A carne bovina premium no Brasil atravessa um momento de inflexão. De um lado, a redução da oferta de bovinos e os entraves na reposição pressionam o crescimento imediato. De outro, a demanda global – especialmente por produtos padronizados e de maior qualidade – sustenta expectativas otimistas para os próximos anos. Para entender esse cenário, três agentes da cadeia produtiva, de três regiões diferentes do país, analisam os desafios e oportunidades do segmento, trazendo visões complementares sobre produção, indústria e mercado internacional.
Em um bate-papo no Podcast da Scot Consultoria durante o Encontro de Confinamento e Recriadores, José Leandro Olivi Peres (MT), Umberto Paulinelli (PA) e Luiz Saalfeld (RS), debatem os pontos centrais para a produção de carne de qualidade no Brasil. Neste trecho eles respondem:
Qual é a análise e a projeção para o mercado de carne premium nos próximos anos, considerando o atual ciclo de menor oferta de bovinos?
Luiz Saalfeld (Frigorífico Coqueiro): Ela é de muita escassez. Se a gente olhar para dentro, olha o quanto caiu a venda do semi Angus, por exemplo? Era campeão de vendas. E aí veio aquele discurso: “não, agora é só ‘boi China’, só commodity, só commodity, só commodity”. Isso desregulou o mercado.
Outra coisa, é que a gente tem a carne mais barata do mundo – e não é só a carne, é o boi também. Vocês no Pará sabem bem, olha o volume que sai de boi em pé. E o que sai? Angus. É o que o mercado quer. Então não adianta a indústria querer forçar, o mercado é soberano, ele se regula – e vai se regular cada vez mais.
O desafio é aumentar a cria, fazer o que o Zé [Leandro] faz: aumentar cria, aumentar o desfrute. Porque, do jeito que está, não vai ter produto. Aí o ciclo vem, retém fêmea e o mercado se equilibra de novo.
Agora, na carne premium, falta confiança. O produtor faz o bovino, investe e, quando tem oferta, o frigorífico vai lá e tira a bonificação. A gente ouve isso direto: “ah, o preço subiu, o preço caiu”. Tá bem, mas e aí, tu quer que a carne acompanhe isso no curto prazo? Como é que eu vou ligar para o produtor que está com o boi há 150 dias no confinamento, planejando daqui seis meses, e dizer: “agora virou commodity”? Não fecha.
Então nós, da indústria – principalmente a menor – precisamos tratar isso com mais seriedade. O boi representa 85,0% do custo. É a principal conta que fazemos. E, assim como o consumidor precisa de confiança, o produtor também precisa de constância. Se a gente não fizer o dever de casa, não sustenta.
Porque carne premium não é jogo rápido. Não é igual a outras proteínas. É preciso planejamento, tempo e investimento. Não se faz de uma hora para a outra.
E o Rio Grande do Sul, guardadas as proporções, está vivendo algo parecido com o que vemos nos Estados Unidos: cada vez menos gado. São mais de 200 plantas habilitadas e um rebanho pequeno, com muito bovino indo para exportação. O produtor está bem, mas a indústria precisa se ajustar.
Na commodity, a briga é por preço. Na premium, não dá para pensar assim. São produtos completamente diferentes. É como comparar vinho de US$3,00 com vinho de US$50,00, US$60,00, US$100,00.
José Leandro (JP Meat): Na minha experiência, sei que o que trava o nosso crescimento é o fato de nós não termos frigorífico. Então, com o nosso parceiro, foi concedido de a gente fazer cerca de sete abates por semana, é a minha regra. Então eu não consigo ter esse aumento de entrega. Mas o que a gente consegue aumentar é o faturamento, cada vez melhorar mais os bovinos em termos de marmoreio, de maciez. Só para você ter ideia, hoje a nossa média de 1.000, 1.100 bovinos abatidos são de 350 quilos de carcaça. Então, se eu não consigo aumentar em quantidade de bovinos abatidos, eu tenho que aumentar em produção de carcaça por bovino. E, melhorando cada vez mais para a gente ficar agregando cada vez mais valor.
Uma coisa que nos preocupa muito é a nossa linha ambiental. As maiores fazendas, onde se cria mais bezerro, é onde tem maior quantidade de área. E a gente precisa se unir para mostrar quem nós somos, que nós não somos esses “bandidos” que o pessoal levanta.
Umberto Paulinelli (Frigorífico Rio Maria): Minha opinião sobre esse mercado para o futuro é que nós vamos crescer muito nos próximos anos. Eu acho que vai ser exponencial. Eu gosto de dar os números de China e da Índia. A China, a população da classe A chinesa é de 300,0 milhões de pessoas, que têm o potencial de estar consumindo. E lá na Índia, cerca de 15,0% da população come carne bovina, por causa da religião, mas também é um quilo por pessoa. E isso não é nada. E a Índia ela vai crescer bastante nos próximos anos. Eles estão lá em US$3,0 mil o PIB per capita deles, e eles vão crescer para US$6,0 mil em 10 anos, o que indica um potencial de crescimento de consumo de carne.
E nós estamos falando que a gente está abastecendo o mercado interno, que é um mercado crescente. Se a gente fala que daqui a alguns anos a gente vai começar a exportar esse produto, e nós temos a melhor carne do mundo, agora nós temos acordos com a União Europeia para mandar carnes com tarifas baixas. Olhamos para os americanos, que estão passando por ciclos ruins, estão cada vez mais terceirizando a carne de países como nós. Vamos ficar especialistas nisso. E eles querem o quê? Padronização, sustentabilidade. E a gente tem todos os quesitos para ser o produtor de carne premium do mundo. E nós, que estamos começando nesse mercado, acho que estamos apostando no certo. Vamos ter problema para conseguir achar esse tanto de bovino para abastecer esse tanto de mercado que vai vir atrás dessa carne padronizada nossa. Carne commodity está no hype que está, todo mundo sabe, mas eu acho que vai ter uma transição para esse tipo de carne, porque esses mercados querem carne premium.
A convergência das três visões revela um mercado em transformação. A carne premium tende a ganhar espaço estruturalmente, sustentada por demanda internacional e maior valorização do produto. No entanto, o avanço depende de fatores críticos: fortalecimento da base de cria, previsibilidade na relação indústria-produtor e alinhamento institucional frente a desafios regulatórios. Sem esses ajustes, o risco não está na demanda – mas na capacidade de atendê-la.
No episódio completo, o trio debate outros pontos, como custo de produção, desafios no acesso a recursos de nutrição, como o DDG, e qual o principal interesse do consumidor quando ele procura pela carne premium. Cada um apresentando a realidade de sua região e contando um pouco da história das marcas que produzem em suas propriedades. Clique aqui e assista completo no YouTube.