Ao longo dos anos, o El Niño foi visto como um período majoritariamente favorável para a agricultura brasileira. Porém, com as mudanças climáticas mais intensas nos últimos tempos, muitos produtores se preocupam com os impactos que esse evento pode trazer para a safra 2026/2027. Com início no final de junho, o El Niño deve prevalecer até o primeiro trimestre de 2027 e trazer consequências tanto para a produção quanto para os consumidores finais.
Convidamos a engenheira agrônoma da CNA, Danyella Bonfim, para comentar o assunto.
O El Niño deste ciclo representa mais uma preocupação ou uma oportunidade para o agronegócio brasileiro, ainda mais pensando nos altos custos de produção para os produtores nos últimos anos?
Danyella Bonfim: Sem dúvida, o El Niño representa um fator adicional de preocupação, especialmente em um momento em que o produtor já enfrenta desafios e dificuldades. É um momento em que ele está com margens mais apertadas, com os custos de produção mais elevados, puxados principalmente pelo aumento dos preços dos fertilizantes, da ração e do frete, que têm sido pressionados por tensões comerciais e geopolíticas acumuladas desde a pandemia.
Então, o produtor já está com os custos mais elevados e uma maior necessidade de capital para financiar a safra. Portanto, qualquer interferência climática que afete as operações, como atraso do plantio, replantio, perdas de produtividade ou qualquer outro tipo de gasto adicional, pode elevar ainda mais esse custo de produção.
No mercado internacional, de que forma os efeitos do El Niño em outros grandes países produtores podem influenciar os preços, as exportações brasileiras e a competitividade do agronegócio nacional?
Danyella Bonfim: O mercado agrícola é muito conectado. Não basta olhar apenas para o que acontece no Brasil, é necessário acompanhar também o que acontece nas outras safras de outros países, principalmente de grandes produtores e exportadores. Se o El Niño provocar perdas em importantes países concorrentes do Brasil, a oferta pode diminuir em nível mundial, os preços podem subir e o Brasil pode até encontrar mais espaço para exportar.
Mas, por outro lado, se esses países tiverem boas safras e o Brasil enfrentar dificuldades climáticas ou grandes perdas, podemos perder certa competitividade. Porém, isso dependerá muito da qualidade do produto, dos custos logísticos, do câmbio, da capacidade de cumprir os contratos e as entregas. Às vezes o preço internacional pode até melhorar, mas, se o produtor brasileiro enfrentar perdas de produtividade e aumento no frete, esse ganho acaba sendo reduzido.
O que é importante destacar é que o Brasil tem um diferencial, que é a diversificação geográfica da produção. Não temos a produção concentrada apenas em uma região, ela é distribuída em várias regiões e isso ajuda a amortecer os impactos, já que dificilmente esse fenômeno vai atingir elas todas da mesma maneira. Logo, essa diversificação reduz os riscos, mas não os elimina.
Como a tecnologia pode ajudar o produtor a minimizar os riscos e manter a produtividade durante esse período?
Danyella Bonfim: A tecnologia ajuda o produtor a tomar decisões com mais informação e menos improviso. Hoje temos previsões meteorológicas, imagens de satélite, sensores, sistemas de alerta e outras ferramentas que chegam com o intuito de ajudar a definir o melhor momento para plantar, aplicar defensivos, acompanhar o desenvolvimento da lavoura e agir mais rapidamente diante do aparecimento de algum problema.
Atualmente, existem cultivares mais adaptadas, mais resistentes e com diversificação de ciclo. Em vez de concentrar toda a área em um único cultivo e em uma única janela, o produtor consegue distribuir melhor esse risco. Na pecuária, temos muita tecnologia que auxilia na questão do sombreamento, da ventilação, do manejo da água, do monitoramento de pastagens e da suplementação mais eficiente.
Não podemos esquecer também das tecnologias de manejo, como o plantio direto, a cobertura do solo e a rotação de cultura. Um solo bem cuidado retém mais umidade e ajuda a lavoura a atravessar melhor períodos de estiagem, causados, principalmente, por interferências climáticas, mudanças nos padrões de temperatura e de chuva diante desses eventos extremos.
O impacto do El Niño deve ser semelhante em todas as regiões produtoras do Brasil ou algumas tendem a ser mais beneficiadas e outras mais prejudicadas?
Danyella Bonfim: Esse é um ponto muito importante, porque o El Niño não age da mesma forma em todo o Brasil. Ele muda os padrões de chuva e de temperatura de forma oposta. Na região Norte e Nordeste, principalmente nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a maior preocupação é com as chuvas abaixo da média. As estiagens são mais prolongadas e faz mais calor, podendo haver redução do nível dos rios, o que pode afetar tanto a produção quanto a logística.
No Centro-Oeste e no Sudeste, o maior risco é a irregularidade na chegada das chuvas para a próxima safra de grãos. Há probabilidade de atraso das chuvas, e esse atraso pode trazer um efeito dominó, pois, atrasando o plantio da soja, a colheita da oleaginosa é empurrada para a frente e a janela ideal é reduzida.
Já no Sul, a questão é o aumento das chuvas, podendo ser positivo quando ocorre de forma bem distribuída e no período ideal para as culturas. Mas quando há excesso, surgem outros problemas, como encharcamento do solo, dificuldade para manejar a cultura e para a entrada de máquinas, aumento de doenças e perdas na colheita.
Portanto, os efeitos do El Niño variam de região para região e podem ser benéficos em determinado momento ou prejudiciais em outros. O impacto vai depender da intensidade e da duração desse fenômeno, bem como da forma como essa distribuição de chuvas vai impactar as culturas no campo.
Se você pudesse dar três recomendações aos produtores para enfrentar uma safra sob influência do El Niño, quais seriam e por quê?
Danyella Bonfim: Em relação às principais recomendações aos produtores, a primeira é, sem dúvida, o planejamento. O produtor precisa olhar para a realidade da sua propriedade, para o histórico da região e conseguir revisar o calendário de plantio, as cultivares e os ciclos utilizados. Não existe uma recomendação para o Brasil inteiro. Os efeitos do El Niño são muito diversificados e variam de região para região.
A segunda recomendação é sobre o monitoramento, pois não adianta olhar a previsão uma vez e tomar a decisão com base nela. O cenário pode mudar rapidamente. É importante acompanhar as previsões de chuva, de umidade, o desenvolvimento da lavoura e a ocorrência de pragas e doenças ao longo da safra.
A terceira é investir em tecnologias e em proteção financeira. O produtor precisa avaliar a questão do seguro rural e as estratégias de comercialização. Portanto, eu resumiria em três palavras: planejamento, monitoramento e proteção. Não dá para o produtor controlar o El Niño. Ele não tem controle sobre essa variável nem sobre o clima, mas pode reduzir a sua exposição aos riscos que ele traz.