Criados em 2021, os Fundos de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (FIAGROs) vêm ganhando espaço como uma alternativa de financiamento e investimento no agronegócio brasileiro. Em um contexto marcado pela ampliação do crédito privado, mudanças no perfil dos investidores e maior sofisticação dos instrumentos financeiros do setor, esses fundos passaram a ocupar um papel estratégico na conexão entre o mercado financeiro e as cadeias agropecuárias. Nesta entrevista com o Prof. Dr. Cássio Arruda Boechat, são discutidos o funcionamento dos FIAGROs, suas diferenças em relação a outros fundos, os riscos envolvidos, os critérios de estruturação e as perspectivas para o segmento nos próximos anos.
O que é um FIAGRO? E qual a importância dele em 2025 e nos próximos anos para o agronegócio?
Cássio Boechat: Os FIAGROs são fundos de investimento das cadeias agropecuárias. Eles foram criados em 2021 e têm captado recursos por investimentos que compram cotas desses FIAGROs e também estão captando ativos no agronegócio, que são basicamente ativos de dívidas privadas do agro. Mas também existem FIAGROs que têm adquirido propriedades privadas e negociado arrendamentos, que são os FIAGROs de terra.
São esses dois tipos de FIAGROs, basicamente: FIAGROs de dívidas, de direitos creditórios e FIAGROs de propriedades, de terra. Eles têm crescido bastante em termos de patrimônio acumulado, e hoje em dia já estão superando os R$40,0 bilhões.
Então, essa é a atualidade, o cenário mais básico em 2025. E existe uma perspectiva para os próximos anos de continuar crescendo esse patrimônio, inclusive pelas mudanças recentes que permitem a entrada, por exemplo, de fundos de pensão que podem investir em cotas de FIAGROs. Então, apesar de ter tido a crise do ano passado, nos próximos anos pode ser que haja uma mudança nas composições dos investidores dos FIAGROs e nos ativos que eles têm nas carteiras, porque eles estão tendendo a adquirir CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) e propriedades de diversos – que são certificados de recebíveis do agronegócio e propriedades de diversos setores em diversas regiões e lugares do Brasil. Então a importância tende a crescer, apesar de ser um sistema que tem um potencial de crise bastante grande.
Por que uma pessoa física investiria em FIAGRO ao invés de em um fundo imobiliário de galpão logístico, que é mais seguro?
Cássio Boechat: Os FIAGROs são fundos que são espelhados na engenharia dos fundos imobiliários, os FIIs. Ao contrário dos FIIs, que são majoritariamente remunerados pelo IGP-M, que é o índice que mede os preços e a inflação, os FIAGROs são todos remunerados, ou quase todos, pela taxa Selic. Então tem uma diferença de tipos de remuneração. E com taxas de juros altas no Brasil, os FIAGROs se tornaram, em algum momento, mais atrativos do que os FIIs porque a inflação foi, de certo modo, controlada. Mas isso é muito volátil no Brasil e a gente pode ver o cenário mudando a partir desse ano com a queda da taxa de juros, com os FIAGROs tendo uma remuneração um pouco menor.
A presença do financiamento público vai ser cada vez menor? Quais os riscos para o produtor, olhando para financiamento privado? E o outro lado da moeda, quais os riscos ao cotista?
Cássio Boechat: Não é que o financiamento público vai se tornar cada vez menor, a gente vê, comparativamente, isso acontecendo, mas não em termos absolutos. Então, os números do financiamento público – a quantidade de recursos que são destinados para o Plano Safra –, tem só aumentado nos últimos anos. Isso indica que o financiamento público continua presente e muito importante para os diversos setores do agronegócio. Agora, essas novas formas de financiamento privado por meio de títulos de dívida como LCAs, CRAs, FIAGROs, etc., inclusive, a partir de 2021, de fato, tem aumentado os estoques desses tipos de dívidas privadas, de financiamento privado superando os montantes do Plano Safra. Então é nesse sentido que, proporcionalmente, o financiamento privado está aumentando e superando o financiamento público, mas não quer dizer que o financiamento público está deixando de existir ou diminuindo. Essa questão implica em uma dinâmica muito diferente do que significa pegar dinheiro com o Estado e pegar o dinheiro com um fundo do mercado financeiro. Tem diferenças de tipos de cobrança, tem relações com agentes que são bastante diferentes.
Como os FIAGROs podem sobreviver as crises? O que pode ser feito para mitigá-las?
Cássio Boechat: Sobre a crise dos FIAGROs e a continuação dos FIAGROs após a crise, ou durante a crise, isso se respeita a uma lógica que se instaura, então não é uma crise momentânea que vai fazer esse tipo de aposta do mercado financeiro deixar de existir, mas tem de fato uma reacomodação de todos os agentes e dos ativos. E nesse momento parece que os FIAGROs não são um bom investimento, mas pode ser que as coisas mudem e com a entrada de grandes investidores institucionais e com investidores, inclusive estrangeiros, os FIAGROs possam em breve vir a ser uma porta de entrada para grandes grupos que vão, de certo modo, tomar conta das dívidas do agronegócio. Isso é uma possibilidade, né? A gente não sabe ainda o que vai vir a partir desse ano e dos próximos anos, mas me parece que não é a crise de 2024 que vai desmontar, desestruturar completamente essa aposta que está sendo feita em torno dos FIAGROs.
O que diferencia um FIAGRO bem estruturado de um FIAGRO frágil? Quais indicadores o investidor deve observar — como governança, lastro, originação de crédito e alinhamento de incentivos — antes de investir?
Cássio Boechat: É difícil dizer em termos muito rápidos o que é um FIAGRO bem estruturado e um FIAGRO frágil. De uma maneira geral, tem que ver quais são os ativos que esses FIAGROs têm e qual é o capital patrimônio-líquido que ele acumulou dessas duas pontas. Então, na ponta dos ativos isso vai depender da diversificação dos ativos, em que grupos ele está financiando e, nesse sentido, o grau de inadimplência, as recuperações judiciais e todo esse cenário podem impactar alguns desses ativos. Então, depende muito se esse ativo representa bastante na carteira. Isso que está acontecendo agora com a crise, que é uma espécie de “coisa de conhecimento geral”, de que tem que ter ativos diferenciados em diversos lugares, de empresas diferentes, de setores diferentes, para, de certo modo, um ativo que seja problemático ser diluído numa carteira de outros ativos que não são problemáticos. Então, essa é a lógica de um FIAGRO bem estruturado. Aquele que sabe lidar com esses momentos em que alguma coisa dá errada e se ele tem poucos ativos, ou ativos que são muito grandes dentro da sua carteira, e esses ativos dão problema, nesse momento isso vai contaminar todo o seu portfólio. Por isso, tem que se pensar com essa lógica. Mas ás vezes, isso não está sendo muito flexível. Essa governança vai por esse caminho de não conseguir prever tudo, porque algumas crises são mais sistêmicas, setoriais, que impactam muitos ativos ao mesmo tempo. E nesse sentido, tem um limite do que um gestor de FIAGRO consegue prever e fazer nessa boa gestão. Mas ao mesmo tempo, isso indica que tem uma tendência de que os FIAGROs cresçam para também lidar com crises grandes como essa que teve em 2024, principalmente com ativos relacionados aos grãos – a soja, principalmente –, que teve uma queda de rentabilidade muito grande. Então, é por aí que a gente pode comparar os FIAGROs, né? FIAGROs que tinham muitos ativos em torno desse setor vão ser mais impactados, né? E se ele tem outros ativos em outros setores, em outras realidades, ele pode, de certo modo, passar um pouco melhor por crises como essas.
Existe um “perfil ideal” de investidor para FIAGROs? Em que cenário macroeconômico e de mercado esse tipo de fundo tende a performar melhor — e quando ele pode decepcionar?
Cássio Boechat: Não diria que existe um perfil ideal de investidor para FIAGROs. Eu diria que está havendo uma mudança no perfil do investidor de FIAGROs. No primeiro momento, eles eram majoritariamente pessoas físicas, pequenos investidores de classe média urbana que estavam investindo em FIAGROs, muito por conta de uma ideia bastante geral no Brasil de que o agronegócio é o “carro-chefe” da economia nacional. Bom, esses investidores tinham pouco conhecimento sobre o mercado financeiro e, também, sobre as dinâmicas do agronegócio. E neste momento, após a crise, a gente vê uma tendência que ainda precisa ser confirmada, de que os investidores de pessoas físicas estão deixando de ser majoritários e os investidores institucionais, fundos de pensão, e investidores estrangeiros têm se tornado majoritários abocanhando, por assim dizer, maior parte dos patrimônios líquidos das cotas desses FIAGROs. Então, tem uma mudança em curso do tipo de investidor que está investindo em FIAGROs. Isso é uma tendência, mas que eu não diria que é o investidor ideal. Só estou apontando a partir dos cenários que a gente vai vendo nos dados que são fornecidos pela CVM, pela Anbima e pela B3, a Bolsa de São Paulo.
A trajetória recente dos FIAGROs mostra que, apesar dos desafios e das crises enfrentadas, esse instrumento tende a permanecer como parte estrutural do financiamento do agronegócio. O avanço do crédito privado, a entrada gradual de investidores institucionais e a diversificação dos ativos apontam para um mercado em transformação, com maior exigência de governança, gestão de risco e transparência. Para investidores e agentes do setor, compreender essas dinâmicas torna-se fundamental para avaliar oportunidades, limitações e o papel que os FIAGROs podem desempenhar em diferentes cenários econômicos.