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A pecuária de corte sob a dominação dos mega-frigoríficos


Quarta-feira, 6 de abril de 2011 - 10h08

Falar em crise, passados quase três anos desse fenômeno econômico, é conversa para boi dormir. Mas sou obrigado a pelo menos citar esse fato para falar sobre a concentração dos frigoríficos de carne bovina.

De todos os efeitos causados por uma crise econômica, o certeiro, aquele que vai acontecer sem a menor sombra de dúvida, é a concentração dos agentes de mercado.

E o que é um agente de mercado? Um agente de mercado, por exemplo, é um frigorífico, um açougue, uma fazenda, um pecuarista.

E isso aconteceu

Sem muito esforço, na pecuária brasileira o que assistimos pós - crise foi o fechamento de 50 plantas frigoríficas. Assistimos à concentração, dos compradores de boiadas. Vimos a redução das opções de venda. Um desastre. Um cenário nada bom para quem é boiadeiro, criador ou recriador.

E, ainda assim, apesar desse fato concreto, os preços até que se comportaram com certa dignidade. A cotação se sustentou apesar da redução dos compradores. Os fazendeiros estão felizes, o pior não aconteceu. Ainda não.

E por que foi assim?

Foi assim porque a matança de vacas, de matrizes, em 2005 e 2006, foi um escândalo. A consequência disso foi o quase colapso da renovação do rebanho, que vem se recompondo a uma velocidade menor que a demanda. Demanda interna e externa. E por que essa matança toda? Para fazer caixa, para pagar as contas. Do couro sai a correia.

O resultado desse quadro foi a sustentação dos preços, apesar das ações positivas dos compradores, que usaram todo o seu poder de pressão para reduzir as cotações.

A falta de boi foi tanta que assistimos a ações inéditas. A mais interessante, sem dúvida, foi o estabelecimento de linhas de compra de boi, tal e qual se faz rotineiramente com o leite.

O maior frigorífico do Brasil e do mundo pulverizou as compras, arrebanhando o que podia em pequenos estabelecimentos rurais, comprando até uma cabeça por propriedade. Não é fenomenal? Esse mercado que pertencia aos micro abatedouros e açougueiros passou a ser disputado pelos maiorais. Os açougueiros e pequenos supermercados não gostaram.

O diabo foi que nem assim o cenário melhorou e, a oferta de boiadas continuou e está pequena. Esse quadro só mudará quando o rebanho de matrizes se recompuser, o que deve demorar um pouco.

Então está tudo bem?

Está bem para quem tem o que vender, os preços estão firmes porque a oferta está comedida, quem teve que vender com os preços em queda demora a se recuperar, a se levantar e, como acontece ciclicamente essa melhoria na oferta virá de uma só vez, num vagalhão, fazendo os preços amolecerem. Essa é a dinâmica do mercado. O que muda então?

A sutil mudança é que com a concentração, a velocidade de reação dos preços ficou demorada, lenta, devagar quase parando. Os compradores têm consciência do poder adquirido, da grandeza que detêm e usam sem escrúpulo todo esse peso para comprar pelo menor preço. Natural, não é mesmo?

Durante 2010 esse quadro foi recorrente. Ordens de compra com ofertas melhores aconteciam somente em última instância, quando o pessoal da originação dos frigoríficos começava a dar bronca nos compradores. Essa foi uma tendência surgida em 2010. O mercado sendo testado em seus limites. Dever ser assim este ano e nos próximos.

Aliás, 2010 foi o primeiro ano, considerando a era do Real, com o mercado concentrado, resultado da crise de 2008.

E o pecuarista?

O pecuarista reagiu bem, não cedeu, ou cedeu pouco. Resta saber se essa atitude foi planejada ou se foi assim por absoluta falta do que oferecer para venda. O que você acha?

Liberdade

A liberdade que conhecíamos até a crise de 2008 acabou. É um vaticínio, pois essa nova era apenas começou. Talvez dure mil anos talvez dure nada, talvez nada mude, talvez o poder da oferta de boiadas e o tamanho da procura desmintam esse cenário escabroso (ou realista). Talvez.

Mas de fato, no duro. Os frigoríficos estão se mexendo. Constituíram mesas de risco. Arrebanharam no mercado, pessoal treinado para trabalharem como analistas. Pagam bem para quem faz esse trabalho. Antecipam-se aos movimentos. O erro de um frigorífico é aproveitado pelo outro. Todo mundo antenado. Se profissionalizaram.

Mesmo porque a grande bronca não é com o pecuarista, mas com o varejista.

Existe uma corrente de pensamento que diz que a concentração dos frigoríficos é consequência da concentração das vendas no varejo. Será?

Se isso for verdade, nessa toada, a produção de bovinos será o próximo elo da cadeia a sofrer esse tipo de fenômeno, a concentração. Menos varejistas, menos frigoríficos, menos pecuaristas.

Queremos isso? Por que aceitamos isso?

A resposta é fácil. Pulverizados versus polarizados. Os pulverizados perdem por falta de organização, de liderança, de representatividade e, é claro, por falta de poder econômico. Na revolução francesa foi o contrário, na revolução bolchevique a mesma coisa, mas essa é outra história. Um exagero na comparação?

Talvez sim, talvez não. Converse com um citricultor e pergunte para ele no que resultou a concentração das extratoras de suco. Mas pergunte logo, pois a cada ano existem menos citricultores para se fazer essa pergunta.

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