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Como melhorar a eficiÍncia reprodutiva do seu rebanho

por Equipe Scot Consultoria
Sexta-feira, 22 de dezembro de 2017 -11h30

 


O professor José Luiz M. Vasconcelos é hoje uma das maiores autoridades no Brasil em Reprodução Animal, tem experiência na área de Medicina Veterinária, com ênfase em Fisiopatologia da Reprodução Animal, atuando principalmente em protocolos de sincronização e eficiência reprodutiva de bovinos. Em entrevista exclusiva à Scot Consultoria, Zequinha, como é conhecido, comentou alguns aspectos sobre a aplicabilidade das tecnologias objetivando a melhoria da eficiência reprodutiva do rebanho nos sistemas de produção do Brasil. Confira:


Scot Consultoria: Professor, quais são os principais objetivos da implantação da estação de monta (EM)? E quais são suas principais contribuições no campo?


José Luiz Moraes Vasconcelos: A estação de monta é um momento onde nós queremos conciliar a demanda da vaca com a oferta de alimento. Então, queremos que a vaca tenha a cria o mais próximo possível do início da oferta abundante de alimentos para que assim ela não perca muito peso.


Alguns pecuaristas e técnicos preferem um pouquinho antes por causa do bezerro, mas nós temos que nos preocupar também com a vaca. Parir mais próximos da época de seca é melhor para o bezerro, porém parir na época das águas é melhor para a vaca.


Tem que ter bom senso para conciliar o momento ideal da parição. Isso porque no pós-parto deve haver oferta de alimentos suficiente para que a matriz não perca peso, consiga manter bons índices reprodutivos no pós-parto, e consiga produzir leite adequadamente para garantir o bom desempenho da cria.


A definição da estação de monta depende de cada região e de cada fazenda. Tem regiões nas quais a oferta de alimento é em dezembro, outras em outubro, setembro...  Então o ideal é que o pecuarista oscile o período de monta basicamente de acord o com a previsão de oferta de alimentos.


É importante lembrar que o momento favorável para o bezerro é antes das chuvas e para as vacas após as chuvas pela disponibilidade maior de alimentos e é diante desse impasse que entra a Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF).


Através da IATF é possível concentrar o máximo do máximo as parições em determinado momento. Assim, são maiores as chances de os bezerros nascerem em um momento mais adequado e as vacas imediatamente ou mais próximo da oferta de pasto, para que elas consigam ter uma reconcepção na próxima estação com mais facilidade.


É uma balança entre a necessidade dos bezerros que é nascer nas secas e a necessidade das vacas que é parir nas águas.


Além disso, com a aplicação da IATF é possível concentrar o trabalho, o que possibilita inseminar mais vacas. Antigamente trabalhava-se mais e inseminava-se menos. Hoje, na verdade, continua-se trabalhando bastante, até um pouco mais, porém, o número de animais trabalhados (inseminados), que ficam gestantes no momento adequado, proporcionalmente é bem maior.


Scot Consultoria: E qual motivo de somente aproximadamente 15% das nossas fêmeas serem inseminadas?


José Luiz Moraes Vasconcelos: Na verdade, nosso país é grande demais então tem muita oportunidade. Por ser estação, o espaço de tempo é muito curto, o grupo de pessoas que trabalha em plena estação de monta não tem tempo para nada, então vai caindo durante final de ano, Natal, Ano Novo...


Nós queremos uma estação curta e perfeita, é fácil de falar em 75 dias, mas na hora de exercer isso, na realidade, trabalha-se 75 dias 24 horas por dia, então às vezes muitas pessoas estão acomodadas, estão satisfeitas com os resultados que tem, então não mudam.


A sugestão que eu dou é que sempre temos que experimentar, mostrar que pode vir a nascer um bezerro Nelore ou meio sangue de melhor qualidade e que vá com certeza chamar atenção e o produtor vai falar “preciso fazer mais”. Então são mais pessoas experimentando e consequentemente aprovando a tecnologia.


Scot Consultoria: Quem ainda não tem estação de monta e quer começar a implantar essa técnica na fazenda. Quais são as dicas?


José Luiz Moraes Vasconcelos: A primeira dica, além, é claro, da definição da época com maior quantidade de alimento disponível, é ver como está a variação e a distribuição de partos da fazenda, em qual frequência e em qual o período do ano.


Mas independente disso, se o pecuarista definir, por exemplo, que a estação de monta será em dezembro, ele deve apartar todas as matrizes e assim que as vacas forem parindo não deixar mais com o touro, e quando chegar em dezembro, mês do início da estação de monta definida, iniciar a IATF e inseminar o máximo de animais possíveis.


Tem um ponto econômico que ele vai ter que discutir que é “qual a proporção de vacas que eu preciso emprenhar?”. Quanto mais fêmeas ele “cortar”, melhor para ele e mais rápido ele vai alcançar o objetivo de estação de monta mais curta, mas consequentemente, ele vai ter mais animais para descarte e vai precisar comprar mais animais de reposição.


É um balanço econômico entre valor do descarte/valor de compra x oportunidade de descarte/oportunidade de compra. Quando eu tenho bastante oferta de fêmeas jovens, é um bom momento de acertar a estação de monta. Quando não tem oferta fica mais difícil, porque talvez você vai vender seu animal e não vai encontrar outro para a reposição.


Scot Consultoria: Quais as maiores dificuldades que os pecuaristas enfrentam para manter a regularidade da duração da EM?


José Luiz Moraes Vasconcelos: Essas fazendas ficam procurando uma proporção maior de vacas gestantes e ficam dando mais chances para as vacas. Se a fazenda está alongando a EM é porque está atrasando para emprenhar as fêmeas e é nessas fazendas que a IATF fica mais importante.


Nesses casos, ao invés de fazer uma IATF, tem que fazer duas por evento. E caso não haja prenhez, tem que soltar os animais com os touros depois para fazer diagnóstico precoce da estação e nova inseminação para poder reduzir esse intervalo entre partos e, consequentemente, tentar manter a duração ideal da estação de monta.


Quando a fazenda alonga a estação, ela está visando um bezerro por ano, mas quando temos estação mais curta, além do objetivo também ser a produção de um bezerro por ano, nós também queremos a cria e uma vaca em um melhor momento, ou seja, um ganho de 10kg de bezerro/vaca/ano, apesar da proporção ser a mesma 80:80, mas na realidade esses 80, se sair em um momento mais adequado, pode sair com 10kg a mais de carne.


Scot Consultoria: Quais são as diferenças mais comuns entre os índices zootécnicos de fazendas que possuem EM de 90 dias e fazendas que possuem EM de mais de 120 dias?


José Luiz Moraes Vasconcelos: A diferença é a definição. A fazenda que tem a estação mais curta faz um cronograma mais apertado e cumpre. Ou seja, na realidade, ela tem mais risco porque se não tiver pastos, se tiver atrasados as chuvas, a produção fica comprometida, mas mesmo assim ela cumpre o cronograma.


Quem faz uma estação mais longa, faz um serviço, faz uma IATF, aí depois solta as fêmeas com o touro, aí por algum fator, se as vacas não emprenharam naquele ano, ele deixa as vacas com os touros um maior período de tempo e consequentemente nos anos subsequentes a estação fica mais longa mesmo, aí depois ele volta a fazer o que era o objetivo, diminuir a estação.


Scot Consultoria: Qual a duração média da EM no Brasil? Quais as dicas para quem quer reduzir a duração dela na fazenda?


José Luiz Moraes Vasconcelos: Tem estação de todo o jeito. Tem estação de 70 dias e tem fazendas que não tem estação. Tem fazendas com estações curtíssimas, onde todas as vacas parem antes de começar a estação de monta. No primeiro dia da estação de monta, todas as vacas estão paridas, esse é o mundo perfeito, não é fácil fazer, dá muito trabalho, precisa de muito manejo, mas é possível, e as fazendas que conseguem fazer isso, conseguem bezerros de maior qualidade, bezerros mais precoces. Isso que é a reprodução, não é só emprenhar a vaca, mas produzir também bezerros de maior qualidade.


Scot Consultoria: Em sua opinião, porque o produtor tem problemas para visualizar a viabilidade econômica da aplicação de tecnologias? O senhor acredita que seja desconhecimento das tecnologias existentes e falta de capacidade técnica para aplicá-las?


José Luiz Moraes Vasconcelos: Existe qualificação técnica, não generalizado, mas existe muita gente que faz um excelente trabalho. Eu faço parte do grupo GERAR, é um grupo que mais de 250 técnicos participam e fazem um ótimo trabalho aí no campo.


Agora existe a viabilidade técnica e a viabilidade econômica. Na verdade, as vezes é alguma indecisão em fazer ou não fazer a aplicação de tecnologia. É um planejamento que não pode ser feito hoje, tem que ser feito em junho/julho para se planejar e deixar tudo pronto para hora que for fazer. Mas muita gente deixa para planejar a EM na última hora e quando percebe que não dá mais tempo solta os touros para “ver o que acontece”.


Falta um pouquinho de planejamento e falta também, por parte do técnico, deixar claro para o pecuarista o que ele está perdendo. Por exemplo, o veterinário diagnostica a prenhez nas primíparas com 30 dias e as primíparas que estão vazias, praticamente só 10% estão com Corpo Lúteo, e é claro que não adianta soltar todos, pois nesse caso só 10% das vazias tem chance de emprenhar.


Ou seja, são pontos que nós podemos mostrar para o produtor e deixar claro para ele que se ele colocar touro as taxas de prenhez serão baixas, então ele deveria praticar alternativas mais sensatas a curto prazo, como a IATF, por exemplo.


Scot Consultoria: Falta segurança do produtor para investir nessas tecnologias?


José Luiz Moraes Vasconcelos: Toda a tecnologia tem sua maturação. A IATF está mais madura, mas ainda falta planejar, esquematizar, a equipe tem que se envolver, então talvez falte um pouquinho do “experimentar”.


As fazendas estão usando cada vez mais. A fazenda que fazia em uma parte do rebanho, agora faz em todo o rebanho, agora as que fazem a primeira já estão tentando fazer a segunda, as que fazem a segunda estão tentando fazer a terceira...


Acho que é o aprendizado normal, as fazendas ainda estão experimentando, grande parte, 90%, acredito que gosta do resultado e tenta fazer, por isso cresce todo ano o número de vacas inseminadas.


Scot Consultoria: Como estão outros países em relação à eficiência reprodutiva, professor? Temos muito o que aprender?


José Luiz Moraes Vasconcelos: Na pecuária de corte nós estamos a frente tanto dos Estados Unidos como da Austrália em termos de utilização de ferramentas para melhorar a eficiência reprodutiva.


Mas, na realidade, nós temos um pequeno problema, que é com a vaca nelore que atrasa para emprenhar e por isso nós precisamos do apoio necessário para desenvolver ferramentas para emprenhar essa vaca. A vaca deles, EUA e Austrália, é uma vaca europeia, que tem sangue Angus, que cicla mais exatamente, e eles têm oferta de alimento específicos para o momento, então a vaca deles precisa de menos “ferramentas”.


A nossa vaca Nelore como tem esse atraso na ciclicidade precisa de mais ajuda. E isso foi o que forçou a ciência brasileira a produzir estratégias que ajudem a nossa vaca ficar gestante mais precocemente.


 


Entrevistado



José Luiz Moraes Vasconcelos - Doutor em Medicina Veterinária e professor da UNESP, campus de Botucatu-SP-Brasil.