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Entre a virada do ciclo e o “mapa” do preço: até onde o boi pode mirar neste novo movimento?

por Raphael Galo
13/02/2026 - 18:00

Amigos, o mercado tem um jeito peculiar de avisar que algo está mudando: ele para de cair “com facilidade” e começa a sustentar preço, mesmo quando os ruídos aumentam. E, quando isso acontece, vale menos tentar adivinhar o amanhã e mais montar um mapa (guia), porque o mercado é soberano, mas quem trabalha com referência “tende a errar menos”.

Nas últimas semanas, o boi voltou a trabalhar em patamares, que há algum tempo, não eram rotina (acima dos R$335,00/@), e isso reabre uma conversa que o mercado conhece bem: ciclo. Não o ciclo como “certeza” de alta, e sim como possibilidade crescente de transição, especialmente quando alguns sinais clássicos começam a aparecer.

O fundamento que mais conversa com ciclo é a fêmea. Em janeiro, o abate de fêmeas ainda foi alto, em termos absolutos (~878 mil/cab), mas trouxe um recado importante: teve queda de -12,7% no comparativo anual. Isso não significa que a oferta virou escassa do dia para a noite, longe disso. Mas sugere que o descarte perde tração e esse é exatamente o tipo de mudança que costuma anteceder um ambiente mais favorável para preços, quando combinado com demanda firme.

Do lado da demanda, a exportação continua sendo um pilar relevante. O Brasil encerrou 2025 com desempenho recorde em embarques e receita, e janeiro de 2026 manteve um ritmo elevado. Em um mercado que ainda convive com consumo interno sensível à renda e crédito, ter a “válvula” externa funcionando em alto nível faz diferença: ajuda a enxugar excedentes e dá sustentação quando a oferta doméstica começa a ajustar.

E tem um terceiro componente que reforça esse plano de fundo: a reposição. O bezerro vem mostrando força há meses, em uma dinâmica típica de ciclo, com movimentos de valorização muito intensos ao longo do último ano e retomada de patamares nominais elevados. 

Quando o bezerro “puxa” desse jeito, ele costuma carregar duas mensagens ao mesmo tempo: de um lado, sinaliza expectativa de boi gordo mais firme à frente e uma cadeia mais disposta a pagar por reposição (o que combina com a ideia de transição de ciclo); de outro, lembra que a alta do bezerro também aperta a conta do recriador/invernista e pode antecipar momentos de ajuste na margem. Em resumo: reposição forte costuma ser combustível para o ciclo, mas também exige disciplina, principalmente na relação de troca.

Com essa combinação (fêmea perdendo intensidade no abate + demanda externa firme + reposição aquecida), a pergunta prática vira: se estivermos, de fato, iniciando um novo ciclo de alta, até onde o preço pode ir?

Aqui, fiz um estudo usando análise técnica como ferramenta, não como promessa. Fibonacci, em análise técnica, é uma forma de medir proporções dos movimentos de preço. Na prática, ele ajuda a estimar zonas prováveis onde o mercado pode encontrar resistência, realizar lucros ou “respirar” antes de continuar usando relações recorrentes (como 0,618 e 1,618) aplicadas sobre uma “pernada” anterior. Ou seja: não prevê o futuro, mas organiza o caminho.

A lógica é simples: depois de uma base, o mercado costuma fazer um primeiro impulso e, em seguida, entrar em uma consolidação mais alta. Se essa consolidação se mantém e o mercado consegue “aceitar” preços acima da região de topo (o patamar que, quando rompido e sustentado, muda a conversa), os próximos degraus tendem a aparecer por zonas.

Num cenário de continuidade, as faixas que passam a entrar no radar são, em sequência: uma primeira zona ao redor de R$370,00/@ – R$380,00/@, depois R$390,00/@ – R$400,00/@, e então R$410,00/@ – R$425,00/@. Se o ciclo ganhar corpo — e aqui estamos falando de algo que pode levar meses ou anos, e não semanas — entram zonas mais ambiciosas, como R$445,00/@ – R$460,00/@ e R$485,00 – R$505,00/@. Acima disso, há o cenário esticado, na casa de R$530,00/@ – R$545,00/@, que exige uma combinação mais rara: oferta realmente curta, demanda externa firme e ambiente macro que não atrapalhe. 

Figura 1.
Boi gordo (indicador B3, R$/@) – Histórico com mapa de alvos (Fibonacci).FF

Fonte: B3 / Elaboração: Raphael Galo.

E é aqui que vale o lembrete mais importante: ciclo de alta, quando acontece, não é linha reta. Ele pode durar meses ou anos e, no meio do caminho, o mercado vai recalibrar tudo com base em variáveis que mudam o jogo em commodities: preço e disponibilidade de reposição (e aqui o bezerro é protagonista), custo de grãos e confinamento, câmbio, ritmo de exportações e importações, consumo interno, crédito, política comercial interna e externa e margens da indústria. O boi gordo não sobe sozinho, ele negocia um conjunto de forças.

Por isso, o ponto não é “cravar” um número. O ponto é ter um mapa. Se o fundamento continuar confirmando perda de tração no descarte, a demanda seguir absorvendo bem e a reposição permanecer firme sem destruir margem, o mercado tende a trabalhar de degrau a degrau, com pausas naturais em cada faixa. E, com paciência, que é um ativo subestimado no ciclo pecuário, esses alvos podem ser construídos e atingidos ao longo do tempo.

E você? Em qual dessas projeções acredita que teremos o novo topo do ciclo de alta?

Forte abraço e até a próxima.