litro de leite no supermercado? Não respondeu Watson. Pois verifique o preço dos vários tipos de leite fluído, pediu Holmes. Verifique também o preço do leite de soja e verifique também o preço de suco de frutas. Quando Watson voltou e entregou a lista, Sherlock ascendeu o cachimbo e ficou algum tempo em silêncio poluindo o ar. Depois começou a pensar em voz alta. Interessante, o litro de leite de soja custa nesse supermercado R$4,14 e o litro de sucos de frutas variou entre R$3,70 e R$5,20, enquanto o litro do leite fluido mais caro é vendido por R$2,86 e portanto litro de leite é muito mais barato que leite de soja ou suco de frutas. É curioso é que quando o preço do leite aumenta toda a mídia comenta e quando o preço do leite de soja ou do suco de frutas aumenta ninguém fala nada. Sim Holmes, mas isso talvez seja devido o leite estar na relação de produtos que compõem o índice de inflação e o leite de soja ou o suco de frutas não. Mesmo assim não faz sentido essa fixação da mídia no aumento do preço do leite, primeiro porque mesmo quando o preço sobe bastante por razões climáticas e de mercado, esse preço é muito menor que o preço do leite de soja ou de sucos de frutas. Depois não se observa que geralmente essas subidas do leite via de regra são recuperações de quedas no preço e/ou ajuste devido o aumento dos custos de produção custo. O fato é que a mídia e o consumidor deveriam se preocupar em verificar se é justificável essa disparidade de preços ou se o preço de leite de soja e sucos de frutas não está muito alto e o preço do leite muito baixo. Mas para o consumidor não é bom o preço do leite bem baixo? Se esse preço baixo fosse justo, permitindo margens justas para os produtores de leite e para a indústria, sim. Mas se esse preço baixo for decorrente de baixa qualidade ou mesmo fraudes, não é bom, pois essa economia pode acabar custar caro para o consumidor. O consumidor deveria se preocupar em verificar se paga um preço justo em função da qualidade do leite que compra. Explique melhor Holmes. Vejamos o caso do leite pasteurizado, onde temos o tipo padrão (que substitui o leite tipo C), e os leites tipo B e A. O leite pasteurizado padrão de acordo com a Instrução Normativa 51 do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento é o padrão mínimo de qualidade para o leite pasteurizado, e os leites B e A tem padrão de qualidade superior. É por isso que na lista que você trouxe do supermercado o preço do litro do leite era de R$2,35 para o tipo A, R$1,93 para o tipo B e R$1,59 para o leite padrão. O que você acharia se encontrasse leite tipo A sendo vendido por R$1,59 ou mesmo por preço menor? Ora, duvidaria da qualidade desse leite ou até mesmo desconfiaria que ele estava fraudado. Elementar meu caro Watson. Agora vejamos o caso do leite longa vida. Na lista que você me trouxe temos várias marcas de leite longa vida, com o preço variando de R$1,35 a R$2,86. O leite longa vida oferece a facilidade de poder ser conservado por maior prazo que o leite pasteurizado e sem refrigeração enquanto fechado, mas essa facilidade tem um custo alto pois envolve uma embalagem cara, que custa cerca de 40 centavos, enquanto que o leite pasteurizado padrão com embalagem barriga mole a embalagem tem custo inferior a 5 centavos. Desafio qualquer fabricante de longa vida a provar que no varejo de São Paulo seu produto possa custar menos que o leite pasteurizado padrão, principalmente se esse longa vida é produzido em outros estados ou com leite cru vindo de outros estados. Pela minha avaliação, penso que o leite longa vida deveria custar pelo menos 15% a mais que o leite pasteurizado padrão. E nesse supermercado a sua lista mostra que o leite pasteurizado padronizado estava sendo vendido a R$1,59, o que me leva a pensar que o leite longa vida deveria estar sendo vendido pelo menos a R$1,83 por litro. Mas Holmes, então as marcas de leite longa vida que estavam com preço abaixo de R$1,83 por litro, algumas até com R$1,35 por litro estariam fraudadas? Não se pode afirmar isso. O preço baixo pode ser função da fraude, mas também da baixa qualidade do produto ou pelo produto estar próximo da data de vencimento. De qualquer forma Holmes, o consumidor deveria por “a barba de molho” encontrar o leite longa vida com preço muito baixo comparativamente ao leite pasteurizado. Elementar meu caro Watson, pois quando a esmola é demais até santo desconfia. O consumidor deve desconfiar sempre quando o preço do leite, qualquer que seja o tipo, for muito baixo, pois qualidade tem preço e nenhum lacticínio pode fazer milagre. E como o longa vida é um produto que tem um custo de embalagem muito alto, com mais razão deve desconfiar de leite longa vida com preço baixo se comparado com o preço do leite pasteurizado.
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