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Carta Insumos - Biofertilizantes: aproveitando resíduos do campo, gerando economia e sustentabilidade

por Rodrigo De Mundo
18/06/2026 - 06:00

Biofertilizantes são obtidos a partir da decomposição ou da fermentação de materiais orgânicos de origem animal ou vegetal. Eles podem conter nutrientes, microrganismos, compostos orgânicos e substâncias resultantes da atividade biológica durante o processo de fermentação. São diferentes dos inoculantes porque não têm como função principal apenas levar microrganismos específicos à planta, mas também fornecer elementos presentes na matéria-prima utilizada.

A produção pode ocorrer por fermentação aeróbica, com presença de oxigênio, ou anaeróbica, sem presença de oxigênio. Entre os materiais usados estão esterco, restos vegetais, compostos orgânicos, água, melaço, resíduos minerais, entre outros. A composição final depende da matéria-prima, do tempo de fermentação, da temperatura, da diluição, do manejo e da forma de armazenamento.

Eles podem conter nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre e micronutrientes. Esses elementos vêm das matérias-primas usadas na produção, e os teores variam. Por isso, não é correto considerar que todos os biofertilizantes têm a mesma composição ou a mesma eficiência nutricional.

O uso pode ser feito no solo, nas folhas, nas sementes ou via fertirrigação, conforme o objetivo do manejo e a recomendação técnica. A aplicação deve considerar a concentração do produto, a cultura, a fase da planta e a análise de sua composição.

Limitações e cuidados

O uso exige critério técnico. A aplicação sem controle pode causar desequilíbrio nutricional, excesso de sais, contaminação microbiológica, mau cheiro, fitotoxicidade e baixa resposta agronômica. Também é necessário observar a origem da matéria-prima, o processo de fermentação, a forma de armazenamento e a dose aplicada.

Nesse sentido, é importante realizar análises do produto. A análise do biofertilizante permite identificar os teores de nutrientes, o pH e possíveis contaminantes. Essas informações são necessárias para definir a dose, forma de aplicação e a frequência de uso. 

Sem análise, o manejo fica impreciso e pode resultar em deficiência, excesso de nutrientes ou baixa eficiência. A análise também permite comparar diferentes lotes, já que a composição pode mudar conforme a matéria-prima e o processo de produção.

Benefícios e relação com sustentabilidade

Os biofertilizantes trazem benefícios ao solo, às plantas, ao agricultor, ao consumidor e ao meio ambiente. 

No solo, aumentam a atividade microbiana e favorecem a ciclagem de nutrientes. 

Nas plantas, auxiliam no fornecimento de elementos essenciais, contribuem para o desenvolvimento vegetal e podem aumentar a resistência a estresses ambientais, pragas e doenças.

Do ponto de vista ambiental, os biofertilizantes contribuem para o aproveitamento de resíduos orgânicos gerados na atividade agropecuária. Com isso, reduzem o descarte de resíduos, diminuem as perdas de nutrientes e ajudam a transformar materiais que poderiam causar impactos ambientais em insumos para a produção agrícola. Eles também podem reduzir parte da dependência de fertilizantes minerais, que exigem mineração, processamento industrial, transporte e uso de energia de origem fóssil. Assim, o uso pode contribuir para sistemas de produção com menor consumo de insumos externos e melhor aproveitamento dos recursos disponíveis na propriedade.

Para o agricultor, os biofertilizantes podem representar menor custo, uso de recursos locais e menor contato com substâncias tóxicas. 

Para o consumidor, podem contribuir para a produção de alimentos com menor presença de resíduos químicos.

Ganho econômico

Para estimar o potencial econômico do uso do biofertilizante produzido a partir de dejetos bovinos, foi considerado um exemplo com 1,0 mil bovinos de corte confinados durante 100 dias.

A referência adotada para a geração de dejetos foi de 30 a 35 kg/cabeça/dia de fezes e urina. Para o exemplo, foi usado o ponto médio desse intervalo, 32,5 kg/cabeça/dia. Esse valor foi considerado porque representa uma média entre o limite inferior e o limite superior encontrados em comunicados técnicos da Embrapa.

Assim, 1,0 mil bovinos produziriam 3,25 milhões de quilos de dejetos por ciclo (100 dias).

Para transformar isso em fertilizante, foram utilizados os teores médios de nutrientes presentes nos dejetos bovinos. Segundo referência técnica da Embrapa, os resíduos de bovinos confinados, contêm entre 4,5 e 6,0 kg de nitrogênio, 2,1 e 2,6 kg de fósforo e 2,8 e 4,5 kg de potássio por tonelada. Para o cálculo, foi adotado o ponto médio de cada faixa, por representar uma estimativa intermediária, sem considerar os extremos mínimo ou máximo.

Os valores usados foram:

Nitrogênio: 5,25 kg por tonelada de dejetos (fezes e urina)

Fósforo: 2,35 kg por tonelada de dejetos (fezes e urina)

Potássio: 3,65 kg por tonelada de dejetos (fezes e urina)

Com isso, o volume de nutrientes gerado no ciclo seria:

Nitrogênio: 17.062,5 kg de N

Fósforo: 7.637,5 kg de P₂O₅

Potássio: 11.862,5 kg de K₂O

Esse volume representa o potencial bruto de nutrientes contidos nos dejetos. No entanto, nem todo nutriente fica disponível imediatamente para a cultura no primeiro ciclo. Por isso, foi considerada uma disponibilidade de 50% para o nitrogênio e de 70% para fósforo e potássio. Esses percentuais foram usados porque parte dos nutrientes permanece na matéria orgânica e é liberada gradualmente no solo.

Assim, o potencial de nutrientes disponíveis seria:

Nitrogênio disponível: 8.531,3 kg de N

Fósforo disponível: 5.346,3 kg de P₂O₅

Potássio disponível: 8.303,8 kg de K₂O

Para transformar esses nutrientes em valor econômico, foram usados fertilizantes minerais equivalentes. Para o nitrogênio, foi usada a ureia, considerando 45% de N. Para o fósforo, foi usado o MAP granulado, considerando 52% de P₂O₅. Para o potássio, foi usado o cloreto de potássio granulado, considerando 60% de K₂O.

De acordo com a Scot Consultoria, na segunda quinzena de maio, tais insumos estavam cotados em:

Ureia: R$4.609,61/t

MAP granulado: R$5.664,99/t

Cloreto de potássio granulado: R$3.368,83/t

A partir da quantidade de nutrientes disponíveis nos dejetos, foi calculado quanto seria necessário comprar de fertilizantes minerais para fornecer o mesmo volume de N, P₂O₅ e K₂O.

Ureia: 18.958,3 kg de ureia, ou 19,0 toneladas

MAP granulado: 10.281,3 kg de MAP, ou 10,3 toneladas

Cloreto de potássio granulado: 13.839,6 kg de KCl, ou 13,8 toneladas

Multiplicando essas quantidades pelos preços dos fertilizantes, chega-se ao valor bruto dos nutrientes que poderiam ser substituídos:

Ureia: R$87.390,52

MAP granulado: R$58.243,18

Cloreto de potássio granulado: R$46.623,20

Nesse exemplo, portanto, os dejetos gerados por 1,0 mil bovinos confinados durante 100 dias teriam potencial para entregar o equivalente a aproximadamente R$192,3 mil em nutrientes disponíveis, antes de descontar custos de coleta, armazenamento, transporte e aplicação.

Esse valor não deve ser interpretado como economia líquida final, mas como o valor bruto dos nutrientes minerais que poderiam ser parcialmente substituídos pelo uso agronômico dos dejetos tratados. A economia líquida dependerá dos custos de manejo, distância entre o confinamento e a lavoura, equipamento utilizado e dose recomendada para cada cultura.

Outros estudos foram feitos ao longo dos anos, para diferentes tipos de dejetos.

Em um estudo com biofertilizante de dejetos suínos tratado em biodigestores, o uso do efluente com adubação mineral complementar reduziu em até 48,0% o custo de adubação do milho e em 28,7% a despesa total com insumos da lavoura. Em outro estudo com água residuária da bovinocultura leiteira aplicada em milho, a substituição de 22,0% do adubo inorgânico pelo biofertilizante gerou economia bruta de R$133,00 por hectare, sem considerar os gastos com aplicação.

Conclusão

No atual cenário de custos elevados dos fertilizantes, os biofertilizantes surgem como uma alternativa para reduzir despesas, aproveitar resíduos e melhorar a eficiência do manejo nutricional.

Quando produzidos e aplicados com critério técnico, podem fornecer nutrientes, estimular a atividade biológica do solo e diminuir parte da dependência de adubos minerais. Seu uso, porém, deve ser baseado na análise do produto, nas necessidades da cultura e nos custos de aplicação.

Assim, os biofertilizantes não substituem automaticamente a adubação convencional, mas podem complementar o manejo, gerar economia e contribuir para um agro sustentável.