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Produção e uso estratégico de silagem

por Naiara Caixeta da Silva
Segunda-Feira, 21 de Junho de 2021 - 18h00


Graduada em Zootecnia pelo Centro Universitário de Patos de Minas, Naiara realizou mestrado em Zootecnia pela Universidade Federal de Lavras e doutorado em Zootenia pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV). Ela também é pós-doutora pela FCAV/Unesp, na área de avaliação de alimentos.



Atualmente, é professora na Universidade Federal de Goiás, na área de forragicultura e pastagens.



Scot Consultoria: Com o preço dos alimentos concentrados nos patamares atuais, de que maneira o uso de volumosos, silagens, principalmente neste momento de pastos secos, pode atuar como estratégias para o pecuarista?



Naiara da Silva: Com a redução da precipitação, luminosidade e temperatura em muitas regiões do Brasil no período seco do ano, se inicia a estacionalidade da produção de forragem. Momento que gramíneas forrageiras reduzem sua capacidade produtiva e qualidade nutricional, sendo necessário a suplementação das dietas de ruminantes criados em pasto.



Atualmente vivemos um cenário de preços altos dos ingredientes convencionais dos concentrados. Com isso, o valor nutricional das fontes de volumoso tem ganhado muito destaque, uma vez que, quanto maior o valor nutricional da fonte de volumoso, menor a inclusão do concentrado.



A estratégia de conservação de milho, sorgo, cana-de-açúcar e capins pela técnica da ensilagem, no momento que apresentam elevado valor nutricional e alta produtividade, permite a preservação da cultura por longos períodos de armazenamento. Assim, as silagens podem ser usadas na dieta de ruminantes não só durante o período seco, mas durante todo o ano, no caso de animais estabulados. A silagem de alta qualidade na dieta de ruminantes é fonte de energia e supre parte da demanda por nutrientes. Portanto, silagens de alta qualidade podem contribuir para a redução da inclusão de concentrado na dieta. 



Scot Consultoria: Qual o principal momento para o preparo de uma boa silagem? Quais pontos para o preparo da silagem o pecuarista não pode ignorar?



Naiara da Silva: Os preparativos para obter silagens de qualidade e em quantidade suficiente para suprir a demanda da propriedade dependem de um bom planejamento em todas as etapas de produção.



O primeiro passo é determinar a quantidade de forragem necessária para alimentar o rebanho no próximo período de utilização, que pode ser apenas o período seco ou o ano inteiro, dependendo da atividade da fazenda. É importante salientar que existem perdas no processo fermentativo, no processo de ensilagem e durante a utilização. Essas perdas variam entre fazendas. Portanto, ao estimar a demanda de forragem, é preciso levar em consideração essas perdas. O levantamento de demanda é necessário não só para planejar o plantio, mas também para determinar o dimensionamento dos silos.



Dependendo dos objetivos, atividade produtiva da fazenda e potencial das áreas de cultivo, é feita a escolha da cultura a ser implementada. Em seguida é feito o mapeamento das áreas de cultivo e realizadas as análises de solo afim de fazer as correções necessárias e o planejamento da compra dos insumos agrícolas. É interessante que isso seja feito ainda no primeiro semestre do ano. Esse planejamento pode impactar, em produtividade e custo, a produção da silagem.



O acompanhamento técnico das lavouras ajuda a manter qualidade e produtividade da cultura. Contudo, o monitoramento da matéria seca da planta na colheita é chave para a obtenção de forragem de qualidade e um processo de fermentação adequado para a cultura. No geral, a colheita para silagem de planta inteira deve ser realizada quando a cultura estiver entre 30 e 35% de matéria seca, exceto capins. A eficiência de quebra dos grãos nas silagens de milho e sorgo é também fundamental para aumentar a digestibilidade do amido dos grãos e, consequentemente, a qualidade final da silagem.



Outros dois pontos de destaque são os processos de compactação e vedação dos silos. Esses processos ajudam a manter um ambiente ideal para a fermentação do material ensilado e a conservação por longos períodos. A utilização de trator, com peso correspondente a 40% do total de forragem que chega por hora no silo e de lona plástica de alta qualidade, de preferência com alta barreira ao oxigênio, são boas ferramentas para melhorar esses processos.



Scot Consultoria: Como os inoculantes podem contribuir para uma melhora na qualidade de forragem? Há alguma indicação de inoculante que apresente um melhor custo-benefício para fabricação de silagem?



Naiara da Silva: Hoje existem diversos tipos de aditivos químicos e microbianos que podem ser utilizados com o intuito de melhorar o processo de fermentação e reduzir desenvolvimento de microrganismos indesejados. Isso contribui para redução das perdas e melhora a qualidade nutricional e higiênica das silagens.



Contudo, a escolha do inoculante deve ser baseada em um estudo do perfil da cultura para identificar as necessidades de melhorias no processo de ensilagem. Gosto do termo “utilização estratégica de aditivos na ensilagem”. A recomendação do aditivo deve ser realizada principalmente de acordo com o perfil da cultura, mas também é necessário observar o tipo de silagem (silagem de planta inteira ou silagem de grãos), o perfil e as principais dificuldades de manejo da propriedade, como por exemplo, lentidão no desabastecimento. Esse conjunto de fatores é usado para a tomada de decisão da necessidade de uso de aditivos e do melhor tipo de aditivo. 



Não devemos esquecer da importância de manter a qualidade em todas as etapas do processo de ensilagem. Com destaque para a realização da ensilagem com teor de matéria seca ideal para a cultura, boa compactação e vedação. Erros nessas etapas podem comprometer a qualidade da silagem e aumentar as perdas. E, nessas circunstâncias, o uso de aditivos pode até minimizar as perdas, porém pode não neutralizar completamente os efeitos negativos.



O custo-benefício do aditivo é medido pela sua eficiência em reduzir as perdas, manutenção do valor nutricional da cultura e obtenção de uma silagem com qualidade higiênica. Dose e homogeneização durante a aplicação também podem determinar o sucesso da sua utilização e a extensão dos resultados.



Diante do exposto, uma recomendação generalista pode não atender as necessidades do produtor. Portanto, o ideal é avaliar cada caso para escolher o produto que vai trazer mais benefícios com menores custos.



Scot Consultoria: Como é possível aumentar a digestibilidade do amido do milho? Quais dessas alternativas são viáveis economicamente para bovinos?



Naiara da Silva: O aumento da digestibilidade do amido do milho pode ser obtido pela submissão dos grãos de milho e sorgo a técnicas de moagem, ensilagem e floculação.  Cada técnica imprime ganhos diferentes em aumento de digestibilidade.



Destaco a técnica de ensilagem de grãos de milho como uma alternativa que vem crescendo muito. Ao ensilar os grãos de milho há o rompimento da matriz de proteína que recobre os grânulos de amido, que é responsável pela dificuldade de digestão do amido do milho no rúmen. Esse processo ocorre de maneira natural pela ação de enzimas proteolíticas dos microrganismos e pela acidificação do meio durante a ensilagem. Dessa forma, o resultado é a elevação crescente da digestibilidade com o tempo de estocagem. Ao ensilar grãos de sorgo obtemos esses mesmos benefícios.



Além da elevação da digestibilidade, podemos destacar outros pontos dessa técnica em comparação às demais, como: o adiantamento da colheita da lavoura quando se faz silagem de grão úmido ou silagem de espigas (snaplage); a possibilidade de comprar grãos na safra com preços mais baixos ao fazer a silagem de grãos de milho e de sorgo reidratados; e custos mais baixos em comparação à floculação.



O aumento da digestibilidade do amido pode ocorrer também na ensilagem da planta inteira de milho e de sorgo, pelos mesmos motivos citados na ensilagem de grãos, contribuindo para a melhoria da digestibilidade da silagem. Mas para que isso ocorra de forma eficiente é importante que os grãos contidos na planta sejam quebrados.