Diogo Fleury, engenheiro agrônomo e professor na USP, compartilha sua experiência de mais de dez anos na Austrália, oferecendo uma visão sobre as principais diferenças entre a pecuária brasileira e a australiana. Em entrevista à Scot Consultoria, ele destaca os desafios climáticos, o uso avançado de tecnologia e a escassez de mão de obra na Austrália, além de comentar sobre as recentes taxações norte-americanas no mercado global da carne bovina.
Scot Consultoria: Diogo, o que você destacaria como as principais diferenças entre a pecuária brasileira e a australiana?
Diogo Fleury: Eu diria que a pecuária australiana tem mais similaridades do que diferenças em relação à pecuária brasileira. Inclusive, o perfil do pecuarista australiano lembra muito o do brasileiro - no jeito de ser.
Mas, é claro, há diferenças importantes, especialmente quando falamos do clima. Cerca de dois terços da Austrália são áreas semiáridas, com menos de 600mm de chuva por ano, ou seja, são regiões naturalmente menos produtivas, com uma taxa de lotação bem mais baixa e escassez significativa de mão de obra.
Eles operam em sistemas de produção de grandes extensões e com poucas pessoas. Por isso, uma das principais diferenças que destaco é justamente o uso de tecnologia e a eficiência no uso da mão de obra, que é bastante limitada. Se aqui já enfrentamos dificuldades nesse aspecto, lá a situação é ainda mais desafiadora - é dez vezes pior.
Desde a minha primeira visita à Austrália, em 2004, me chamou atenção o número reduzido de pessoas no campo. Atividades simples do manejo de gado, por exemplo, são feitas de forma bastante diferente do que vemos no Brasil. Lá, muitas vezes um único vaqueiro conduz o rebanho. Nada daquela imagem comum por aqui, com várias pessoas tocando o gado ou um time inteiro no curral durante o manejo.
Essa escassez de mão de obra exige soluções inteligentes. Os currais, por exemplo, são pensados para permitir maior eficiência com menos gente - verdadeiros currais “inteligentes”. E quando falo em tecnologia, me refiro tanto às soluções mais simples, como o bom aproveitamento da estrutura existente, quanto às inovações mais recentes, que estão saindo.
Então, o uso de plataformas para pesagem de animais de forma remota está mais avançado por lá. Esse tipo de tecnologia tem evoluído bastante. Coisas que hoje são comuns no Brasil, como a realização de leilões virtuais, na Austrália sempre foram parte da rotina. Desde a primeira vez que estive lá, em 2004 - já faz mais de 20 anos - isso era muito frequente. E isso se deve, principalmente, ao isolamento geográfico desses pecuaristas em relação ao restante da população, que está concentrada nas regiões litorâneas do país.
Scot Consultoria: Quais são os principais desafios que a pecuária australiana tem enfrentado nos últimos anos?
Diogo Fleury: Quando se trata da ciência ligada às pastagens a forragicultura - o Brasil está anos-luz à frente da Austrália. E isso faz todo o sentido. Nossa pecuária é majoritariamente baseada na produção a pasto, com gramíneas C4 altamente produtivas, favorecidas pela alta pluviosidade em grande parte do território nacional.
Aqui, falamos de taxas de lotação da ordem de uma unidade animal por hectare (UA/ha) mesmo em sistemas pouco intensificados. E, quando se adota adubação nitrogenada e boas práticas de manejo de pastagens, essa lotação pode facilmente quintuplicar ou até mais.
Na Austrália, a realidade é bem diferente. Cerca de 60,0% a 65,0% da pecuária de corte está concentrada na região Norte do país, uma área com pluviosidade extremamente baixa e, consequentemente, taxas de lotação muito inferiores às nossas. Em muitos casos, estamos falando de uma cabeça de gado para cada 50 hectares.
Claro que isso varia conforme a localidade e a estação do ano, mas a baixa disponibilidade de forragem é um aspecto marcante da pecuária australiana. Tanto é que, por lá, as recomendações de manejo sugerem utilizar apenas de 20,0% a 25,0% da massa de forragem disponível - algo muito abaixo do que praticamos no Brasil. Essa abordagem se assemelha mais ao pastejo diferido, usado aqui principalmente para manejar pastagens na estação seca, como no inverno.
Essa é a realidade do pecuarista australiano. Eles até tiveram, sim, alguns nomes de peso na pesquisa com manejo de pastagens, a maioria deles concentrada no Sul do país. No entanto, esse tipo de trabalho foi feito em regiões menos expressivas do ponto de vista da pecuária de corte.
Scot Consultoria: Diante das recentes taxações impostas pelo governo americano, você acredita que Austrália teria condições de suprir integralmente a demanda norte-americana por carne bovina?
Diogo Fleury: As taxações impostas por Trump criam muita incerteza, e ninguém sabe exatamente o que vai acontecer, nem mesmo ele.
Sobre a possibilidade de a Austrália suprir a demanda norte-americana, talvez. A Austrália sempre teve os Estados Unidos como um dos destinos históricos da sua carne. Lá atrás, já havia esse fornecimento de carne - especialmente carne mais barata - para os americanos, e isso ainda acontece hoje.
Agora, se a pergunta for se a Austrália conseguiria atender a demanda mundial, aí a resposta é fácil: com certeza não. Apesar de ser um dos maiores exportadores globais, eles exportam quase tudo o que produzem. A Austrália representa apenas cerca de 4,0% a 5,0% do volume total de carne bovina exportada no mundo.
Eles são reconhecidos como grandes exportadores, sim, mas em volume têm uma expressão muito menor do que o Brasil. O Brasil, na década de 90, quando eu era aluno, era chamado de o futuro celeiro do mundo... e hoje, é o celeiro do mundo. A Austrália é, sim, relevante - tem uma produção expressiva e exporta bastante - mas é um país semiárido, com limitações naturais. Por isso, tem focado muito em nichos específicos: carne de qualidade, rastreada, livre de doenças, diferenciada.
Eles sabem que, se forem competir com o Brasil em volume, vão perder. O Brasil tem um custo de produção muito menor e trabalha com carne commodity. O que dá para afirmar no momento é que, com o Trump fazendo o que anda fazendo, tudo fica muito incerto.