“Do boi tudo se aproveita”: além da carne, os miúdos, apesar de certo
preconceito, são consumidos na alimentação humana, no mercado
pet, além de usos industriais, como na medicina e na
fabricação de fármacos.
Foto: Bela Magrela
Carta Boi · Mercado de miúdoswww.scotconsultoria.com.br
Autora: Rafaela Facchina. Equipe de Analistas: Alcides Torres •
Fábio Takaku • Felipe Fabbri • Gustavo Duprat • Isabela Stevanatto •
Juliana Pila • Lorenzo Cracco • Marcelo Roschel • Mariana Hauschild
• Pedro Gonçalves • Roselena Sestari • Rodrigo de Mundo • Stéfany
Souza. Jornalista Resp.: Talita Aparecida Peixoto Dias – MTB
0022766/MG. Diagramação: Bela Magrela.
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“Do boi tudo se aproveita”: além da carne, os miúdos, apesar de certo
preconceito, são consumidos na alimentação humana, no mercado
pet, além de usos industriais, como na medicina e na fabricação
de fármacos.
1 · O que são os miúdos
Cada bovino abatido gera, além da carcaça, um conjunto de órgãos,
vísceras e partes aproveitáveis que são destinados ao consumo
humano, à indústria de alimentos, ao mercado pet, à
indústria farmacêutica e a outros segmentos industriais.
Segundo o Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos
de Origem Animal (RIISPOA), são considerados miúdos os órgãos e
partes dos animais de abate julgados aptos ao consumo humano pela
inspeção veterinária oficial. Nos bovinos, incluem-se cérebro
(encéfalo), língua, coração, fígado, rins, rúmen, retículo, omaso,
rabo e mocotó.
Dependendo dos hábitos de consumo regionais ou das exigências dos
países importadores, também podem ser aproveitados pulmões, baço,
medula espinhal, glândula mamária, testículos, lábios, bochechas,
cartilagens e outras partes previstas em normas complementares,
desde que não sejam classificadas como materiais de risco.
Já os produtos de triparia não se enquadram como miúdos. Nessa
categoria estão os intestinos, a bexiga e outras vísceras utilizadas
como envoltórios naturais para embutidos, após processamento técnico
específico.
As partes que não atendem aos requisitos para consumo humano também
possuem aproveitamento econômico, sendo destinadas principalmente à
fabricação de ingredientes para alimentação animal, fertilizantes e
outros produtos industriais.
Foto: Freepik
2 · Aproveitamento e consumo
Miúdos por boi
39,6kg
Bovino de ~419kg vivo
Do peso vivo
9,5%
Participação dos miúdos
Da carcaça
19,0%
Equivalente em peso
Entre os itens de maior participação estão o rúmen, com 9,1kg; o
intestino, com 9,0kg; o retículo, com 4,8kg; o fígado, com 4,7kg; e
o pulmão, com 2,2kg. Os demais miúdos, como rabo, língua, coração,
omaso, baço, rins, testículos, miolo, mucosa do abomaso, garganta,
bexiga e medula, apresentam menor participação individual, mas, em
conjunto, somam 7,77kg.
O destino comercial desses produtos varia conforme o tipo de miúdo e
o mercado consumidor. O consumo para alimentação está mais associado
à cultura e às tradições culinárias do que ao seu menor preço em
relação aos cortes de carne.
No consumo humano, o fígado é o item de maior aceitação no Brasil,
devido à facilidade de preparo, ao preço competitivo e ao elevado
valor nutricional, sendo rico em proteínas, ferro, vitamina A e
vitaminas do complexo B. Além disso, pode ser indicado em dietas
para tratamento de anemia, embora seu consumo deva ser moderado pelo
elevado teor de colesterol e vitamina A.
A língua também possui uma boa aceitação por parte da população,
tanto no Brasil, em preparações como molhos, conservas e churrascos,
quanto em diversos países, sendo ingrediente tradicional em
preparações como no México, Estados Unidos, França, Bélgica e
Alemanha.
O coração também é muito utilizado na culinária e pode ser
encontrado com facilidade em supermercados. É valorizado pelo
elevado teor de proteínas, ferro, zinco, selênio e coenzima Q10,
sendo consumido em preparações como bifes, carnes de panela e vem
ganhando espaço nos churrascos.
Foto: Freepik
Alguns miúdos possuem consumo associado à cultura regional, como o
mocotó, tradicional principalmente no Nordeste e no Sul, onde
integra a culinária local e, em algumas regiões, como no Rio Grande
do Sul, chega a ser consumido no café da manhã. Sua origem remonta
ao período da escravidão, quando partes menos valorizadas eram
aproveitadas na alimentação, mas atualmente o produto é considerado
uma iguaria regional.
O rabo, utilizado na preparação da rabada, também ocupa posição de
destaque na gastronomia brasileira, enquanto dobradinha e outros
pratos à base de miúdos mantêm consumo concentrado em determinadas
regiões do país.
Em mercados asiáticos, especialmente na China, alguns miúdos
apresentam valor agregado ainda maior. O vergalho bovino, por
exemplo, possui consumo direcionado ao segmento pet, como
petisco, mas é considerado uma iguaria na culinária chinesa, devido
à medicina tradicional do país.
Além do consumo direto, os miúdos também são utilizados como
matéria-prima para produtos cárneos industrializados, desde que
atendam aos requisitos sanitários estabelecidos pelo RIISPOA. Para
esse uso, devem estar livres de gordura, linfonodos, glândulas,
vesícula biliar, saco pericárdico, cartilagens, tendões, grandes
vasos, coágulos e demais tecidos não aptos ao consumo. Por outro
lado, intestinos, tonsilas, glândulas salivares, glândulas mamárias,
ovários, baço e outras estruturas definidas pela legislação não
podem ser utilizados na fabricação de produtos cárneos.
3 · Outros mercados
O aproveitamento dos miúdos também se estende a outros mercados.
No segmento pet, coração, esôfago, traqueia e aorta são
comercializados principalmente na forma de petiscos naturais
desidratados ou ingredientes para alimentação natural, devido ao
elevado teor proteico e à boa palatabilidade.
Já na indústria farmacêutica e de biomateriais, alguns órgãos
possuem elevado valor agregado. O tecido pulmonar é utilizado na
obtenção de heparina, anticoagulante amplamente empregado na
medicina. O pericárdio bovino é utilizado na fabricação de
biomateriais destinados a cirurgias cardiovasculares, enquanto o
pâncreas fornece matéria-prima para medicamentos à base de
pancreatina, utilizados na reposição enzimática.
4 · Comércio exterior
Não há registro de importação de miúdos, no entanto, o Brasil é
exportador.
Hong Kong é o maior destino dos miúdos bovinos brasileiros,
acumulando cerca de 1,7 milhão de toneladas importadas, volume
aproximadamente 7,8 vezes maior ao importado pela Costa do Marfim,
segundo maior comprador (figura 1).
Figura 1
Cinco maiores importadores de miúdos comestíveis de bovinos,
desde 1997, em mil toneladas.
Comex · até maio
Fonte: Comex · Elaborado por Scot Consultoria
A liderança de Hong Kong está relacionada também ao seu papel de
importante polo de reexportação. Por ser um porto franco, o
território facilita o comércio com a China Continental e outros
mercados asiáticos, sendo amplamente utilizado como centro de
distribuição e de acesso a diferentes rotas logísticas.
Foto: Shutterstock
Além desse fator, a demanda chinesa contribui para esse cenário, já
que os miúdos bovinos possuem elevado valor cultural e gastronômico
no país.
Na medicina tradicional chinesa, diversos órgãos são associados a
benefícios para a saúde, longevidade e beleza, sustentando parte
desse consumo.
No Japão, o elevado aproveitamento dessas partes também está
relacionado ao conceito de mottainai, que valoriza o uso
integral dos alimentos e combate ao desperdício.
Figura 2
Importação anual de miúdos bovinos comestíveis por Hong Kong, em
mil toneladas.
Comex · 1997–2025
Fonte: Comex · Elaborado por Scot Consultoria
Quando se trata de miúdos não comestíveis, o volume exportado é
menor em comparação aos miúdos destinados ao consumo humano. O
pâncreas, utilizado na fabricação de fármacos, acumulou cerca de 4,0
mil toneladas exportadas, sendo aproximadamente 3,5 mil toneladas
destinadas à África do Sul. Já o pericárdio em pedaços, totalizou
cerca de 15 toneladas exportadas no mesmo período, das quais 10
toneladas foram destinadas à Costa Rica.
5 · Aspectos sanitários
Todo esse aproveitamento está condicionado ao cumprimento de
rigorosos protocolos sanitários. O RIISPOA estabelece que os miúdos
somente podem ser comercializados após aprovação na inspeção
veterinária oficial.
Durante o abate, a evisceração deve manter a correspondência entre
carcaça e órgãos, permitindo a correta realização da inspeção
post mortem. Nesse processo, todos os órgãos são submetidos
à avaliação visual, palpação, olfação e, quando necessário,
incisões. Órgãos com lesões ou contaminados podem ser condenados de
forma individual ou, em casos de comprometimento sistêmico, implicar
a condenação da carcaça. O regulamento também define critérios para
resfriamento, congelamento, transporte e obrigatoriedade de remoção
dos Materiais Especificados de Risco (MER), além de prever
tratamentos condicionais por frio, calor ou salga em situações
específicas.
Dessa forma, o aproveitamento econômico dos miúdos está diretamente
vinculado à conformidade sanitária e à destinação adequada de cada
produto.
6 · Referências
COMEX STAT. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e
Serviços. Disponível em: https://comexstat.mdic.gov.br/pt/home.
ENGORMIX. Rendimento integral de bovinos após abate. Disponível em:
https://pt.engormix.com/pecuaria-corte/pre-abate-abate/rendimento-integral-bovinos-apos_a38093/.
RIISPOA – Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos
de Origem Animal. Decreto nº 9.013, de 29 de março de 2017,
atualizado pelo Decreto nº 10.468, de 18 de agosto de 2020.
Disponível em:
https://wp.ufpel.edu.br/inspleite/files/2020/10/RIISPOA-ALTERADO-E-ATUALIZADO-2020.pdf.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS (UEG). Eficiência produtiva e
econômica em confinamentos de bovinos de corte: estudo de caso.
2023. Disponível em:
https://repositorio.ueg.br/jspui/bitstream/riueg/6066/2/MG%20619%200111-2023.pdf.
UNIVERSIDADE DO OESTE DE SANTA CATARINA (UNOESC). Artigo científico
(ApeuX). Disponível em:
https://periodicos.unoesc.edu.br/apeux/article/view/13501.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA (UFV). Economic gains from
crop-livestock integration in relation to conventional systems.
Disponível em:
https://locus.ufv.br/items/22b419c9-269b-4ac0-affe-8410f57aa642.