Conversamos com Luiz Augusto Dumoncel, administrador e diretor vice-presidente de operações da 3tentos, que conta mais sobre como descobriu nesta brássica uma fonte rica em proteína para alimentação, principalmente, dos bovinos.
Como os programas de biodiesel influenciaram o crescimento da indústria da soja no Rio Grande do Sul e quais estratégias a empresa tem adotado para diversificar sua atuação no agronegócio?
Luiz Augusto Dumoncel: A indústria de soja, que nós temos lá no Rio Grande do Sul, ela iniciou as suas operações em 2013 e ela surgiu, principalmente, pelo biodiesel. O biodiesel, que teve no início dos anos 2000 o estabelecimento do programa de mistura obrigatória no diesel no Brasil, que veio crescendo ao longo dos anos, se tornou fundamental hoje para a nossa indústria da soja e para o produtor de soja, porque a cada 1,0% do biodiesel no diesel significa 3,0 milhões de toneladas a mais de demanda do grão.
Então hoje nós somos dependentes desses programas de biodiesel. No Rio Grande do Sul a gente tem atuado com foco em soja, mas também em outras culturas, como trigo e milho, apesar de nós só sermos revendedores. E nós temos apostado muito nos últimos 2 anos na cultura da canola, que vem para ser a nossa safrinha. O Rio Grande do Sul tem safra de trigo no inverno, tem outras culturas, mas ambas com pouca área, então nós temos acreditado muito na canola.
A canola é uma cultura de inverno então?
Luiz Augusto Dumoncel: Isso, a canola é uma brássica, no “agronomês”, ou uma oleaginosa, ela tem um apelo muito grande nesse período que nós vivemos, de demanda por óleo vegetal puxado, de novo, pelos biocombustíveis. Ela não é uma cultura nova, a canola é uma evolução da colza, que possui um teor de óleo mais baixo, aliás, um teor de ácido erúcico mais baixo. Canola significa Canadian Oil Low Acid, que vem da colza. Esse ácido erúcico mais baixo para se tornar comestível, ele passou por um melhoramento genético – não é uma mudança genética –, e ela é não-transgênica, que gera também um apelo bem importante para os mercados mais exigentes.
Como eu falei, não é uma cultura nova, mas ela não tinha mercado com uma liquidez maior no Rio Grande do Sul, e a 3tentos, no fim de 2024, anunciou que ia trabalhar com ela. O estado vinha em torno de 80,0 a 100,0 mil hectares de produção, e no primeiro ano – inverno do ano passado –, e já agregamos 50,0 mil hectares, através da venda de sementes e venda do insumo, acompanhamento dessas áreas e compra do grão. Isso movimentou o mercado, e hoje felizmente nós temos outras empresas que também estão trabalhando, e vimos uma área que subiu de 100,0 para 200,0 mil hectares no ano passado, e que está previsto atingir 400,0 mil hectares esse ano no Rio Grande do Sul.
E qual que é o percentual de óleo na semente da canola?
Luiz Augusto Dumoncel: O óleo é o dobro da soja, em percentual, ou seja, a soja tem 20,0% de uma tonelada de óleo, uma tonelada de canola, tem 40,0% de óleo.
Então a gente pode falar que ela tem uma produtividade maior de óleo por hectare?
Luiz Augusto Dumoncel: Por tonelada sim, por hectare é igual, porque a produtividade de grão da canola é mais ou menos a metade do que a soja produz. A canola entra num período que o Rio Grande do Sul tem muita ociosidade de área. Arredondando aqui, nós temos 7,0 milhões de hectares de soja no verão, 1,0 milhão de hectares de trigo, 2,0 a 3,0 milhões de hectares de pastagem, e muita área ociosa.
Essa área ociosa que hoje deixa o Rio Grande do Sul menos competitivo comparando com outros estados, porque os outros estados têm a possibilidade de fazer a safrinha, planta a soja e planta o milho safrinha, ou mesmo o sorgo, ou mesmo a possibilidade de fazer uma pastagem de alta qualidade. Então a canola para nós vem a calhar, até porque o trigo tem uma certa limitação. Nós temos esse teto de 1 milhão de hectares, ou em torno disso, e a canola é boa para o produtor porque gera uma renda no inverno.
A canola que era depreciada em relação a soja, hoje tem um prêmio em relação a soja, em torno de 10,0% a 15,0%, então ela tem um custo baixo, tem uma rentabilidade maior, um grau de assertividade bem interessante e é boa para a indústria. Por isso, a 3tentos já está industrializando também a canola, direcionando esse óleo para biodiesel e fomentando o farelo de canola, principalmente, para a pecuária, porque ela tem um apelo muito bom, seja para gado de leite ou para gado de corte.
Me fala um pouco mais desse farelo de canola, você tinha comentado comigo que é uma espécie de “DDG gaúcho”?
Luiz Augusto Dumoncel: Exato. De onde é que veio essa expressão, né? É porque nós temos entendido, até por similaridade de a canola também ser uma oleaginosa, que ela é a “soja do inverno”.
Bom, se nós temos uma “soja do inverno”, nós podemos ter também um “DDG gaúcho”. Nós vimos a transformação que o DDG fez no Centro-Oeste do Brasil, já tinha feito há alguns anos no Mato Grosso, acelerando a intensificação da pecuária. Utilizamos esse ano no Rio Grande do Sul o exemplo do Centro-Oeste e a contribuição que – com certeza, não só o DDG, mas ele tem muita participação nisso – tem transformado o Brasil não só no maior exportador, mas no maior produtor de carne bovina.
Então o gaúcho também pode contar agora com o seu DDG, ou algo assim nessa brincadeira, mas realmente o farelo de canola pode ser um propulsor para a pecuária gaúcha.
Ainda existe algum preconceito com o farelo de canola, pelo fato de a semente da canola ser escura e o farelo sair preto?
Luiz Augusto Dumoncel: O grão da canola é bem miúdo, bem pequeno. Até comentei contigo que a semente é muito pouco por hectare, então o plantio é uma fase difícil, mas os produtores têm dominado isso bastante bem já, e o farelo [de canola], em virtude de o grão ser mais escuro, ele também sai escuro, o que gera esse preconceito seja da fábrica de ração, em especial do produtor, de achar que esse produto está queimado ou que a proteína não está disponível ali.
E nós temos trabalhado para tentar desmistificar isso e o que chama atenção hoje é que ele tem um ponto de proteína muito mais competitivo do que o farelo de soja, tanto é que o Rio Grande do Sul tem exportado para o Uruguai, e eles estão usando esse coproduto em confinamento, em gado de corte. Nós temos no Rio Grande do Sul hoje o mesmo bioma do Uruguai, praticamente o mesmo gado do Uruguai, temos muito mais insumos, matéria-prima para a comida do gado e temos que aproveitar agora essa oportunidade.
Este bate-papo está disponível na íntegra em nosso canal do YouTube. Para saber mais a respeito desta cultura, a relação de troca deste insumo com a soja, e mais, clique aqui e assista.