Para compreender as tendências e os desafios atuais da cria brasileira, a Scot Consultoria conduz o Circuito Cria uma pesquisa-expedicionária, realizada a campo, com visitas presenciais a propriedades de diferentes regiões do país. O levantamento reúne dados técnicos presencialmente em propriedades que fazem parte da vanguarda da cria brasileira, avaliando indicadores produtivos, estratégias nutricionais, manejo e nível tecnológico adotado nos sistemas de cria. É importante destacar que as propriedades participantes são referências em suas regiões, portanto, apresentam maior nível de gestão, organização e tecnificação, que a média da pecuária nacional.
Dentro desse contexto, a entrevista aprofunda pontos centrais revelados pelo Circuito Cria, como desmistificar a percepção de que “nas águas o capim resolve”, questionando tecnicamente possíveis limitações nutricionais mesmo em períodos de alta oferta de forragem. A conversa com Emanuel Oliveira, zootecnista e gerente de produtos ruminantes da Trouw Nutrition, também aborda o avanço da suplementação estratégica, especialmente diante da valorização do bezerro e da busca por precocidade reprodutiva, além dos desafios operacionais que ainda limitam a intensificação nutricional. Os dados mostram uma cria cada vez mais orientada por metas de desempenho e eficiência, em que a nutrição deixa de ser apenas suporte e passa a assumir papel estratégico na construção de sistemas mais competitivos e sustentáveis.
Existe a percepção de que nas águas “o capim resolve”. Do ponto de vista técnico, quais nutrientes ainda podem estar limitantes nesse período, mesmo com alta oferta de massa verde?
Emanuel Oliveira: Eu acredito que nós temos alguns pontos a serem ponderados. Dentre eles, é que nós estamos inseridos majoritariamente em uma zona tropical, que representa cerca de 92,0% do território brasileiro. Então, nós exploramos cultivares que são especificamente dessa região e nem sempre elas apresentam níveis de proteína suficiente para atingir as exigências máximas de desempenho do rebanho.
Embora associemos que no período de chuvas temos características nutricionais ricas das forrageiras, muitas vezes podem ocorrer deficiências, por exemplo, de proteína e de energia. Isso está muito relacionado também a capacidade de conduzir um bom manejo desse pasto. Talvez seja um dos principais gargalos: saber utilizar e manejar bem as pastagens.
E reforçando, esse erro de manejo pode proporcionar talvez a menor eficiência de utilização dos pastos, às vezes até fazendo com que passe do período adequado para a entrada dos bovinos no consumo. E aí pode ser que tenhamos uma redução da quantidade de proteína, redução da quantidade de energia e aumento da quantidade de fibra. Isso vai ser muito mais evidente no período da seca, mas são aspectos que a gente pode ponderar e relacionar no período de águas.
Com a valorização do bezerro e o avanço da tecnificação na cria, é perceptível uma mudança no comportamento do criador em relação à suplementação nas águas? Quais fatores técnicos e econômicos indicam que essa prática está deixando de ser pontual nos sistemas mais competitivos?
Emanuel Oliveira: A valorização do bezerro é importante para que o pecuarista seja estimulado em acrescentar tecnologias e investimentos na propriedade. No entanto, acho que em alguns pontos são necessários ponderações, quanto à inclusão tecnológica. Quando falamos de aumento do nível tecnológico da suplementação, não se trata apenas da capacidade de investimento, mas também da capacidade operacional da propriedade. Em alguns casos é muito difícil – principalmente em fazendas de cria onde a extensão de área é muito grande –, fazer a aplicação desse tipo de suplementação. É claro, que as grandes fazendas, já muito bem-organizadas, conseguem ter uma gestão melhor de aplicação desses recursos, mas ainda assim eu noto uma certa dificuldade. E não necessariamente é preciso fazer isso, uma opção é seguir esse processo com um nível tecnológico um pouco mais baixo, por exemplo, adicionando suplementos com aditivos, não alterando a disponibilidade de cocho. Alguns outros alimentos ou suplementos podem ser trabalhados como, por exemplo, o que conhecemos no mercado como os adensados, também são uma das alternativas ao início de um processo de aumento tecnológico na suplementação, mantendo os padrões próximos do que, em muitos casos, as fazendas já estão trabalhando.
A pesquisa-expedicionária Circuito Cria mostra que 60,0% das novilhas regulares recebem apenas sal mineral nas águas, intensificando a dieta apenas na seca. Considerando que essas fêmeas são a base do futuro rebanho e que estamos falando de sistemas intensificados, essa estratégia de “corrigir depois” é biologicamente eficiente?
Emanuel Oliveira: O que precisamos pensar? Talvez seja no contexto global de como nós temos essas novilhas no período de águas. Não necessariamente a suplementação mineral no período de águas faz com que o animal não tenha ganho de peso em razão das características próprias de manejo da pastagem. É um dos pontos que nós temos que observar. Em muitos casos existe a capacidade de manejo de pastagem, cultivares muito bem selecionados, ou uma possibilidade desses bovinos manterem ganhos de peso adequado. Talvez a suplementação no período de águas para as novilhas em pastagens de melhor qualidade pode ter como base também a inclusão de minerais aditivados, podendo aumentar ganho de peso até em 90,0 gramas por dia, por exemplo. Agora, se temos um problema crônico de manejo de pasto, então temos que pensar em um respaldo diferenciado dentro desse plano nutricional para mitigar esse problema de suplementação. E aí, podemos vir com proteicos, proteicos energéticos, para que na seca eu tenha condição de manter o escore corporal ou ganho progressivo de peso durante esse período, dependendo do objetivo que eu tenho de ganho de peso dessas novilhas e até onde eu quero levar elas.
A pesquisa ainda mostra que 78,0% das propriedades já trabalham com nulíparas precoces entre 12 e 16 meses, evidenciando a busca por precocidade do rebanho. Dentro desse grupo, metade das fazendas já utiliza suplementação proteinada nas águas. Essa diferença de abordagem entre categorias, indica que a nutrição deixa de ser suporte e passa a ser ferramenta direta de antecipação reprodutiva?
Emanuel Oliveira: Temos um ponto específico de incremento tecnológico para aumento dos índices reprodutivos do rebanho, que é uma categoria sendo antecipada à reprodução. Nesse caso, a preparação desse bovino é completamente diferente do que a manutenção de fêmeas multíparas ou até outras categorias como primíparas convencionais. Então, nós temos que efetivamente acelerar esses animais no ganho de peso para que elas tenham capacidade corporal e reprodutiva para emprenhar, e posteriormente fazer a manutenção do ganho de peso para que elas tenham a formação adequada do corpo posteriormente ao nascimento, e pensando que elas precisam continuar crescendo e concebendo novamente. Portanto, realmente, quando falamos de primíparas – ou melhor, nulíparas precoces –, precisamos realmente respaldar nutricionalmente esses bovinos. É um rebanho ou uma categoria completamente diferente do que estamos acostumados e exige, nesse sentido, manter planos nutricionais de intensidade tecnológica mais elevada.
A pesquisa mostra que a mão de obra é o principal gargalo para introdução de tecnologias nutricionais nas fazendas (30,2%), superando o próprio custo dos insumos (23,3%). Como estruturar modelos de suplementação nas águas que combinem eficiência nutricional, previsibilidade de consumo e simplicidade operacional?
Emanuel Oliveira: Esse é um dos pontos mais desafiadores de abordar, porque a introdução de tecnologias nutricionais, especialmente quando falamos de suplementos proteicos ou proteico-energéticos, naturalmente aumenta o volume de suplemento fornecido e, consequentemente, a demanda por mão de obra e organização operacional.
Por isso, a primeira estratégia não é simplesmente ampliar a suplementação, mas definir com precisão quais categorias realmente necessitam desse nível tecnológico. A seleção criteriosa de lotes e indivíduos permite direcionar a suplementação para grupos estratégicos, reduzindo o impacto operacional sobre toda a fazenda.
Em vez de adotar uma suplementação única para todos os animais, o caminho mais eficiente é estruturar um modelo segmentado, alinhado aos objetivos de cada categoria, de cada rebanho e de cada unidade produtiva.
Diante desse cenário revelado pelo Circuito Cria, a suplementação nas águas tende a se consolidar como componente estrutural da cria competitiva? O que vai diferenciar, nos próximos anos, o produtor que suplementa estrategicamente daquele que apenas fornece produto quando o escore cai?
Emanuel Oliveira: Eu acredito que a tendência é termos uma intensificação cada vez maior da suplementação nas águas, sempre respeitando a capacidade operacional e estrutural de cada propriedade. Nós vamos ter uma suplementação mais estratégica, focando nos objetivos de cada lote e nos objetivos da propriedade em si.
Isso envolve organizar bem a capacidade de suporte das pastagens, definir o tipo de suplementação adequado para cada categoria e integrar essa estratégia ao planejamento da seca, para que esses bovinos mantenham a condição corporal adequada para a próxima estação de monta.
Nos próximos anos, o que vai diferenciar o produtor será a capacidade de gerar resultado consistente e sustentável dentro da fase de cria. Permanecer competitivo exigirá estar atento ao mercado, abandonar a postura mais negligente que historicamente marcou parte da atividade e tratar a cria como base estruturante da pecuária, aplicando tecnologia com critério e propósito.
Para entender mais sobre a pesquisa-expedicionária Circuito Cria e receber a equipe em sua propriedade acesse o site.