Amigos, essa pergunta sempre volta nas conversas: é o mercado futuro que puxa o boi físico ou é o físico que manda na bolsa?
Em teoria, a resposta é simples: o futuro é um derivativo, logo nasce do preço do boi real, aquele que está no curral. Mas, quando olhamos para momentos de choque, como nas duas figuras abaixo, percebemos que a história é um pouco diferente.
Na figura 1, o boi em julho, vemos o comportamento do indicador B3 e do contrato futuro na época do anúncio das tarifas pelos EUA, em 9/7.
Até ali, ambos vinham escorregando de forma relativamente ordenada e o futuro até com certo ágio nas primeiras semanas. A partir da notícia, o que acontece é clássico: o futuro despenca mais rápido e mais forte, enquanto o físico sente, mas responde aos poucos, à medida que frigoríficos, escalas e negociações vão se ajustando.
Figura 1.
Comportamento dos preços da arroba do boi gordo nos mercados físico e futuro, em julho.
Fonte: B3 / Elaboração: Raphael Galo.
Na segunda figura, o boi em novembro, o filme é o contrário. Depois de um período de pressão, vem a recente notícia da retirada das tarifas, em 20/11.
De novo, quem reage primeiro é o mercado futuro, mudando rapidamente a inclinação da curva, saindo de deságio para ágio em um único pregão (pós anúncio e feriado). O indicador B3 demora alguns dias para mostrar algum alívio e, só então, começa a caminhar na mesma direção.
Figura 2.
Comportamento dos preços da arroba do boi gordo nos mercados físico e futuro, em novembro.
Fonte: B3 / Elaboração: Raphael Galo.
Ou seja, na ida (pânico) e na volta (alívio), é a tela que corre na frente, porque ali se concentra o fluxo de informação: fundos, traders, exportadores, pecuaristas hedgeados, todo mundo ajustando posições em tempo real.
O boi físico continua sendo o protagonista, mas carrega peso: logística, escalas, contratos, custo de produção. Nada disso muda com a mesma velocidade de um clique.
No curtíssimo prazo, é o mercado futuro que dá o grito e manda o recado; no médio prazo, é o fundamento físico que manda – oferta de boi pronto, retenção de fêmeas, exportação, consumo interno, milho, clima etc.
Se o futuro ficar descolado do físico por muito tempo, será obrigado a se ajustar, porque, no vencimento, ambos estarão/deverão ficar pareados. A prova disso foi o ágio do início do mês, que derreteu em apenas três pregões.
Para o pecuarista, a pergunta importante não é só quem conduz o quê, mas como usar essa dança a seu favor. Quando o futuro paga bem acima do físico, como em vários momentos dessas figuras, o mercado está oferecendo oportunidade de hedge para travar margens em níveis que talvez o boi de balcão não alcance. Quando exagera na queda, é hora de reavaliar travas, recomprar posições, usar opções e ajustar as estratégias.
Quem ignora a bolsa e decide apenas “ver o que o mercado paga na hora” fica refém da volatilidade. Já quem tem uma política de proteção bem desenhada e conta com consultoria consegue transformar esses choques em previsibilidade de caixa – não elimina o risco, mas puxa o comando da boiada de volta para a fazenda.
Ah, lembrando que a decisão e a responsabilidade da execução são sempre suas! As rédeas estão em suas mãos! Não se esquive e nem procure um culpado para um erro seu. Muitos, quando a estratégia é acertada, abraçam o mérito, mas, quando falham, é sempre culpa do frigorífico que fez tal coisa, o consultor que fez tal coisa, o gerente da fazenda que fez tal coisa e por aí vai...
No fim das contas, o físico ancora, o futuro sinaliza, e os dois se conversam o tempo todo. A diferença está em como você reage a essa conversa.
Forte abraço e bons negócios!