Amigos, o trocadilho do título de hoje não poderia ser deixado em vão. Assim como no ditado popular original, a expressão descreve situações de difícil contenção.
Estamos em um mês bem chuvoso (em boa parte do Brasil), com São Pedro mandando água para baixo e, ao mesmo tempo, os preços do boi gordo engatilharam uma boa alta após a segunda quinzena do mês, que, como se diria no campo: “foi com a corda e tudo”.
Quando escrevo (fim de 28/1), o preço do indicador B3 spot encerrou o dia cotado a R$325,75/@, em São Paulo, trazendo uma alta de R$7,31/@ ou 2,3% em relação aos preços de fechamento de dezembro. Nada mal né?
Mas, se nos preços spot o movimento foi forte, no mercado futuro então... (veja na figura 1).
Figura 1.
Preço da arroba do boi gordo no mercado spot e futuro.
Fonte: B3/ Elaboração: Raphael Galo.
Notadamente os preços dos contratos futuros acabaram “puxando” os preços do spot.
Esse movimento traz preços para os próximos meses acima de R$330,00/@. E a resposta que todos querem saber é: o mercado continua subindo ou pode voltar? Aqui, trazer uma convicção de resposta seria, no mínimo, falta de humildade.
Vamos, então, recorrer às estatísticas para nos dar pelo menos um mapa (para errarmos menos).
Nos últimos 10 anos (2016-2025), tivemos o seguinte resumo do comportamento dos preços em cada mês:
• Janeiro: média +0,6% | 50,0% dos anos positivos
• Fevereiro: média - 0,9% | 30,0% positivos
• Março: média +1,2% | 60,0% positivos (melhor mês do recorte)
• Abril: média -1,5% | 10,0% positivos
• Maio: média -2,3% | 40,0% positivos (pior mês do recorte)
Hoje (28/1) temos um ágio/prêmio nos próximos meses entre R$5,75/@ e R$7,15/@ (algo como +1,8% a +2,2%) do futuro vs. spot, e quase sem “desconto” de abril/maio (curva bem “esticada” e relativamente plana no miolo).
Aplicando essas estatísticas, a leitura seria: o “miolo” do primeiro semestre tende a perder força em abril/maio com frequência bem alta, enquanto março costuma ser o melhor ponto.
Se você é pecuarista (exposto à queda do preço), uma estratégia-base seria travar preço principalmente em abril/maio (onde a estatística é mais “contra” e a curva não está pagando desconto):
1. Hedge escalonado em abril e maio (prioridade):
• Trave uma parte agora (ex: 30,0% a 50,0% do volume esperado) em abril/maio nesses R$331,00/@–R$332,00/@.
• Deixe o restante para ajustes por gatilho (ex: se o spot confirmar a tendência; se a exportação ou o dólar mudarem o regime).
2. Se quiser manter posicionado na alta (sem ficar “pelado” vendido):
• Em vez de só vender futuro, use estrutura tipo “trava + upside de alta”:
• Vende futuro (protege a queda) + compra Call/Call spread (reabre participação se esticar mais).
• Uma alternativa mais barata: collar (compra Put + vende Call) dependendo de prêmio/vol.
Por quê? Porque você está vendendo uma curva que não está precificando a fraqueza típica de abril/maio e ainda te paga um prêmio grande vs. spot.
Lembrando que isso não é, de forma alguma, recomendação, e sim um estudo! Caso necessário, procure um profissional habilitado para tal.
Traduzindo para o português fora da Faria Lima:
• Hedge=proteção/trava;
• Travar o preço = para quem vende a commodity seria vender contrato futuro ou comprar Put (seguro de queda);
• Upside = potencial de valorização;
• Vender futuro = vender o contrato futuro com o objetivo de os preços caírem ou ficarem estáveis;
• Opções Call = seguros de alta;
• Call Spread = comprar um seguro de alta de um preço e vender um seguro de alta de outro preço acima;
• Opções Put=seguros de queda;
Forte abraço e até a próxima!