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O conto do êxodo e da volta de Mariel

por Marcos Fava Neves
Terça-feira, 22 de julho de 2014 -15h05

Nosso conto se inicia no ano de 1980 em Cuba, no histórico episódio "Êxodo de Mariel", quando 125 mil pessoas fugiam da ditadura comunista saindo pelo Porto de Mariel, localizado na cidade de mesmo nome a 40 km de Havana, sonhando com melhores perspectivas. Os que ficaram em Cuba viveram mais de 30 anos onde perceberam, além da violação constante de direitos humanos, uma pobreza bem distribuída e pouco avanço na capacidade de produção desta linda ilha, cheia de recursos. Muitas indústrias sucatearam, como o caso da açucareira, porém são ainda bons em algumas como no delicioso rum, no fumo de seus charutos e na lucrativa exportação de médicos a alguns países da América do Sul.


No "Êxodo de Mariel", muitos cubanos morreram pelo caminho, perderam familiares, mas muitos realizaram o sonho e construíram verdadeiras fortunas na Flórida, quando encontraram um ambiente fértil que premiaria seu esforço, seu trabalho e seu empreendedorismo.


Ler sobre este fato histórico nos leva a 2010, 30 anos após o êxodo. Lembrei de uma visita com um primo feita na interessante cidade de Berlim. Após três dias em uma feira de fruticultura, tivemos o dia livre e fomos ao "Checkpoint Charlie", onde existia um dos controles da passagem da Europa Oriental, então socialista, para a Ocidental, de mercado. Lá existe um museu que relata a história do Muro de Berlim e das tentativas de fuga das pessoas que também perderam suas liberdades, suas vidas e famílias com o mesmo propósito dos cubanos de Mariel. Terminamos a emocionante visita, sentamos na calçada para observar, assimilar e refletir. Chegamos a uma conclusão: "se fosse bom, para que precisava de muro?"


Nosso conto vai agora a janeiro de 2014, quando são amplamente divulgados dois fatos, os números da economia brasileira em 2013 e a volta do assunto Mariel, graças a um investimento bilionário da sociedade brasileira feito neste histórico Porto de Cuba.


O primeiro fato, números da nossa economia, mostra que silenciosamente as cadeias produtivas do agronegócio brasileiro seguiram 2013 no seu caminho de produzir e gerar renda, empregar para distribuir renda e contribuir com a economia brasileira. O valor bruto da produção do agro brasileiro chegou a R$470,0 bilhões, 11,3% maior que em 2012. Deste total, cerca de 66,5% referem-se a agricultura e 33,5% à pecuária. Renda gerada que moveu inúmeros outros setores econômicos do que chamo de... Brasil-Chinês, o Brasil do agro.


As exportações encostaram em US$100,0 bilhões, 4,3% acima de 2012. As importações também cresceram 4,0%, chegando a US$17,0 bilhões, o que proporciona um incrível saldo de US$83,0 bilhões em 2013. Só em soja foram US$31,0 bilhões, chegando a 31,0% do total brasileiro. Sojicultores tiveram a façanha de exportar 10,0 milhões de toneladas a mais em 2013.


Entre os compradores, foi a China, e não Cuba, que desbancou a União Europeia e passa a ser o maior consumidor da nossa comida. Chega já a quase 23,0% das nossas exportações do agro, e só tende a crescer. Vale dizer que a China comprou do Brasil US$23,0 bilhões só em comida, ao passo que Cuba comprou ao redor de US$500,0 milhões entre todos os produtos exportados pelo Brasil, parte deles para as obras do Porto, e boa parte financiada pela sociedade brasileira.


Se olharmos o Brasil como uma grande empresa que compete no mundo, nossa sociedade não vai bem. Estamos caindo diversas posições nos principais rankings mundiais de competitividade. O rombo das transações correntes (balança comercial, serviços e transferências) em 2013 atingiu US$81,0 bilhões, 50,0% a mais que em 2012, sendo o maior desde 2001. O investimento estrangeiro direto no Brasil caiu para 2,88% do PIB. É a primeira vez que este percentual cai desde 2009. Nosso superávit primário foi o menor desde 2002 (1,9% do PIB).


Nossa deteriorada balança comercial fechou o ano com saldo de pouco mais de US$2,5 bilhões, o pior resultado desde 2000. O governo só não jogou o país para déficit na balança devido à criativa operação de se exportar as plataformas de petróleo que nunca deixaram o Brasil. Só isto gerou US$7,7 bilhões em "exportações".


Quem sabe futuramente para acertar nossa balança, vamos exportar os Hotéis do lindo litoral brasileiro para nos ajudar... A barraquinha de água de coco do Seu João em Maceió poderia ser exportada e, mesmo continuando em Maceió, virar... "Johnny Coconut Place - Cayman LLC".


Os números de 2013 mostram que na conta Petróleo nosso déficit foi de US$22,0 bilhões, contra US$5,6 bilhões de déficit em 2012. É fruto do apagão que contamina este governo na área de energias renováveis, onde se optou por destruir a indústria da cana, tal como em Cuba, para favorecer as importações de gasolina, uma tragédia há anos amplamente anunciada pelos ignorados cientistas brasileiros.


Soma-se a isto a acelerada destruição da Petrobrás, cujas ações alcançaram o menor valor em Bolsa desde 2008. Segundo a consultoria Economática, a empresa vale hoje 54,0% do seu patrimônio liquido, o menor valor desde 1999, para tristeza de seu competente corpo técnico. Em 2013 mais uma vez registrou queda na produção. Não entendo, se a empresa tem um Conselho de Administração remunerado, como este não é juridicamente responsabilizado por este fato.


Também fomos contemplados nestes últimos anos com três presentes muito indesejáveis e indigestos. O aumento na taxa de juros, a perda de valor da nossa moeda e consequentemente do nosso patrimônio, e o mais terrível: a volta da inflação. Diferentemente de quem esta no dia a dia brasileiro, quem morou um ano fora do Brasil pode dar sua percepção que a inflação voltou, e voltou forte. Nada disso seria necessário se tivéssemos um projeto de gestão e não de poder, e as consequentes reformas estruturantes tivessem sido parte da agenda.


A sofrível gestão do pesado e complexo Estado e a decorrente a explosão do gasto público deixou nosso governo sem margem para reduzir sua fúria arrecadatória (impostos). Se isto impacta no competitivo agro, imaginem em outros setores, como na indústria e o turismo. De que adiantou o agro exportar US$100,0 bilhões, se a indústria tomou um tombo de US$100,0 bilhões?


Isto tem um custo, e está ligado ao segundo tópico deste mês de janeiro, o polêmico Porto de Mariel. Foi amplamente noticiado o investimento da sociedade brasileira, de praticamente US$1,0 bilhão, via seu banco de desenvolvimento, no Porto de Mariel, em Cuba, inclusive com supostas acusações da falta de transparência deste investimento público.


Ao mesmo tempo em que investimos em Cuba, foram estimadas em cerca de R$4,0 bilhões as perdas dos exportadores em 2013 com as ineficiências na infraestrutura logística brasileira. Estes bilhões sumiram dos bolsos dos produtores, exportadores, donos de pizzaria e imobiliárias, entre outros. É uma perda não apenas do agro, mas de toda a sociedade brasileira. Recursos que foram para o ralo.


Apesar do Banco Mundial ter previsto ao Brasil uma das menores taxas de crescimento entre todos os países analisados, as cadeias produtivas do agro brasileiro continuarão seu forte trabalho em 2014. A CONAB diz que a safra brasileira de 2013/14 será de quase 197 milhões de toneladas. Será um crescimento de 5,2% em relação a safra que terminou (187 milhões de toneladas). Se produzirmos as quase 91 milhões de toneladas de soja esperadas, devemos passar os EUA para ser o maior produtor mundial. A área total deve chegar a quase 56 milhões de hectares, 4,0% maior.


O investimento no Porto de Mariel, além do endosso a um governo ditatorial que afronta os direitos humanos, foi um verdadeiro e humilhante tapa na cara do produtor brasileiro, que deve, em 2014, perder outros R$4,0 a 5,0 bilhões devido à deficiente infraestrutura do Brasil. Nada contra o lindo país e o povo cubano, mas o "retorno a Mariel" é apenas mais um caso de uma absoluta falta de foco e de entendimento deste governo do que é realmente prioridade para a sociedade que tenta produzir no Brasil e não em Cuba.


Termino o conto do "Êxodo e da Volta de Mariel", pedindo ao governo que, por favor, faça uma reflexão e em seguida, um "êxodo" desta agenda dos últimos anos que deteriorou os resultados econômicos e a nossa capacidade competitiva. Caso não exista interesse do governo em trocar a agenda, meu pedido passaria então, à sociedade brasileira, para que possamos fazer em 2014, sem inspiração cubana, mas sim democraticamente, um "êxodo"... deste governo.