Entre outubro de 2023 e maio de 2024, a temperatura máxima diária permaneceu acima de 30°C, limiar crítico para a soja, em mais de 60,0% dos dias nas principais regiões produtoras do Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste (Embrapa).
O resultado foi uma safra de 147,4 milhões de toneladas, 9,0% abaixo da estimativa inicial de 162,0 milhões de toneladas.
O relatório do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) contabilizou 336,6 mil pessoas atingidas por desastres climáticos em 2025 e prejuízos de R$3,9 bilhões. No mesmo ano, foram registradas sete ondas de calor, e oito estados, entre eles Goiás, Minas Gerais e o Distrito Federal, tiveram municípios com todo o território sob condição de seca.
No campo, os impactos são evidentes. No Rio Grande do Sul, na safra 2024/25, a Emater-RS reduziu a projeção de 18,2 milhões para 15,1 milhões de toneladas, ou 17,4%, com prejuízo superior a R$14,0 bilhões. Em decorrência do clima, a produtividade das lavouras gaúchas caiu para 2,2 mil quilos por hectare, frente aos 2,8 mil quilos por hectare obtidos na safra anterior, redução de 20,3%. Foi a quarta quebra em seis safras no estado.
A Embrapa estima que a seca tenha provocado perdas acumuladas de 280,0 milhões de toneladas de soja, equivalentes a cerca de US$152,0 bilhões, ao longo de cinco décadas.
Figura 1.
Produção de soja no Brasil, entre a safra 2000/01 e a projeção para 2026, com os anos de El Niño mais intensos em vermelho.
*estimativa
Fonte: Conab | Elaboração: Scot Consultoria
Os efeitos não se restringem à soja. No milho segunda safra, a estiagem de 2021 reduziu a produtividade no Paraná de 5,2 para 2,7 toneladas por hectare. O estado colheu 58,0% a menos que as 14,6 milhões de toneladas inicialmente projetadas.
Na cana-de-açúcar, o Centro de Tecnologia Canavieira registrou produtividade de 69,7 toneladas por hectare no Centro-Sul em setembro de 2024, ante 83,4 toneladas no mesmo período de 2023, refletindo o impacto do déficit hídrico observado na safra.
A série histórica da Conab também evidencia os efeitos das condições climáticas sobre a cultura, com produtividade de 70,4 t/ha em 2020/21, 69,4 t/ha em 2021/22, recuperação para 73,6 t/ha em 2022/23 e estimativa de 75,2 t/ha em 2025/26.
O desempenho da safra ainda refletiu os efeitos da restrição hídrica, das altas temperaturas e, em algumas regiões, dos incêndios ocorridos em 2024, especialmente no Centro-Sul.
O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), desenvolvido pela Embrapa e aplicado a mais de 40 culturas, define as janelas de plantio de menor risco por município e cultivar e é requisito para acesso ao Proagro e à subvenção ao seguro rural.
Ao mesmo tempo, a irrigação consolida-se como uma das principais estratégias de adaptação ao fator climático. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a área irrigada por pivôs centrais cresceu 225,0% entre 2010 e 2022, alcançando 1,92 milhão de hectares. No total, o país possui 8,2 milhões de hectares irrigados.
As projeções climáticas indicam um novo episódio de El Niño nos próximos ciclos agrícolas, com início entre o final de 2026 e início de 2027, elevando o risco de excesso de chuvas no Sul e de irregularidade das precipitações em outras regiões do país.