O consumo final de eletricidade no Brasil chegou a 667,8TWh em 2025, alta de 2,7% sobre 2024, segundo o Relatório Síntese do Balanço Energético Nacional (BEN) de 2026, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
A indústria puxou a demanda, com 35,2% do total, seguida pelo segmento residencial (31,7%) e pelo comércio (18,4%).
O setor agropecuário ficou na sequência, respondendo por 5,7% do consumo elétrico nacional, ou 32,4TWh, no qual pivôs de irrigação, sistemas de climatização, ordenhadeiras, resfriadores de leite, confinamentos, unidades de armazenagem e plantas de processamento são exemplos de consumo de alta potência e operação contínua indispensável, o que torna a tarifa elétrica um componente importante da estrutura de custos do produtor rural.
Utilizando a Base de Dados das Tarifas das Distribuidoras de Energia Elétrica (ANEEL), foram calculadas as médias anuais pagas nas regiões brasileiras, em R$/kWh.
Ao deflacionar os valores, com base no IPCA médio para cada ano, é notável uma alta no custo da energia rural.
Figura 1.
Custos médios anuais em R$/kWh, deflacionados, da fatura de energia B2 (rural).
Fonte: ANEEL | Elaboração: Scot Consultoria
Na comparação com 2021, a tarifa da energia rural em 2026 está 33,3% maior na região Norte, 27,9% na região Nordeste, 37,5% no Centro-Oeste, 27,3% no Sudeste e 29,0% no Sul.
A alta no período se deu em razão do encarecimento dos custos de geração, transmissão e distribuição, ampliação dos encargos e necessidade de investimentos no sistema elétrico. Além disso, eventos como crises hídricas, contribuíram no período, aumentando a frequência do acionamento de bandeiras tarifárias, (amarela ou vermelha) que elevam a conta.
Em 2022, para cada mil dólares de alimentos produzidos, o Brasil consumiu em média 561,1kWh de energia elétrica (FAO), o que representava, à época, cerca de R$392,78, considerando uma tarifa média de R$0,70/kWh.
Figura 2.
Uso de energia elétrica por valor da produção de alimentos em 2022 (kWh/US$1mil).
Fonte: FGV | Elaboração: Scot Consultoria
No mesmo ano, o Brasil exportou US$159,1 bilhões em alimentos. O custo com energia elétrica associado à produção desse volume girou em torno de US$11,8 bilhões, ou R$62,5 bilhões, o que explica a crescente demanda por alternativas de geração própria.
No mesmo ano, foi sancionada a Lei no. 14.300/2022, que instituiu o Marco Legal da Geração Distribuída, abrindo caminho para que produtores rurais mitiguem parte desse custo por meio de geração própria.
A adoção de painéis solares foi a resposta à escalada tarifária no meio rural e urbano.
Em 2025, a geração solar fotovoltaica no Brasil atingiu 88,1TWh, crescimento de 11,4% em relação a 2024, com capacidade instalada de 64,8GW, representando 24,8% da capacidade instalada total, atrás apenas da hidroelétrica (42,2%).
No campo, em fevereiro de 2026, as propriedades agropecuárias já somavam 5,8GW de capacidade instalada em geração distribuída solar, capazes de gerar cerca de 10,0TWh por ano (considerando um fator de capacidade médio de 20,0%), o que faz do segmento rural o terceiro maior do país, atrás das residências (21,9GW) e do comércio (12,2GW).
É preciso, contudo, considerar o custo do chamado Fio B, parcela da tarifa que, em resumo, remunera o uso da infraestrutura das distribuidoras (postes, transformadores, cabos, manutenção, operação etc.).
Essa cobrança já existia antes de 2023, mas os geradores fotovoltaicos eram isentos dela sobre a energia compensada. Com a mudança, os sistemas conectados a partir de 7 de janeiro de 2023 passaram a pagar o Fio B de forma escalonada, começando em 15,0% em 2023 e subindo 15 pontos percentuais ao ano, até chegar a 90,0% em 2028.
Em 2026, o índice está em 60,0%. A partir de 2029, a ANEEL definirá o novo método de cobrança, ainda sem percentual fixado em lei. Sistemas conectados antes de 2023 seguem isentos até 2045.
Considere, por exemplo, um sistema que tenha injetado 1,0 mil kWh na rede em um mês. Se a parcela do Fio B na Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição (TUSD) for de R$0,26 por kWh, valor homologado pela ANEEL para cada distribuidora, e a cobrança vigente corresponder a 60,0% desse montante, o cálculo é:
1.000 kWh × R$0,26 = R$260,00
60,0% de R$260,00 = R$156,00
Esse é o valor devido referente ao Fio B no período.
O ajuste reduz parte da economia gerada pelos painéis e pode alongar o payback do sistema, mas não inviabiliza o investimento, sobretudo em propriedades rurais com consumo elevado e contínuo de energia.
Por fim, a principal fonte de bioeletricidade é o setor sucroenergético, que utiliza o bagaço e a palha da cana-de-açúcar para gerar energia. A biomassa também inclui fontes como licor negro da indústria de papel e celulose, resíduos florestais, biogás e outros resíduos agroindustriais.
Em 2024, a geração de eletricidade a partir da biomassa alcançou 28,3TWh, equivalente a aproximadamente R$19,8 bilhões em energia, considerando uma tarifa média de R$ 0,70/kWh. Esse volume correspondeu a 90,2% de todo o consumo de energia elétrica da classe rural no país no mesmo ano (31,4TWh), evidenciando o peso da bioeletricidade no abastecimento do campo.
Outro ponto importante é que mais de 84,0% da bioeletricidade sucroenergética foi produzida entre maio e novembro, período de menor disponibilidade hídrica no Centro-Sul, reforçando seu papel estratégico para o sistema elétrico.
Em 2015 a geração de energia por meio da queima de carvão mineral e derivados de petróleo atingiu sua capacidade instalada máxima (12,2GW), a participação da biomassa para a geração de energia continuava crescendo, já tendo superado o carvão e derivados de petróleo em 2011.
A energia solar fotovoltaica ainda engatinhava, mas aumentou a partir de 2017, ultrapassando carvão e derivados de petróleo em 2021 e biomassa em 2022, crescendo exponencialmente a partir daí.
Figura 3.
Capacidade instalada por fonte (GW), de 2005 a 2025.
*inclui biomassa de cana-de-açúcar
Fonte: BEN 2026 (EPE) | Elaboração: Scot Consultoria
Neste contexto, mesmo com uma produção acima da demanda energética, evidencia-se como a expansão das fontes alternativas e renováveis faz com que a transição energética ocorra, reduzindo a necessidade da participação de termelétricas com a queima de carvão mineral e derivados de petróleo.
Assim, o campo produz cerca de 60,0% da energia renovável da matriz energética brasileira.
Esse cenário consolida o agronegócio como um dos pilares da segurança energética nacional. A cana-de-açúcar gera bioeletricidade a partir do bagaço, biodigestores transformam dejetos em biogás e biometano, e, somados aos painéis solares, reduzem a dependência da rede elétrica nas propriedades rurais.
Legendas
TWh: terawatt-hora; MWh: megawatt-hora; kWh: quilowatt-hora; GW: gigawatt.
Referências
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AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL), Base de Dados das Tarifas das Distribuidoras de Energia Elétrica. Disponível em: ANEEL | Portal Reports Abertos
AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL), Dados tarifários e informações do setor elétrico brasileiro. Disponível em: SIGA - Sistema de Informações de Geração da ANEEL - Conjunto de dados - Portal de Dados Abertos - Agência Nacional de Energia Elétrica
ALDO, Fio B: entenda o que é e qual o valor dessa tarifação da Lei 14.300. Disponível em: Fio B: descubra o que é e como funciona essa cobrança
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