Em um cenário global marcado por tensões comerciais, mudanças geopolíticas e transformações no consumo de proteína, entender a estratégia brasileira no mercado de carne bovina se torna essencial. Nesse contexto, a Scot Consultoria convidou o presidente da Associação Brasileira das Indústrias da Carne (ABIEC), Roberto Perosa, para compartilhar sua visão durante o Encontro de Confinamento e Recriadores, realizado entre os dias 7 e 10 de abril, em Ribeirão Preto e Barretos.
Em entrevista conduzida pela zootecnista e analista de mercado da Scot, Juliana Pila, o executivo detalha os fatores que sustentam o bom momento da pecuária brasileira, os desafios impostos por mercados estratégicos — como a China — e os avanços na abertura de novos destinos para a carne bovina nacional.
O senhor mencionou que o setor vive um momento muito positivo, com crescimento em produção, produtividade e exportações. Quais foram os principais vetores que sustentaram esse avanço nos últimos anos?
Roberto Perosa: A gente representa a grande maioria dos frigoríficos exportadores do Brasil. Praticamente 99,0% dos frigoríficos que exportam nós representamos. E eu, nesse momento, liderando a ABIEC, vejo que o setor da carne bovina vem passando por um momento muito interessante. Nos últimos anos houve um crescimento muito grande das exportações, do mercado, da produção. Um incremento na produtividade da carne bovina. Então eu acho que nós vivemos um momento muito positivo. O ano de 2025 vem depois de um ano de 2024, por óbvio, mas que foi um ano muito bom. E 2025 conseguiu ser melhor ainda. Então, dois anos muito positivos. E agora 2026 com uma tendência muito positiva também, mas com alguns desafios. Desafios de novos mercados, desafios de mercados que a gente estava acostumado a ter e que hoje tem alguma restrição, seja por decisão daquele país, seja por questão sanitária. Então, são desafios que a gente vem vivenciando e eu trouxe um pouco disso aqui para dividir com o pessoal, para a gente ter uma visão racional do setor e do momento que o setor está passando.
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Mas representando a indústria hoje, eu consigo ver uma grande parceria entre esses dois grandes elos da cadeia da pecuária. Tanto os pecuaristas quanto a indústria frigorífica. E é esse grande elo que faz com que os resultados brasileiros sejam tão positivos. O campo acabou se especificando e se treinando para produzir cada vez com maior precocidade, com maior qualidade e a indústria também se preparou para isso, para bovinos maiores, com maior carcaça, com maior quantidade de carne e para atingir novos mercados também na questão sanitária. Então eu acho que é um grande entrelaçamento de posições entre a pecuária e a indústria frigorífica que traz essa robustez que o setor tem hoje no Brasil.
O Brasil lidera as exportações globais de carne bovina e já atende mais de 170 países. Como tem sido conduzida a estratégia de abertura de novos mercados e o que essa diversificação representa, na prática, para a competitividade e sustentabilidade do setor?
Roberto Perosa: A ABIEC atua, junto aos associados, na promoção da carne bovina brasileira no mercado internacional. A entidade mantém escritório em São Paulo, próximo às sedes das grandes empresas, em Brasília, para tratar de questões regulatórias, e em Pequim, voltado ao principal mercado: a China.
Ao longo do ano, participa de cerca de 15 feiras internacionais e promove outros 15 eventos do tipo Brazilian Beef Dinner, focados em relacionamento com mercados compradores ou em processo de abertura. Também realiza o Brazilian Beef Roundtable, com quatro a cinco rodadas de negócios anuais.
Na China, além de duas feiras por ano, desenvolve o projeto Brazilian Beef and Road, que busca interiorizar a carne brasileira. A estratégia inclui atuação direta com redes regionais de supermercados, associações do setor e governos provinciais, ampliando as alternativas além das grandes importadoras.
Esse modelo também é aplicado em outras regiões. Há avanço no mercado dos Estados Unidos e no sudoeste asiático, especialmente para miúdos. No mercado muçulmano, o Brasil se destaca como maior produtor de carne halal, atendendo exigências religiosas específicas.
A atuação internacional conta com apoio da ApexBrasil e dos próprios associados, enquanto a ABIEC coordena a estratégia global de promoção da carne bovina brasileira.
Existe a percepção de que as exportações competem com o consumo interno de carne bovina no Brasil. Na prática, como se dá essa relação entre os dois mercados e por que eles não concorrem diretamente?
Roberto Perosa: Alguns cortes exportados também são consumidos no Brasil, mas o foco das exportações está no dianteiro do boi — menos valorizado no mercado interno e com alta demanda no Oriente Médio e na Ásia.
Isso se explica pelo padrão de consumo nesses países, onde a carne bovina é mais utilizada em ensopados e produtos processados, e menos em cortes diretos, como o bife. Embora o consumo de steak esteja crescendo, o volume ainda é menor que no Brasil.
Com isso, o dianteiro, que tem pouca demanda interna, é direcionado ao mercado externo, enquanto os cortes nobres do traseiro permanecem majoritariamente no Brasil, com poucas exceções. Esse arranjo cria um equilíbrio: exporta-se o que é mais valorizado fora e mantém-se no país o que tem maior valor interno.
Esse “mix” melhora a remuneração da cadeia, ajuda a diluir custos e dá mais capacidade de resposta à demanda internacional. O setor hoje está bem ajustado, e o principal desafio é evitar descompassos entre mercado interno e externo, mantendo esse equilíbrio.
Em 2025, as exportações foram decisivas para sustentar os preços do boi gordo, mesmo com produção recorde. Diante dos riscos em 2026, como a salvaguarda chinesa e os conflitos internacionais, qual é a estratégia da ABIEC para mitigar impactos no mercado?
Roberto Perosa: A China responde por quase 50,0% das exportações brasileiras de carne bovina, sendo um comprador central. Qualquer redução relevante na demanda — como cortes de 30,0% a 40,0% — gera impacto direto na cadeia pecuária.
Ao longo do último ano, houve intensa negociação com o país, tanto via governo quanto diretamente pelo setor. Ainda assim, a China adotou uma medida de salvaguarda para proteger sua produção interna — lembrando que é o terceiro maior produtor mundial de carne bovina, atrás de Brasil e Estados Unidos.
Com a imposição de cotas, houve uma corrida para antecipar embarques, elevando o abate nos primeiros meses do ano. O principal risco agora está no pós-cota. Após esse período, a carga tributária pode superar 60,0%, quando somados a outros impostos já existentes, tornando a exportação economicamente inviável na maioria dos casos.
A redução estimada de cerca de 600 mil toneladas — equivalente a aproximadamente 3,0 milhões de bovinos — levanta a questão de destino dessa produção. Alternativas existem, como o crescimento das exportações para Indonésia e Estados Unidos, mas ainda insuficientes para compensar esse volume.
O setor tem dialogado com o governo federal para buscar flexibilização das cotas ou revisão da medida, embora reconheça o caráter político da decisão chinesa. Há incertezas relevantes para o segundo semestre, especialmente sobre oferta, preços e capacidade de absorção da produção.
O cenário pode pressionar a arroba do boi e as margens da indústria, que já operam apertadas, afetando o resultado de toda a cadeia pecuária.
Mas qual é a sua visão de forma geral? Ainda é uma visão positiva para 2026, em termos de exportação, em termos de volume?
Roberto Perosa: A expectativa é manter o nível de exportações, com uma eventual queda marginal de 3,0% a 4,0%. O setor trabalha diariamente para sustentar esse volume, inclusive com auditorias em novos mercados nas próximas semanas, o que reforça a confiança em avanços no curto prazo.
O cenário global é favorável à carne bovina brasileira. Os principais concorrentes enfrentam ciclos pecuários baixos — a Europa no menor nível em 30 anos e os Estados Unidos em 80 anos — enquanto o Brasil segue relativamente estável, com possível recuo limitado de até 2,0% ou 3,0%.
Isso cria uma oportunidade: diante da escassez global, o Brasil tende a ser o principal fornecedor. Além disso, há uma mudança no padrão alimentar, com maior valorização das proteínas, especialmente a bovina, o que sustenta uma demanda crescente.
Por outro lado, é preciso atenção às questões geopolíticas, como conflitos e decisões comerciais que podem afetar o setor. A agenda prioritária é ampliar a inserção do Brasil nas negociações internacionais, evitando prejuízos mesmo em um cenário de demanda aquecida.
O setor segue otimista. O Brasil reúne competitividade, escala e sustentabilidade para atender mais de 177 países, gerando renda e mais de 7,0 milhões de empregos. O desafio é garantir que fatores externos não comprometam esse potencial.
Olhando além do cenário atual, quais são os mercados prioritários para a carne bovina brasileira e quais os próximos passos na estratégia de abertura e consolidação desses destinos?
Roberto Perosa: A ABIEC trabalha na abertura de quatro mercados estratégicos: Turquia, Vietnã, Coreia do Sul e Japão.
O Vietnã já foi aberto, mas ainda está em fase de habilitação de empresas e construção de mercado. O consumo local é majoritariamente de carne bubalina, o que exige mudança gradual de hábito, embora exista potencial relevante de importação.
Na Turquia, o avanço esbarra em exigências sanitárias consideradas incompatíveis com o atual status brasileiro de livre de febre aftosa sem vacinação. As negociações seguem, diante do interesse em um mercado com forte consumo, impulsionado pelo turismo.
O Japão é uma negociação de mais de 20 anos e está em fase final. A abertura inicial deve contemplar apenas estados do Sul, embora o setor defenda ampliação. Trata-se de um mercado de cerca de 700 mil toneladas, hoje dominado por Estados Unidos e Austrália. A estratégia brasileira é atuar no fornecimento de carne para processamento, sem competir com produtos premium locais.
A Coreia do Sul segue lógica semelhante, com importações entre 500 mil e 600 mil toneladas anuais. O Brasil pretende atuar de forma complementar, atendendo a indústria local.
A abertura desses mercados pode ampliar a diversificação das exportações brasileiras. No médio e longo prazo, a África também surge como potencial destino, com tendência de aumento no consumo de proteína.
Juliana Pila: Diante das exigências crescentes do mercado internacional, como o Brasil tem trabalhado para fortalecer a imagem da carne bovina em termos de sustentabilidade, rastreabilidade e competitividade?
Roberto Perosa: Temos grande potencial de crescimento e seguimos trabalhando na promoção da carne brasileira, além de desmistificar críticas de concorrentes. Não utilizamos hormônios na produção e a questão do desmatamento está sob controle.
As empresas exportadoras, especialmente as ligadas à ABIEC, que representam 99,0% do setor, estão em conformidade com as exigências legais e metodológicas do país.
O setor conta com um novo arcabouço jurídico, incluindo o Plano Nacional de Individualização Bovina, conduzido pelo Ministério da Agricultura, com implementação prevista até 2032. Também há a Plataforma Agro Brasil Mais Sustentável, que garante a rastreabilidade socioambiental da produção.
Com isso, o Brasil reúne argumentos sólidos para demonstrar a sustentabilidade, a eficiência produtiva e a competitividade da sua carne, contribuindo para a segurança alimentar global.
Esta é uma versão resumida da conversa entre Roberto Perosa, presidente da ABIEC, e Juliana Pila, analista de mercado da Scot Consultoria. Para saber de todos os detalhes desse papo, clique aqui.