Em 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. Em seguida, a Guarda Revolucionária Islâmica, principal força militar iraniana, fechou o Estreito de Ormuz, passagem que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e por onde transita parcela relevante do comércio global de petróleo e derivados.
A medida elevou imediatamente a percepção de risco no mercado internacional de energia.
A cotação do petróleo Brent subiu e atingiu US$126,41 por barril em 2 de março, a maior cotação desde 2012, ano também marcado por instabilidade geopolítica no Oriente Médio.
A alta do petróleo foi repassada aos combustíveis. No Brasil, o diesel S10 atingiu o maior preço em março, chegando em R$9,55 por litro.
Com as negociações e a entrada em vigor do cessar-fogo, as tensões haviam diminuído e a cotação do petróleo caiu a partir de maio.
Em 5 de julho, o Brent estava cotado em US$71,99 por barril, menor cotação desde o início do conflito. No mercado brasileiro, no entanto, a queda do diesel S10 foi menos intensa, em 4 de julho, a cotação média estava em R$7,04 por litro.
Entre janeiro e julho, a cotação média do Brent foi de US$83,97 por barril. No mesmo período, a cotação média do diesel S10, em São Paulo, foi de R$6,97 por litro.
Ou seja, enquanto o petróleo passou a ser negociado abaixo da média no intervalo analisado, o diesel S10 permaneceu acima dela (figura 1).
Esse comportamento mostra que a queda da cotação do petróleo não foi repassada ao diesel na mesma proporção do repasse da alta.
Na prática, o produtor brasileiro continuou convivendo com uma cotação do combustível em patamar elevado.
Figura 1.
Cotação média do diesel S10 no Brasil, em R$/l à esquerda, e a do petróleo Brent, em US$/barril à direita, entre janeiro e julho*.
* até 4/7
Fonte: ANP, Investing e Scot Consultoria | Elaboração: Scot Consultoria
A comparação entre as curvas exibe a defasagem entre a queda da cotação do petróleo e o comportamento da cotação do diesel no mercado interno.
Contudo, em 7 de julho, cerca de 60 dias após o cessar-fogo, as hostilidades voltaram. O Irã atacou embarcações comerciais e alvos militares dos Estados Unidos, que retaliaram, marcando o fim da trégua.
Diante desse cenário, a cotação do petróleo Brent, que vinha em queda, subiu 6,0%, pressionando os preços dos combustíveis.
Com isso, a cotação do diesel S10 no Brasil poderá subir, antes de absorver integralmente os efeitos da primeira onda de queda.
Além disso, o governo anunciou a retirada da subvenção temporária de R$0,35 por litro sobre o diesel a partir de julho, sob a justificativa de que a medida emergencial deixou de ser necessária diante da queda das cotações internacionais do petróleo. Entretanto, caso o conflito volte a atingir a intensidade observada em meados de março, não se descarta uma reavaliação dessa decisão.
O agravamento das tensões recoloca o campo em estado de atenção, ampliando as incertezas com os custos logísticos e de produção do agronegócio brasileiro.
Estudo da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) estimou que a alta de 21,1% no preço do diesel S10 entre o fim de fevereiro e o início de abril acrescentou R$612,2 milhões aos custos operacionais da agropecuária gaúcha. O arroz recebeu o maior impacto, com acréscimo projetado de R$185,72/ha, devido à elevada mecanização da lavoura. O impacto no milho foi de aumento de R$69,01/ha, na soja foi de R$48,74/ha e no trigo de R$43,68/ha.
A trajetória da cotação do petróleo Brent e do diesel S10 durante o conflito no Oriente Médio mostra como essa guerra pode pressionar os custos para o agronegócio brasileiro.
No curto prazo, a tendência é de instabilidade, com o retorno do conflito.
No longo prazo, porém, com o aumento da inclusão de biodiesel na mistura do diesel, esses impactos podem ser menos acentuados. Vamos ver.